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Conhecido por hábitos específicos e padronizados, tipo paulista engomadinho, com camisa polo e vontade de vencer na vida, vira conteúdo de sucesso em redes sociais

“Coxinha” se tornou um dos adjetivos mais escutados nos últimos quatro ou cinco anos. Não, não estamos falando do típico salgado brasileiro recheado com frango, crocante por fora e macio por dentro, mas de um fenômeno social que tem chamado a atenção principalmente em São Paulo. A palavra ganhou mais um sentido: descrever os novos “mauricinhos” ou “engomadinhos”, que se destacam por seu estilo de vida peculiar, acompanhado de gírias e modo de vestir específicos.

Cabelo impecável e camisa polo não podem faltar – se tiver um número, um brasão ou o desenho de um cavalo, melhor. Apesar de estarem espalhados por todos os lugares – seu chefe, seu primo, um colega da faculdade e até mesmo seu vizinho podem ser coxinhas –, não existe literatura sobre o assunto. Na internet, no entanto, eles se tornaram conteúdo para redes sociais.

O Twitter @tiposdecoxinha brinca com os hábitos dos “almofadinhas” (“Coxinha que posta foto da garrafa de whisky e escreve 'dando início aos trabalhos'” ou “Coxinha que vai viajar e traz umas coisas pra vender porque lá fora é bem mais barato, meu”), enquanto o Tumblr “Troféu Coxinha de Ouro”, atualizado até 2011, exibe lugares, prédios corporativos, celebridades e revistas que merecem receber o título – ambos foram criados em 2010.

Percebendo esse movimento, Lucas Guratti, publicitário de 23 anos, resolveu criar o “Dicionário Coxês-Português” com a amiga Rossiane Antúnez em 2012. O sucesso do Tumblr foi tão grande que logo depois foi criada uma página no Facebook, hoje com quase 30 mil fãs, em que os dois reúnem os termos mais usados pelos “coxas” e os explicam no formato de um dicionário formal. Entre eles: “tenso”, “house party”, “top”, “futebas”, “premium” e muitos outros que prometem arrancar risadas.

“Definir o que é um coxinha é difícil, mas é fácil identificar um. Eu estudei na ESPM [Escola Superior de Propaganda e Marketing, em SP], então tenho uma boa base para falar deles. Mas é importante ressaltar que não sou contra, até porque tenho vários amigos considerados ‘coxinhas’”, garante Lucas. “Ser um é uma questão de escolha. Nada mais é do que um comportamento de massa, um tipo social muito comum atualmente. Todo mundo frequenta os mesmos lugares, usa as marcas de roupas do momento e tem uma preocupação exacerbada com a imagem. Muitas vezes, eles viajam para colocar fotos no Instagram e serem reconhecidos, e não porque querem conhecer uma cultura diferente”, completa.

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Imagem é a palavra-chave para compreender melhor esse perfil. Para Aurélio Melo, professor de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, já passamos por dois paradigmas na sociedade: o ser e o ter. Agora, estamos no terceiro: o parecer. “As pessoas sentem a necessidade de cultivar a aparência. Muitas, por exemplo, adquirem um carro bem acima do padrão econômico e parcelam em 72 vezes, mas o importante é que conseguiram atingir o objetivo desejado e passaram a ocupar um papel que não é exatamente o delas”.

Ele ainda afirma que hoje existe uma mobilidade muito grande entre as classes sociais, o que faz com que aqueles com menor poder aquisitivo ganhem status ao experimentarem a sensação de estar na camada que tanto almejam. É por isso que, para ser um coxinha, ter dinheiro não é necessariamente um pré-requisito. “O que se busca é o sentimento de pertencimento”.

Outra característica forte, segundo Antonio Carlos Amador Pereira, professor de Psicologia da PUC-SP, é a conformidade ao grupo. A manifestação estética é essencial para que eles se reconheçam e, de certa forma, se sintam diferenciados em comparação aos demais – ponto muito comum entre os adolescentes. Aurélio concorda. “Ao se relacionarem com outros adeptos desse mesmo estilo, eles reforçam suas identidades e transmitem uma mensagem”.

“Ecofriendly”

Apesar de “coxinhas” e “mauricinhos” terem conceitos muitos similares, Aurélio ressalta algumas pequenas diferenças: o primeiro grupo se importa ainda mais com a imagem e é mais preocupado em seguir a linha do politicamente correto, por isso muitos deles gostam de cuidar da saúde – e de publicar fotos dentro da academia nas redes sociais –, sustentam discurso sobre qualidade de vida e hábitos ecofriendly, principalmente por serem princípios em alta.

Tudo isso é material para as piadas produzidas na internet. “Consigo selecionar três perfis que acessam a página: os que acham graça e não sabem direito quem são os ‘coxas’, os que não gostam e ficam bravos ao se identificarem e, por fim, aqueles que se assumem e não veem problema nenhum. E também tem as mulheres, carinhosamente chamadas de ‘coxetes’”, conta Lucas, autor do Dicionário Coxês-Português. Mas o publicitário confessa que todo mundo tem um pouco deles dentro de si.

E por acumularem bens – seja porque se encontram numa posição econômica privilegiada ou porque se esforçam para adquiri-los –, um tópico fundamental para descrevê-los é a valorização da segurança. Condomínios fechados com várias etapas de identificação de visitantes, celulares com seguro e carros blindados. “Nós vivemos a era do terror psicológico, uma cultura paranoica, muito mais do que em outras épocas. Por isso é natural que o medo seja maior”, explica Aurélio. Isso, de certa forma, explica o caráter individualista que os distancia do resto da população, sobretudo em uma metrópole tão segregadora como São Paulo.

Origem

Ninguém sabe ao certo de onde a expressão “coxinha” nasceu. Uma vertente diz que o apelido foi inspirado nas coxas brancas dos homens arrumadinhos que usam bermuda ao tomar sol. “Essa me parece a mais plausível. O time Coritiba, por exemplo, ganhou o codinome ‘Coxa’ por causa da torcida, que era composta por descendentes alemães em sua maioria e tinham coxas brancas. Pode ter alguma conexão”, arrisca Antonio Carlos.

Outra hipótese sustenta a ideia de que o nome veio de uma gíria já existente há décadas, mas que antes designava os policiais. “Encarregados de fazer a ronda, eles se alimentavam de coxinha em bares e lanchonetes – e, em troca, garantiam a segurança”, diz Aurélio. Mas até que ponto o termo passou a fazer alusão aos novos “playboys” ainda é um mistério da língua portuguesa.

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