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Com 30 anos de experiência, José Carlos Ferrigno lança livro e fala sobre o novo perfil da velhice: “O desafio maior é envelhecer em paz, sem a pressão de um ideal”

Caducou aquela ideia de que velhice é sinônimo de incapacidade. O termo “melhor idade” faz cada vez mais sentido para a sociedade contemporânea, que já entende o papel positivo dos idosos em benefício da coletividade. Autor de “Conflito e Cooperação entre Gerações” (Editora Edições Sesc SP), o psicólogo e especialista José Carlos Ferrigno explica que a experiência de vida do idoso é alimento para as novas gerações.

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"Desafio maior é envelhecer em paz, sem ser pressionado por um ideal", diz José Carlos Ferrigno


Influenciada pela situação socioeconômica, política e cultural, a relação entre gerações muda com a história. A partir dos anos 1990, os programas intergeracionais começaram a ganhar visibilidade no mundo. No Brasil, atividades culturais e trabalho voluntário integraram idosos ao convívio social, quebrando as barreiras da diferença de idade. “A riqueza cultural se dá quando há o convívio”, resume.

Apesar de a distância entre gerações não ser tão grande, o embate entre ideias novas e conservadoras ainda existe. E ele é essencial: “É o que cria a possibilidade de o mundo ser construído e reconstruído”. Confira abaixo a entrevista concedida por Ferrigno ao iG.

José Carlos Ferrigno, autor de
Dani Sandrini
José Carlos Ferrigno, autor de "Conflito e Cooperação Entre Gerações": a velhice não pode ser vista do ponto de vista das limitações, mas de suas potencialidades

iG: Como é a relação entre o idoso e o jovem?

José Carlos Ferrigno: O segredo é entender a fina dialética entre o velho e o novo. Afinal, um depende do outro. A transmissão dos mais velhos aos mais jovens é reelaborada para que os jovens apresentem a novidade. A esperança está sempre na inovação que as gerações vão trazendo. Na Alemanha e na Grã-Bretanha, por exemplo, as gerações trabalham lado a lado, ombro a ombro. O alvo dos programas intergeracionais não é beneficiar as relações em atividade, mas sim a comunidade. É um passo adiante.

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iG: O que esses programas têm a nos ensinar?

José Carlos Ferrigno: Eles representam um norte, um ideal a ser perseguido. Não se trata mais de motivar os jovens e velhos a interagirem em atividades culturais. E sim ter o grupo intergeracional, formado e consciente de suas responsabilidades sociais, trabalhando para a comunidade. Eles têm como objetivo o desenvolvimento da amizade e da coeducação entre gerações. Isso significa que uma geração tem muito a ensinar a outras em função de suas experiências.

iG: O que uma geração pode agregar à outra?

José Carlos Ferrigno: O repasse dos mais velhos para os mais jovens tem a ver com a importância da tradição, do conhecimento, de valores éticos. Já dos jovens para os mais velhos tem a ver com novas tecnologias e com uma maior flexibilidade para lidar com questões mais polêmicas, como sexualidade e drogas.

iG: Quais são os maiores desafios da velhice hoje?

José Carlos Ferrigno: O desafio maior é envelhecer em paz, sem se sentir pressionado por um ideal, e ficar menos vulnerável à pressão de consumo. São muitos apelos por um envelhecimento saudável, mas percebe-se forte manipulação na mensagem dirigida aos idosos. Há uma indústria milionária vinculada a atividades físicas, cirurgias plásticas, cosméticos e medicamentos, que impactam fortemente a velhice.

iG: Isso significa que enevelhecer bem tem mais a ver com a cabeça do que com o corpo?

José Carlos Ferrigno: A chave é o autoconhecimento e saber o que se quer para a velhice. Os budistas já diziam que não é possível desconsiderar a opinião dos outros, mas é possível minimizá-la e ganhar liberdade. Tem que haver esforço para a pessoa não ficar presa à aparência e necessitada da opinião alheia. Se a pessoa quiser malhar, tudo bem. E se ela quiser uma vida mais tranquila e parada, ela também merece respeito por sua decisão.

iG: São diferentes as velhices no Brasil?

