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Ministra de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci destaca que, apesar de mais escolarizadas, as mulheres ainda enfrentam uma série de barreiras

BBC

Eleonora Menicucci lembra que a pobreza é majoritariamente negra e feminina no Brasil
Agência Brasil
Eleonora Menicucci lembra que a pobreza é majoritariamente negra e feminina no Brasil

Para ascender profissionalmente, a mulher "precisa ser melhor do que o homem", diz Eleonora Menicucci, 69 anos, desde 2012 a ministra de Políticas para as Mulheres.
Em entrevista à BBC Brasil, Menicucci destaca que, apesar de mais escolarizadas, as mulheres ainda enfrentam uma série de barreiras.

Um exemplo: no ano passado, o maior aumento salarial registrado, segundo a pesquisa de amostra domiciliar do IBGE, foi o das domésticas - as com carteira assinada tiveram aumento de salário real de 10,8%, muito superior aos demais trabalhadores,de 4,6%.

São os governos que definem o percentual mínimo de correção salarial para esta categoria, uma das portas de entrada de mulheres pobres no mercado de trabalho.

No entanto, o quadro geral ainda permanece o mesmo. Em média, as mulheres receberem apenas 72,9% do salário dos homens no país, segundo o IBGE.

Militante feminista, a ministra Eleonora Menicucci é formada em ciências sociais, divorciada e tem dois filhos e três netos.

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BBC Brasil - Mesmo com avanços notáveis no mercado de trabalho, vemos poucas mulheres em posições de chefia e, em geral, elas ganham cerca de 70% do salário dos homens. Que passo falta para elas estarem em nível de igualdade profissional?
Eleonora Menicucci - São muitos desafios. O primeiro deles é quebrar o paradigma patriarcal, de valores e costumes, e olhar a mulher como protagonista, de capacidade e autonomia no mercado de trabalho.

Elas são mais escolarizadas que os homens, mas quando entram no mercado de trabalho, salvo no serviço público, a ascensão na carreira é dificultada enormemente. Tem um ciclo de barreiras - entre uma mulher e um homem, opta-se pelo homem. Isso faz com que elas realmente ainda ganhem menos em várias áreas.

A única área profissional em que o salário das mulheres subiu (mais) foi o das empregadas domésticas.

O segundo desafio é que, além de mostrar competência no mercado de trabalho, ela tem que ser melhor do que o homem.

Mas temos 85 empresas que aderiram a um programa (do governo federal) de boas práticas de gênero. Ao apresentar relatório do impacto da adesão ao programa, elas recebem um selo.

E na política há desafios também. Embora tenhamos a primeira presidente mulher, só temos 600 prefeitas e 12% de parlamentares mulheres (o que equivale a 45 legisladoras). Também há um patriarcado.

BBC Brasil - Isso dificulta o avanço em políticas femininas?
Eleonora Menicucci - Sem dúvida. As mulheres, na política como no trabalho, sabem o peso que é ser mulher. Têm que batalhar.

BBC Brasil - Temos também um Congresso conservador, uma bancada religiosa em expansão. Isso não é outro empecilho?
Eleonora Menicucci - Acho que não. Quem vota é o povo. Ele é mais do que conservador. Ele é (resultado) de séculos de preconceito sobre a mulher. Historicamente, só em 1932 que elas conquistaram direito ao voto e nos anos 1960 entraram no mercado de trabalho.

A nossa democracia é realmente consolidada por 25 anos de uma Constituição participativa, (mas) agora precisamos dar um salto, para uma democracia mais representativa, por meio de uma reforma eleitoral.

BBC Brasil - Em que termos?
Eleonora Menicucci - Começando pelos partidos, que têm que colocar uma lista alternada (uma candidata mulher para cada homem) e realmente investir o percentual de 5% dos recursos financeiros nas candidaturas femininas - algo que já é lei.

(Mas) pela primeira vez na história, nas últimas eleições, a ministra Carmen Lucia, do Supremo Tribunal Federal, devolveu a lista de partidos (pelo não cumprimento). Então, como militante histórica, tenho certeza de que as políticas públicas de igualdade de gêneros têm feito a diferença.

BBC Brasil - Recentemente, uma pesquisa divulgada pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Aplicadas, ligado ao governo) mostrou que os homicídios de mulheres não diminuíram após a aprovação da lei Maria da Penha.
Eleonora Menicucci -  Os dados com que a pesquisa trabalha são subnotificados. Não se pode dizer que uma lei de (apenas) sete anos fracassou. Discordo dessa conclusão.

Ao contrário, a lei reforçou a articulação entre os Poderes, prendeu 32 mil agressores, e (permitiu que) os juizados emitissem mais de 300 mil medidas de proteção (para mulheres ameaçadas de agressões). A lei é um sucesso e um desafio, porque temos que implementá-la no Brasil inteiro e porque só com campanhas de sensibilização e mobilização mudaremos a mentalidade da sociedade.

BBC Brasil - O que hoje mais dificulta a proteção das mulheres?
Eleonora Menicucci - É um conjunto de fatores. Há o resquício do patriarcado, havia pouca denúncia das mulheres - havia, não há mais, porque isso mudou -, (é preciso) facilitar o acesso das mulheres aos serviços (de atendimento) e propor medidas efetivas de autonomia econômica, inserção e emprego para que elas saiam do ciclo (de submissão).

BBC Brasil - Diz-se que a pobreza no Brasil é feminina, negra e jovem. Isso ainda vale?
Eleonora Menicucci - Vale. Dados recentes do Bolsa Família mostram que 92% das famílias beneficiadas são dirigidas por mulheres. Dessas, 72% são negras. Então ela é pobre. É a cara da pobreza no Brasil.

BBC Brasil - Os valores feministas também estão mudando? Os da próxima geração são diferentes dos da sua geração?
Eleonora Menicucci - Tenho convicção que estão mudando. A sociedade não aceita mais a impunidade, a discriminação de gênero e raça e orientação sexual. A sociedade quer respeito e quer conviver com a diversidade.

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