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A administradora Carla Zorzanelli investe em atitudes de compartilhamento; veja mais iniciativas que incentivam métodos alternativos de consumo

Quantas roupas você compra por ano? O cálculo pode parecer desafiador para grande parte das pessoas, mas não para a carioca Carla Zorzanelli. A internacionalista e administradora tem a resposta na ponta da língua: “No máximo, uma. Às vezes, não compro nada”.

Carla deixou o consumo de lado investir e aproveitar melhor as experiências cotidianas
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Carla deixou o consumo de lado investir e aproveitar melhor as experiências cotidianas

Há aproximadamente dois anos, Carla começou a questionar o seu estilo de vida durante o período em que comandou um projeto especial da ONU para a Rio+20, conferência que debateu o desenvolvimento sustentável. Ao estudar economias alternativas e trabalhar em equipe, a profissional tornou a colaboração o elemento chave para a mudança que buscava.

“Estamos dentro da mentalidade capitalista. No entanto, comecei a perguntar por que eu deveria colaborar com esse modelo de competição”, conta. Desde então, ela tenta contornar o consumo desenfreado em todos os seus hábitos. Roupas novas a cada estação? Nada disso. As roupas são aquelas que ela já tem no armário e quando sente a necessidade de renovar, ela opta por troca peças com amigas, garimpa em brechós e até conserta as que estão danificadas.

“Aprendi que, para ser feliz e fazer um impacto na sociedade e no meio ambiente, primeiro precisaria abrir mão da individualidade e incorporar o compartilhamento. Depois, limitar o consumo. Por isso, ao invés de comprar, aposto em trocar ou emprestar objetos”.

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Para quem deseja seguir os passos de Carla, ela avisa: muitas vezes, seu comportamento é confundido com o de uma pessoa antissocial. Para não recusar os convites de aniversários ou outras celebrações de amigos, Carla trocou os tradicionais presentes por experiências: “Em 2014, resolvi presentear minha melhor amiga com um passeio de asa-delta. Mas existem opções mais baratas, como aulas de stand-up paddle, por exemplo”. Mãos mais habilidosas podem, inclusive, confeccionar algo personalizado.

Dificuldades

Carla trocou o carro pelo transporte público mas sente que o processo ainda está em andamento. “Sinto que ainda sou muito competitiva e individualista”, confessa. “Divido o apartamento com três pessoas. Tudo é dividido por igual: conta, comida, louça. Às vezes, penso por que não podemos olhar a situação de cada pessoa separadamente? Se em um mês alguém está mais apertado, ela poderia pagar menos, enquanto alguém mais folgado poderia pagar um pouco mais. Acho que deveríamos olhar mais para os outros”.

Tem açúcar é aplicativo de compartilhamento com vizinhos
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Tem açúcar é aplicativo de compartilhamento com vizinhos

Aplicativos e iniciativas

Plataformas como Airbnb e Urbe levantaram a questão do compartilhamento em nível mundial, oferecendo alternativas aos serviços tradicionais de hospedagem e transporte. Já ouviu falar no projeto “Tem Açúcar?”, plataforma de empréstimo e doação entre a vizinhança? Criada por Camila Carvalho em dezembro de 2014, o site funciona como uma opção econômica para quem precisa de um objeto, mas não o têm em casa ou não quer comprá-lo. Quebrou a batedeira? Precisa de uma furadeira? É só pedir para os vizinhos.

Camila conta que, dentre os 56 mil usuários cadastrados (dado de agosto desse ano) em todo o território brasileiro, apenas uma havia reclamado. No entanto, sobram histórias positivas. “Com a plataforma, cria-se um senso de comunidade. Como não há uma recompensa financeira, as pessoas criam um círculo de gratidão e começam a querer difundir isso para as outras”, diz a criadora.

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Entre as histórias que já chegou à Camila, ela destaca a de um usuária que ganhou uma máquina de lavar de outra, que não fazia muito o uso do produto, como também a de uma usuária que, ao receber uma escada emprestada, presenteou a doadora com duas cervejas.

Empreendimentos colaborativos

No rio, os estudantes da PUC  Wyliam Lima, Ticiana Hugentobler e Pedro Dias criaram o aplicativo "Bora Junto", no qual usuários podem encontrar pessoas interessadas em “rachar” um táxi. Para usar o aplicativo, que funciona em qualquer lugar que for baixado e é gratuito, basta realizar um cadastro (que pode ser feito através do perfil do Facebook), informar o itinerário, a data e o horário de partida. Com a confirmação, serão apresentadas pessoas que farão trajetos semelhantes para que o usuário escolha alguma, iniciando um conversa para combinar os detalhes.

Não acho que não temos que viver sem dinheiro, precisamos dele para sobreviver, mas o que é importante para mim é balancear”

“Acredito que o maior legado do projeto como um todo é fazer com que as pessoas reconheçam novas formas de se transportar. Vivemos em um caos urbano, com dificuldades de mobilidade urbana, no qual as pessoas não se perguntam o porquê desse sofrimento. Muitas vezes, elas usam um tipo de transporte, quando poderiam optar por outras alternativas. Então, acredito que as pessoas, através do encontro, pensem em novas formas de se transportar,” afirma Pedro.

Bora Junto? é para quem quer compartilhar transporte
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Bora Junto? é para quem quer compartilhar transporte

O senso de comunidade passou a surgir também no planejamento de novos empreendimentos, como o edifício Smart Santa Cecília, localizado no bairro de mesmo nome em São Paulo, da Gafisa. Construído para que as os moradores possam ter uma maior convivência, o edifício tem como inovação um aplicativo exclusivo no qual os habitantes poderão emprestar pertences (inclusive, o carro!), compartilhar serviços (como diarista, por exemplo), escrever notificações em um espaço semelhante a um “mural de avisos” e falar diretamente com a portaria, sem que seja necessário interfonar. Em um seção de classificados, os moradores poderão colocar à venda objetos que não desejarem mais.

Com apartamentos que vão de 26 m² à 56 m² , o objetivo é priorizar os espaços sociais como academia, coworking, lavanderia, entre outros, de forma que os moradores não fiquem presos à casa e utilizem mais as áreas comuns do estabelecimento. A previsão é que a construção seja finalizada em 2018.

Compartilhar, além de trazer benefícios econômicos e ao meio ambiente, promete também descomplicar a vida. "No início, me perguntava qual era meu foco de vida. Não acho que não temos que viver sem dinheiro, precisamos dele para sobreviver, mas o que é importante para mim é balancear”, conclui.

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