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Após ouvir sonoro "tinha que ser mulher" no trânsito, engenheira bomba na web com vídeo contra machismo e ouve desculpa de Felipe Andreoli na TV; o que isso nos ensina?

"Tinha que ser mulher!". A frase é quase uma cultura no trânsito. Quando um homem pretende ofender uma mulher ao volante, além dos xingamentos convencionais, é muito provável que você o ouça dizer: "Tinha que ser mulher". A expressão sai da boca sem remorso por muitas razões, principalmente porque ele jamais ouviu algo do tipo "Tinha que ser homem" para entender as consequências desse tipo de ofensa sexista.

Jéssica Godoy vira meme com letra de Carol Conká: 'se é pra tombar, tombei'
Reprodução
Jéssica Godoy vira meme com letra de Carol Conká: 'se é pra tombar, tombei'


Logo depois de ter passado por mais uma situação dessas,  a engenheira Jéssica Godoy, de 24 anos, decidiu gravar um vídeo e compartilhar no Facebook. Em doze dias, a gravação já gerou 58 mil compartilhamentos e a hashtag #sejamaismulhernotransito tem mobilizado depoimentos (abaixo). A repercussão foi tanta, que ela foi se sentar no sofá do "Encontro", na TV Globo, para contar sua história, nesta segunda (30).

"#tinhaquesermulhermesmo ô amarrada." Pois é, isso me aconteceu porque eu parei pra duas senhoras atravessarem a rua e...

Posted by Elayne Ketelem on  Quinta, 26 de novembro de 2015


No vídeo, Jéssica diz:

"Queria aproveitar agora que eu estacionei o meu carro pra mandar um recadinho para o rapaz que me ultrapassou hoje cantando pneu e gritando pela janela que "tinha que ser mulher mesmo". Foi tão rápido que eu não tive nem chance de responder na hora. Mas ô, infeliz, tinha que ser mulher mesmo pra respeitar o limite de velocidade de uma via, para não precisar ter um sinal vermelho em cima da minha cabeça para poder parar e dar preferência a um pedestre. Tinha que ser mulher mesmo pra acordar mais cedo e escolher roupa, passar maquiagem, fazer cabelo (...) Tinha que ser mulher mesmo para sair de casa zelando pela vida de todo mundo quando senta atrás de um volante, inclusive a sua (...) Então você tenha uma boa viagem, dirija com mais segurança, seja um pouquinho mais mulher no trânsito de repente, vai ser bom para você e para todo mundo".

Mea-culpa de Andreoli

Na TV, além de visibilidade para o tema, Jéssica conseguiu mais ainda; ouviu um desabafo do jornalista Felipe Andreoli com pedido de desculpas. O repórter do "Encontro" narrou uma ocasião em que proferiu ofensas contra uma mulher no trânsito e, após contar o episódio, admitiu ter errado. "Já (soltei um 'tinha que ser mulher'), desculpa. Não vou mentir para a Fátima", começou ele.

O desabafo do repórter foi aplaudido, e ele continuou. "Engraçado que meu comportamento no trânsito mudou a partir do momento em que eu fiz isso com uma mulher. Pensei: 'cara, imagina se eu estivesse me vendo'... Ia falar: 'meu, esse cara tem problema'. Aquilo me deixou tão constrangido comigo mesmo que eu mudei . Nem vou falar o que fiz porque foi muito feio. Ela me xingou, eu xinguei, ficou aquela troca de carícias. Mas, quando é de um homem com uma mulher fica muito feio, né?".

Felipe Andreoli: 'Nem vou falar o que fiz porque foi muito feio. Ela me xingou, eu xinguei'
Reprodução
Felipe Andreoli: 'Nem vou falar o que fiz porque foi muito feio. Ela me xingou, eu xinguei'





O que o episódio nos ensina?

É curioso como, quando nos colocamos no lugar do outro, sentimos o peso de nossas palavras e ações. Por isso, o melhor jeito de não fazer o pior para alguém é pensar, como Andreoli pensou: 'imagina se eu estivesse me vendo... Ia falar: 'meu, esse cara tem problema'. Aquilo me deixou tão constrangido comigo mesmo que eu mudei".

Perguntamos para leitoras do iG Delas o que elas já ouviram no trânsito:

"Parei na frente de uma praça, bem atrás do ponto de táxi e comecei a conversar no celular. Estava chovendo muito e o taxista veio e parou atrás de mim bem colado, mas tinha muito lugar, dava para três carros pararem. E ele não parava de fazer sinal de luz para eu sair da frente. Eu não saí e ele desceu do carro e veio ao meu encontro fazendo gestos obcenos para mim enquanto eu estava no celular. Me xingaram de 'vadia'. Fui à delegacia da cidade e a polícia não quis registrar nenhum boletim. Na delegacia da mulher me falaram que só abririam um boletim de ocorrência se eu fosse abrir um processo judicial contra ele e não quiseram registrar minha queixa". Junia Helena Fonseca, aposentada

"Na primeira vez que peguei o carro para dirigir, acabei me envolvendo em um acidente. Bati em um carro dirigido por um homem. Quando desci para me desculpar, ele me pediu a carteira de habilitação, pegou e levou embora. Além disso, me disse: 'Só podia ser mulher, mesmo, c @#$%*&' " . Jyliana Simões, publicitária

E você, já foi vítima de machismo no trânsito? Compartilhe também sua experiência com a gente nos comentários e nas páginas do portal iG no Facebook .

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