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Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

O dia da caça: ela avança, ele trava

Regina Navarro fala da posição masculina diante dos novos jogos de conquista: “a situação do homem é bem complicada”

05/09/2011 10:00

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Foto: Getty Images Ampliar

Difícil é não ser o caçador

Desde que Selma começou no novo emprego, Ricardo, seu colega na empresa, se aproximou dela. Durante todo um ano se insinuou, fazendo promessas veladas dos prazeres sexuais que poderiam desfrutar juntos. Ela levava na brincadeira, ria meio sem graça, porque na verdade não se sentia atraída por ele. Mas ele não desistia. Até que se tornou mais explícito e passou a insistir para que fossem a um motel. Não perdia a oportunidade de fazer uma piadinha e lançar olhares sedutores. Selma, então, decidiu resolver a questão de uma vez por todas. Um dia, mal ele chegou, foi até sua sala dizer que desejava, naquela tarde, conferir as delícias sexuais que há tanto tempo ele prometia. Pronto. Era tudo o que não podia acontecer. “Não entendi nada. Ele deu uma desculpa, disse que estava cheio de serviço e nunca mais falou direito comigo. Nos tornamos dois estranhos”.

Mulher tomar a iniciativa da proposta sexual? “Ah, não! Isso já é demais”, é o que ainda pensam muitos homens. Eles ficam assustados ao se imaginarem nessa situação. Sentem medo de dar um “branco” na hora, de não saber como agir nem o que dizer. E o pior: pode falhar a ereção. Afinal, o papel de conquistador é o único que o homem conhece, e fora dele não dá para se sentir à vontade. Desde menino ele foi treinando para isso, e, para complicar ainda mais, acreditou que faz parte da natureza masculina ser ativo – e da feminina a passividade. Mas é inegável que, apesar de tantos equívocos e limitações, ele antes vivia bem menos ansioso nessa área do que agora.

O papel que homem e mulher desempenhavam no sexo sempre teve regras claramente estabelecidas. Fazia parte do jogo de sedução e conquista o homem insistir na proposta sexual e a mulher recusar. Contudo, ele apostava no seu sucesso e para isso não media esforços. Quanto mais ela recusava, mais ele insistia e mais emocionante o jogo se tornava – só para ele, claro. Para a mulher era um tormento. Além de toda a culpa que carregava por estar permitindo intimidade a um homem, seu desejo era desconsiderado, assim como seu prazer. Como usufruir daquele encontro? Não podia relaxar um segundo. Ela sabia que, se não se controlasse, seria logo descartada e ainda por cima rotulada de fácil.

O papel de conquistador é o único que o homem conhece, e fora dele não dá para se sentir à vontade.

Mas o homem continuava insistindo, e ela dizendo não. Ele nem a percebia, o importante era chegar ao final. Jogo cruel para ambos, é verdade. Aprisionados à moral antissexual, nenhum dos dois tinha a menor chance de experimentar o prazer proporcionado pela troca de sensações eróticas. Se em algum momento a mulher cedesse, pronto. O homem se apaziguava com a confirmação da única coisa que buscava desde o início: se sentir competente e se afirmar como macho.

Entretanto, quando a mulher resistia às investidas, a autoestima dele não era abalada. Ele se apoiava na convicção de que o motivo da recusa se devia exclusivamente ao fato de ela ser uma mulher direita, de família. Assim, imune à preocupação de ter sido rejeitado por não agradar à parceira, continuava se sentindo poderoso e absoluto. 

Toda essa encenação nos permite entender por que, até hoje, muitas mulheres se esquivam do sexo. Temendo ser usadas — e durante muito tempo foram mesmo —, se queixam com frases do tipo: “Os homens só querem sexo”, o que à primeira vista poderia soar estranho, já que ninguém duvida de que sexo é bom.

Agora as coisas mudaram. As mulheres dão sinais de não estarem nem um pouco dispostas a continuar se prestando a esse papel. Não querem apenas se mostrar belas e esperar passivamente que os homens se sintam atraídos e tomem a iniciativa. Isso está aos poucos se tornando coisa do passado. Mas como o homem vai resolver essa questão? Como vai se adaptar a essa nova realidade? O machão está em baixa, e a mulher busca homens que se relacionem com ela em nível de igualdade em tudo, também no sexo.

A situação do homem é bem complicada. Além de ser difícil de aceitar a igualdade com a mulher, o temor de ser avaliado e comparado a outros homens gera insegurança. Sem contar que outras preocupações, nunca antes sentidas, estão agora presentes o tempo todo: ter o pênis pequeno ou fino, a ejaculação precoce, não obter ereção no momento desejado, não proporcionar orgasmo à mulher. Muitos homens continuam procurando mulheres recatadas e passivas, acreditando estar assim mais garantidos. O problema é que em pouco tempo se sentem insatisfeitos.

Com a liberação dos costumes e todas as informações que são oferecidas, não dá mais para ignorar as muitas possibilidades de prazer sexual que um ser humano pode experimentar. Somente pessoas livres, que gostam de sexo e não têm preconceitos, estão em condições de compartilhar dessas descobertas com o parceiro.

Esses conflitos só vão ser resolvidos quando o sexo for aceito como algo bom, natural, que faz parte da vida. E não se precisar mais atribuir a ele motivos que não lhe são próprios.

