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Críticos da campanha acham que o tema foi tratado com descaso e de forma preconceituosa

Preta Gil no comercial que chama o ciclo menstrual de 'mimimi'
Reprodução / O Dia
Preta Gil no comercial que chama o ciclo menstrual de 'mimimi'

Um comercial pisou feio na bola para promover um remédio novo contra as dores de cólica menstrual. Com um certo deboche, o vídeo mostrava a cantora Preta Gil interpretando uma música repetitiva, chamando o ciclo menstrual (as dores que a maiora das mulheres sentem todo mês) de “mimimi”. O mais chocante de tudo isso é que o comercial foi feito por mulheres. Preta Gil é mulher, as pessoas que dançam e repetem o tal do “mimimi” são mulheres, as pessoas que criaram a peça publicitária também são mulheres.

Ora, será que elas também acham que essa dor insuportável que atinge milhares de seres do sexo feminino é apenas uma “reclamaçãozinha besta” e que tomando o tal comprimido novo o problema será solucionado. Infelizmente, parece que sim. E se fosse “mimimi”, não existiria razão para tomar o comprimido, certo?

Mas a realidade é bem diferente e não dá para minimizar a dor e chamá-la de “mimimi”. Por causa dessas dores, muitas mulheres ficam impossibilitadas de trabalhar, muitas mulheres não conseguem fazer nada. Muitas mulheres, além de não conseguirem fazer nada, descobrem problemas ainda mais sérios. Cólica menstrual pode indicar problemas sérios, como a endometriose , que causa dores insuportáveis.

Segundo o médico ginecologista e obstetra Renato de Souza Bravo, a cólica menstrual é a tradução da contração do útero que ocorre durante o ciclo menstrual e algumas patologias benignas do útero podem contribuir para intensificar o quadro doloroso.

“É importante registrar que nesta época, a paciente está com uma maior sensibilidade, uma maior emotividade,o que pode contribuir para potencializar a percepção das dores.

Nesse período além de não ter a compreensão das pessoas, as pacientes ainda sofrem bullying no trabalho e correm o risco de não produzir 100%. Muitas pessoas tratam como se fosse frescura, mas quem fala isso é porque nunca teve útero”, enfatiza.

A farmacêutica Tháyna Sisnande, de 25 anos, descobriu um mioma de 1,2 cm justamente por conta das cólicas.

"Comecei a passar muito mal de cólica, mas passar mal de não conseguir sair da cama… Aí fui ao médico, fiz a ultra e vi que tinha o mioma", conta ela.

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Quando está nesse período menstrual, ela não consegue nem trabalhar. “São dias em casa de tanta dor. Meu chefe entende, ainda bem. Muitas pessoas não tem essa compreensão”, finaliza.

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"Dor é coisa séria", se defendeu a fabricante do produto anunciado no comercial

Já a auxiliar administrativa Thais Paes Leme, de 25 anos, não tem a mesma compreensão que Tháyna. Ela não pode faltar pois tem medo de ser mandada embora do trabalho. “Sinto muita dor, mas se eu for ao médico, eles só medicam na hora e nem dá um atestado de um dia. Nossa dor é tratada como descaso, como palhaçada. Tanto nos hospitais, quanto pelos homens que acham que estamos exagerando”, lamenta.

Em resposta a Novalfem, marca do tal comprimido, informou que “dor é coisa séria, independentemente do tipo ou da intensidade. Considerando que a marca foi desenvolvida para proporcionar alívio às dores de cabeça, cólicas menstruais e enxaqueca, de leve a moderada intensidade, a proposta da campanha ‘Sem Mimimi’ foi abordar, de maneira mais leve, alguns desconfortos que as mulheres vivem, valorizando inclusive a sua vontade de superá-los”.

Tratar com leveza este assunto não é lá uma boa ideia, visto que estamos em uma sociedade onde as mulheres estão lutando cada vez mais pela igualdade e pelo respeito sobre assuntos tão delicados como este. Cólica menstrual não é “coisa de mulherzinha”, como muitos homens dizem, tamouco é “mimimi”, como a marca tratou. Cólica menstrual é sinal de alerta de que algo não vai bem.

* Por  Bianca Lobianco

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