José Carlos Ferrigno: Sim, há um contraste do ponto de vista cultural, econômico e de oportunidades. Além de pressões de ordem material, há os diferentes estilos de vida. A velhice de um trabalhador rural tem a grande vantagem do contato com a natureza mas, por outro lado, este velho pode perder experiências interessantes mais encontráveis em uma região urbana. E vice-versa. Portanto, o melhor lugar para um velho pode ser tanto a paz do interior, como a agitação das grandes cidades.

Convívio intergeracional estimula construção de identidade
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Convívio intergeracional estimula construção de identidade


iG: O que modificou o perfil da velhice?

José Carlos Ferrigno: Principalmente em classes médias e altas, que têm mais acesso ao consumo, há uma nova imagem de velhice. Nota-se uma outra postura, uma vontade maior de participação na sociedade e de experimentar novidades tecnológicas. Os velhos de hoje adotam um estilo de vida que pode aproximá-los dos jovens. Mais recentemente, esses movimentos começam a tornar menos intensa a separação das gerações.

iG: O que é “ficar velho” hoje em dia?

José Carlos Ferrigno: Os velhos e jovens se vestem de modo cada vez mais parecido. A própria internet cria situações em que um jovem pode se passar por um velho ou o contrário. Mas aproximar não significa conviver bem, os desafios se mantêm. O que está em jogo é a qualidade dessa relação, que precisa de boa vontade mútua.

iG: O que os idosos podem cobrar da sociedade?

José Carlos Ferrigno: Há vários problemas e um deles é econômico. A maioria dos idosos depende do INSS e recebe de um a dois salários mínimos, o que dá cerca de R$ 1.000. A complementação do INSS, como a previdência privada ou a poupança, fica restrita à classe média. Há também a questão da saúde. Ainda não existe atendimento digno na saúde deste país. E o atendimento de convênio custa caro e também deixa a desejar.

iG: E que espaço eles, os mais velhos, poderiam ocupar?

José Carlos Ferrigno: A gente tem uma perspectiva de que os velhos podem ter um papel e uma função social que não existia antes. Isso tende a crescer nos próximos anos. É a compreensão de que o envelhecimento não determina incapacidade e incompetência significativas. Também não se pode só dourar a pílula, há uma perda sim. Porém, a velhice não pode ser vista do ponto de vista das limitações, mas de suas potencialidades.

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iG: Qual o cenário ideal?

José Carlos Ferrigno: Em vez de enfatizar o diabetes, a insuficiência cardíaca, aquilo que é precário, vamos olhar a funcionalidade do sujeito. Ou seja, não é a visão da doença, e sim da pessoa. A ênfase do papel social do idoso faz com que ele passe a se valorizar, evitando o desespero, aquela sensação de que está chegando no fim da linha. Essa postura da sociedade dá autoconfiança para o idoso superar as dificuldades.

iG: O velho é mais livre hoje em dia?

José Carlos Ferrigno: Com as atividade físicas e culturais, o velho passa a ter mais liberdade e menos tempo para a família. Não é que a avó deixou de gostar dos netos, mas agora ela tem uma agenda e tem que negociar os horários. Não está mais o tempo todo à disposição para ajudar ou ser mão de obra.

iG: Como lidar com idosos mais fragilizados?

José Carlos Ferrigno: Sugiro que os filhos e netos parem para pensar em tudo aquilo que esses velhos fizeram durante a sua vida e que levaram a família a estar onde está. Isso implica no desenvolvimento de empatia e compreensão, inclusive pensando na própria velhice. A questão é perceber a necessidade do outro, dialogar e se interessar pelo outro.

iG: Quais são os conselhos práticos?

José Carlos Ferrigno: O ser humano é o único animal que faz da refeição um momento de confraternização. Mas perdemos o antigo hábito de jantar em família. Hoje tem microondas e cada um tem seu quarto, sua TV. Cada pessoa chega em um horário, esquenta a comida no micro e vai para o quarto. O diálogo diminuiu, por isso as pessoas precisam conversar mais. Os finais de semana podem ser uma oportunidade de a família se reencontrar. Folhear álbuns de família também pode ser de muito valor para recuperar a história familiar e gerar o enraizamento dos mais jovens.

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