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Coroas de flores preto e brancas para corintianos, velório com clima espanhol e cenas da história do Brasil estão no cardápio de serviços e nos relatos da cerimonialista local

Arranjos de flores, uma bandeja com café e chás variados, uma televisão ao lado de um aparelho de ar condicionado se espalham por uma sala grande, com oito cadeiras encostadas na parede, dispostas em duplas. Um tapete grande, em tom bege, cobre grande parte do chão. Pelas compridas janelas, cobertas por persianas, é possível ver o movimento lá fora, em uma agitada avenida de São Paulo. Ao lado, um jardim intimista com plantas bem cuidadas. Poderia ser uma sala de espera de um consultório elegante, mas a urna funerária à direita revela o propósito do ambiente: é uma das salas de uma casa de velório.

Aberta em abril deste ano, a Casa de Velório, do Grupo Memorial, segue a proposta dos outros empreendimentos do gênero: acolher os familiares e fazer com que não apenas a tristeza, mas também uma homenagem, marque o momento inevitável. “É uma evolução cultural muito gradual, um novo conceito em que não vamos falar de morte, vamos falar de homenagem. É totalmente diferente”, explica a cerimonialista Íris Franco.

Apesar de não ser uma iniciativa inédita, a segunda casa de velório de São Paulo fez mais de 50 funerais em cinco meses de atividade. Seguindo um roteiro padrão, Íris explica como são feitas as homenagens no espaço. “A cerimônia é dividida em três partes: a homenagem para a pessoa, a homenagem de um familiar e a homenagem religiosa. Ao longo da solenidade, recito um poema, nós colocamos a música escolhida, servimos o coffee break. Depois, quando está no fim, convidamos os parentes a darem um último adeus e fechamos a urna”.

Além do pacote padrão, é possível incrementar os serviços de acordo com os gostos (e o poder aquisitivo) da família. Itens como músicos e serviços de buffet para 20, 30 ou 50 pessoas podem ser acrescidos à conta, que pode atingir até R$ 80 mil. Além disso, para parentes que não puderam comparecer, a Casa oferece o serviço de exibição online do velório para familiares em outros locais. “É a primeira casa no Estado de São Paulo a oferecer esse tipo de serviço. Através da internet, parentes de até outros países podem acompanhar a cerimônia”, explica a gerente de marketing do Grupo Memorial, Karyn Nassif.

Andrea Rodrigues Correa velou o pai no estabelecimento. “É um momento difícil de qualquer jeito. Mas, para os familiares, o local é bem mais ameno. A casa é bem estruturada, o que foi ótimo pois nós ficamos a noite inteira. A cerimonialista fica apoiando o tempo todo”, diz.

Para Rossana Zeloni, que homenageou sua mãe, a comodidade da casa também foi um ponto positivo. No entanto, ela precisou fazer algumas solicitações. “Pedi para o velório ter apenas três horas em vez de seis. Somos uma família pequena e minha mãe já era uma senhora de idade. A única coisa que me deu um pouco de aflição foi que o velório aconteceu na quinta, mas a cremação só foi agendada para segunda”, comenta.

Personalizado

Íris já cuidou de alguns velórios em que a personalização foi levada a sério. Para o velório de um senhor espanhol, a cerimonialista foi solicitada a encher o ambiente e a televisão com fotos e cenas do país natal. Em outro, um menino com câncer havia gravado um vídeo para a família, que foi exibido no momento da cerimônia. Para homenagear um cineasta falecido, uma integrante da família criou um script musical para a cerimônia, com a minutagem de músicas e discursos. “Nós já tivemos aqui um antigo preso político. O lugar ficou lotado, até o José Dirceu veio. Foi uma verdadeira aula de história do Brasil”, conta Íris.

A cerimonialista Íris Franco:
Edu Cesar
A cerimonialista Íris Franco: "para mim, não há diferença entre pessoa viva ou morta, o respeito é o mesmo"


Há cerca de um mês, mais uma opção somou-se ao menu do último adeus. O pacote, adequadamente intitulado “Corinthians Para Sempre”, dá direito a uma coroa de flores preto e branca, faixas do time alvinegro, uma bandeira em cima da urna funerária e, se a família quiser, a reprodução do hino do time. Segundo a Casa, 40 famílias já aderiram ao pacote.

Confiante, Íris acredita que o funeral personalizado é uma tendência. “Eu acredito que no futuro isso vai ser comum porque as pessoas vão começar a planejar, olhar para o encerramento da vida de forma mais generosa. Para mim não há diferença entre pessoa viva ou morta, o respeito é o mesmo, o valor é o mesmo”, finaliza.

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