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Garçonetes dos clubes da marca criada por Hugh Hefner recordam como equilibravam a rotina servindo drinques e os planos de carreira durante os anos 60 e 70

Todas as tardes, quando trocava a combinação de saia e jaqueta usada nas aulas de atuação pelo traje composto por um maiô adornado com um pompom, colocado sobre as meias finas e arrematado com uma tiara de orelhas e um par de sapatos de salto alto, a atriz e autora Kathryn Leigh Scott sentia uma espécie de arrebatamento. “Era como andar por uma área selvagem, com toda a segurança possível”, recorda.

Hoje com 70 anos, Kathryn tinha 19 quando enfiou-se no traje pela primeira vez. Era 1963 e ela estava nos bastidores do clube nova-iorquino da Playboy, onde trabalhou até 1966.

A inauguração do primeiro empreendimento da marca, em 1960, criou o emprego que atraiu milhares de jovens da época: a coelhinha da Playboy -- ou Playboy bunny. O trabalho era fácil e não exigia experiência nem formação: servir bebidas e comida nos clubes. Trocando em miúdos, ser garçonete. As exigências de apresentação e os horários de trabalho compensavam os bons ganhos para quem não tinha currículo ou diploma.

Além disso, as garotas se sentiam fazendo parte da liberação feminina dos anos 60. Mas nem todas estavam felizes. A ativista política Gloria Steinem candidatou-se para uma vaga, encarou o treinamento sob o pseudônimo de “Bunny Marie” -- todas as garotas respondiam por nomes adicionados à alcunha geral “Bunny” -- e publicou um diário e um artigo sobre a experiência. Não poupou as colegas, nem o sistema de recrutamento e treino das coelhinhas.

Os escritos de Steinem ajudaram a cunhar a imagem de mulheres exploradas sob as tiaras de orelhas. Mas as próprias ex-coelhinhas a combatem. “Jantamos juntas uma vez durante nosso treinamento. Fiquei chocada, como muitas das meninas, quando o artigo saiu [em maio de 1963, na revista Show] e vimos que ela não reconheceu o fato de que as garotas do clube -- muitas de nós éramos quase uma década mais jovens que ela -- eram tão ambiciosas quanto Gloria em seus planos de carreiras profissional. O retrato que ela fez de nós foi degradante”, queixa-se Kathryn, autora de sua própria versão sobre os anos sob a tiara, "The Bunny Years" (Pomegranate Press, sem tradução no Brasil e disponível pela Amazon).

Obsessão com a juventude

Foi exatamente o conflito entre sentir-se empoderada ou explorada que levou a fotógrafa norte-americana Robyn Twomey a procurar as ex-coelhinhas. “Ouvi uma entrevista de uma delas em uma rádio. Ela estava contando como se sentia poderosa com o trabalho no clube. Fiquei surpresa e intrigada com aquela perspectiva”, relembra Robyn.

Recém-saída da faculdade, Robyn decidiu, então, rastrear quantas ex-coelhinhas pudesse e retratá-las em um projeto fotográfico. A maioria dos retratos foi feita entre 2003 e 2004. “Eu estava cansada - e ainda estou - do exagero de retoques de Photoshop nas imagens femininas”, conta. “Por isso, o máximo que fiz nas fotos foi correção de cores”.

Consciente da falta de imagens de mulheres com mais de 50 na mídia, Robyn definiu mais uma das metas do projeto: dar visibilidade a um grupo de pessoas que não pode permanecer invisível. “Vemos o Hugh Hefner [fundador da Playboy] cada vez mais velho, mas as mulheres que o acompanham ficam cada vez mais novas”, observa. “Conforme ia clicando, percebia que estava retratando não só a nossa obsessão social com a juventude, mas também os limites dos padrões de beleza”.

"Não deixaria minha filha ser coelhinha"

Kelly Morgan define suas ocupações atuais como “escritora, corretora de imóveis e mãe”. Moradora de San Francisco, na Califórnia, Kelly também atuou no clube de Nova York, separada de Kathryn por alguns anos: estava lá em 1976. Tem boas recordações do trabalho. “Sim, fico feliz de ter usado a fantasia e participado da liberação feminina, mas era um meio para um fim”, conta.

Ex-coelhinhas da Playboy
Robyn Twomey
Ex-coelhinhas da Playboy


“Minha mãe não sabia que eu era coelhinha. Ela teria literalmente me puxado as orelhas”

Em uma época em que as ocupações “para mulheres” eram restritas e os ganhos, menores ainda, o trabalho como coelhinha -- cercado por uma série de rígidas regras, como a proibição do toque por parte dos clientes -- rendia gorjetas generosas. Algumas garotas começaram a ter mais renda mensal que seus pais, chefes de família.

Mas nem todas as famílias estavam conscientes disso. “Minha mãe não sabia que eu era coelhinha, e continuou não sabendo por um bom tempo depois de eu ter trabalhado nos clubes”, conta. “Ela teria literalmente me puxado as orelhas”, ri.

Hoje, para Kelly, nada se compara ao que representaram os clubes e as coelhinhas àquela época. E o apelo de um trabalho que paga bem com pouca escolaridade já não é tão grande. “Se tivesse uma filha hoje, não a deixaria ser coelhinha”, diz. Eu a incentivaria a estudar e trabalhar como estagiária durante a faculdade”, admite Kelly.

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