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Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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    48 Comentários |

    Comente
    • MRFON | 06/09/2011 15:51

      Você pensa que é porque o cara é novo, mas não... não tem idade...eu tenho 48 anos e\npassei por isso, o cara com 55 me disse coisas maravilhosas, quando eu mostrei interesse, o idiota nunca mais me procurou, eu não entendi nada.

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    • | 06/09/2011 15:42

      Já me vi em situação semelhante à da reportagem e percebi q ñ existe tática mais divertida de afugentar homens q agem dessa forma, pois ñ passam de babacas! Agora qdo realmente me sinto atraída por um homem, inicialmente o observo e se realmente me certifico de q ele é interessante, procuro me aproximar e o trato de uma maneira diferenciada - um sorriso ou um olhar mais caloroso - e dou espaço p/ q ele se aproxime...

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    • Débora | 06/09/2011 11:31

      A mais pura verdade esse texto. Uma descrição perfeita. Essa moral absoluta que estabelece papéis bem definidos para mulher e homem empobrece as possibilidades de conquista do outro, é limitante. O que acontece é que tem muito homem que necessita disputar a mulher, com aquela ideia do quanto mais difícil melhor (como se nós fóssemos coisa, objeto sem vontade própria), por vaidade, para alimentar o ego de macho. Não pensam que uma mulher também tem vontades e desejos próprios. Não sabem que muitas vezes NÃO é NÃO e insistem tanto, tornando-se inconvenientes e desagradáveis. Quanto a mulher tomar a iniciativa, por que não demonstrar seus interesse sem ser mal julgada por isso?

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    • Alline | 06/09/2011 10:29

      Concordo com a reportagem,alguns homens quando se veem diante de uma mulher que sabe o que quer e no caso quer ele,ficam feitos baratas tontas sem saber o que fazer.Comigo está acontecendo isso.Somos amigos e ele vive me cantando,elogiando,até que um dia resolvi pagar para ver, saímos mais ele não sabia o que fazer,e de lá para cá ficou diferente comigo, continua a me olhar,rola uma química boa,mais ele fica na dele,e se eu me aproximar se retrai todo.Vai entender?

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    • Flor | 06/09/2011 10:10

      ALÔÔÔ! A igualdade é isso, se temos sentimentos por que não podemos demonstrá-los. Se o homem pode expor a atração que sente, por que não podemos. Acredito que, pelo menos pra mim, o homem tem que saber se chegar, pois senão também brocha a mulher. Claro que ela tem que ser muito feminina pra tomar a iniciativa, e, o homem tem que pensar que ele é que é o macho, o que comanda, pois ele fica mais masculino, com uma melhor pegada, satisfazendo MELHOR a mulher. Eu prefiro o orgasmo, a satisfação, o prazer do que a competição. O entrosamento, a troca, e, os finalmente com harmônica satisfação é o que importa pra mim. Lembre-se que também pode parecer que vocês homens fazem isso com qualquer uma, e, deixar que essa energia desperte não é bom pra homens nem pra mulheres. Isso também é grosseria e feio pra qualquer ser humano. Temos mesmo é que evoluir como pessoas, como homens e mulheres e como Ser pra sermos melhores uns com os outros na intimidade, nos aceitando, nos permitindo. Assim gozaremos mais, seremos mais realizados sexualmente.

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      Sergio | 06/09/2011 13:03

      Voce brilhou , parabéns, é esse mesmo o pensamento !

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    • Marcos Y | 06/09/2011 08:54

      Acho interessantes as mulheres que têm a iniciativa: sexualmente fico imaginando o que elas têm a oferecer e a demandar; imagino também elas seriam num relacionamento sério.\n\nNão que façam meu estilo, não que ele seja estático e definido.\n\nAtirada ou recatada, extrovertida ou tímida, cada mulher tem virtudes a oferecer - é apenas uma questão de sabermos reconhecer e apreciar. Daí vai depender das preferências de cada um para o contato avançar para o sexo casual ou pós casamento.

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    • Gilmar Soares | 06/09/2011 08:23

      Parabéns pela reportagem! Eu adoro mulheres com iniciativa, personalidade e decidida, a mulher não se torna vulgar por tomar a iniciativa, se torna INDEPENDENTE!!! Ó... TO DISPONÍVEL, MAS NÃO SOU FACINHO HEIM!!!! :)

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    • Nitro! | 05/09/2011 23:57

      Que bando de gay!\nA garota que eu estou namorando que me chamou pra sair...\nEstou com ela até agora! Que besteira não ficar com a mulher porque ela tomou a iniciativa! ¬¬'

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    • Anderson Ferreira da Silva San | 05/09/2011 21:41

      É claro que o psicológico influencia. Já viram aquele vídeo na África que um homem enfrenta um Leão só com os olhos, se rastejando como um animal. Pois é!\nAgora quem tem cérebro sabe disso. Mulher tem uma constituição, homem tem outra. Se os homens não fizerem nenhum esforço físico, ficam quase com a mesma força física da mulher que se exercita, mas se ele se exercita tem uma resposta muito maior que a mulher, ficando bem forte. Qualquer fisiologista sabe disso. O que tá acontecendo é que o mercado tá mais interessado na mulher, pois é mais consumista, não briga pelos direitos trabalhistas e é fútil.\nNinguém pode negar que durante a maior parte da história da humanidade a mulher teve sempre um papel mais secundário. Que era o de gerar filhos e criá-los até a juventude.\nSem preconceito. Só ciência.\n\nAbraços

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