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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Por que há briga e rancor nos casamentos?

Regina Navarro reflete sobre as frustrações e expectativas geradas em relacionamentos amorosos

14/11/2011 08:30

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Paulo e Sofia são arquitetos, casados há oito anos, com dois filhos. De uns tempos para cá a convivência está se tornando insuportável. Paulo, na última sessão de terapia, desabafou: “Não está dando mais para aguentar. Brigamos por qualquer motivo. Ontem combinamos de ir ao cinema, mas na última hora apareceu um possível novo cliente no escritório. Tive que ligar para Sofia e desmarcar. Ela devia entender, mas não. Tudo é pretexto para discussões intermináveis. Não devia ter voltado para casa; brigamos até às quatro horas da manhã! O pior é quando é na frente de outras pessoas. No sábado passado, quando estávamos saindo com um casal amigo para almoçar, a briga foi por causa de uma vaga para estacionar o carro. O clima ficou péssimo. As pessoas ficam sem jeito e nunca sei como contornar essa situação. Parece que é impossível vivermos em paz. Isso sem contar o mau-humor e as caras amarradas, que são constantes. Sei que a culpa não é somente dela. Também fico sem paciência e, em alguns momentos, digo coisas agressivas. Na verdade, o que não sei é por que ainda ficamos juntos”.

Como no mundo ocidental há a ideia de que ninguém é inteiro, faltando um pedaço em cada um, com o casamento as pessoas imaginam que estarão de tal forma preenchidas, que nada mais vai lhes faltar. A ideia de ter enfim encontrado “a pessoa certa”, “a alma gêmea”, “a outra metade”, faz com que a satisfação das necessidades e carências pessoais seja vista como dever do parceiro. Além disso, se estabelece uma relação simbiótica propícia para que ambos projetem, um no outro, seus aspectos que consideram inaceitáveis, vergonhosos, sujos. Em pouco tempo o outro se torna insuportável, porque passa a ser visto como um poço de defeitos — os próprios e os que foram projetados nele pelo parceiro.

O psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa não tem dúvidas quanto ao ódio que pode se desenvolver num casamento. “Já vi casais cuja única finalidade na vida era infernizar e torturar o outro o tempo todo, em cada frase, em cada olhar. O horror dos horrores. Só dois prisioneiros vitalícios obrigados a morar para sempre na mesma cela poderiam desenvolver sentimentos tão terríveis; e só dois que se proibiram de admitir outra pessoa ou qualquer outra atividade na própria vida chegam a esse ponto de miséria moral e de degradação recíproca.”

Se a pessoa só é aceita enquanto corresponde à expectativa do outro, ela fica presa num papel e não pode sair dele. Devido ao descompasso entre o que se esperava da vida a dois e a realidade, as frustrações vão se acumulando e, de forma inconsciente, gerando ódio. Eles se cobram, se criticam e se acusam. Para Virginia Sapir, terapeuta de casais, por causa da sensação de fracasso, o que mais se vê no casamento são sentimentos de desprezo e raiva, de um para o outro, e de cada um por si.

O psicoterapeuta José Angelo Gaiarsa afirma não conhecer rancor pior que o matrimonial. “A maior parte dos casamentos, durante a maior parte do tempo, são de precários a péssimos. A cara das pessoas nessa situação fica de uma feiúra moral que assusta. O clima em torno dos dois é literalmente irrespirável, sobretudo por acreditarem ambos que têm razão.”

Para ele, o rancor matrimonial, acima de tudo amarra, pega você de qualquer jeito, imobiliza, como se você tivesse caído numa teia de aranha. Quanto mais você se mexe, mais se amargura e raiva sente. Raiva — que faz brigar; mágoa — que faz chorar. A mistura das duas é o rancor, um ficar balançando muito e muito tempo entre o homicídio e o suicídio. E cometendo ambos ao mesmo tempo, conclui ele.

Contudo, até chegar a esse ponto, o casal se esforça para manter a fantasia do par amoroso idealizado. Toleram demais um ao outro, fazendo inúmeras concessões, abrindo mão de coisas importantes, acreditando que é necessário ceder. Como nem sempre isso traz satisfação, eles se cobram, se criticam e se acusam. As brigas se sucedem. Dependendo do casal, as acusações podem se renovar ou ser as mesmas, sempre repetidas. Em muitos casos, os parceiros dependem do outro emocionalmente, precisam do parceiro para não se sentirem sozinhos e, principalmente, para que seja o depositário de suas limitações, fracassos, frustrações e também para responsabilizá-lo pela vida insatisfatória que levam.

O longo tempo de convívio pode transformar os dois ou então tornar cada um mais preso a seu próprio jeito e hábitos. Isso para se defender das cobranças, vindas do outro, para que se modifique. A consequência é um deles se tornar mais rígido, impedido de se desenvolver.

Muitos casais ficam juntos, principalmente, por hábito e por dependência. Mas com tanta necessidade do outro não é raro haver um sentimento de ódio por ele, mesmo que inconsciente.

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Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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    3 Comentários |

    Comente
    • Douglas Coutinho | 30/11/2011 09:43

      Realmente o artigo é super interessante. Alimento a ideia que casamento é o golpe final de uma relação por isso não me agrada a palavra "casamento". Tenho 21 anos e namoro a 11 meses, nesse período as cobranças por um relacionamento mais estável vem me dando dor de cabeça, não sei oque fazer, pra mim ser "eternos namorados" ta bom demais, não precisamos dividir o mesmo teto para sermos preditamente felizes.\nCada um em sua casa com seus devidos compromissos e manias. \nAdoro chegar em minha casa e achar tudo como deixei, principalmente a minha decoração que não o agrada.\nMas um dia a hora vai chegar, toma Deus que demore.\nAbraços.

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    • Douglas Fher | 25/11/2011 08:20

      Muito interessante a matéria sob o aspecto tendencioso do mundo atual. Estou vivendo algo semelhante em meu casamento e confesso que acabo cobrando demais, sendo implicante e muitas vezes sendo insuportável em minhas carencias e necessidades. Já foi pior... tenho conseguido paulatinamente reverter isso exercendo principios cristãos e com a ajuda de Deus: não devemos esperar no outro, a mudança tem que partir de nós a partir do momento que reconhecemos nossos erros; temos que dar sem esperar receber; ceder sim... por amor e decisão, pois tudo envolve decidir... amar, estar junto, estar com nossa escolha e não ficar pulando de galho em galho... deve-se valorizar a família... pois esta já é rarefeita no mundo... a Igreja tem me ajudado muito a crescer como pessoa... a aprender a amar a Deus sobre tudo, a me amar para que possa amar alguém...sem cobrança, sem espera de troca, simples e natural como o amor de Deus por nós...

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    • jaime alves da silva | 18/11/2011 10:37

      Prezada senhora Regina, fico impressionado com tantos acertos no seu artigo. Ao completar cincoenta anos de casado, e com a mesma mulher, e diga-se de passagem, primeira namorada, constato que tudo que a senhora escreve reflete, não só o meu mas, penso, todos os casamentos.\nTemos tentado levar, como se diz, "empurrando com a barriga", mas em fevereiro último minha esposa tomou a iniciativa e pediu divórcio. Aí a coisa piorou. Com "guerra" declarada, foi preciso a intervenção abençoada de nosso filho mais velho, Jaiminho (45 anos), pois a conversa que fluia era homicídio e suicídio. Nunca vi tantos acertos em um só escrito, volto a dizer. \nMuito obrigado e parabéns pelo excelente artigo.\n\n

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