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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Mulher necessita de proteção?

Regina Navarro Lins explica a dinâmica da relação com os homens

02/05/2011 11:58

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Sandra, 39 anos, é uma respeitada executiva de uma grande empresa. Está separada há seis anos e tem três filhos. Procurou terapia porque algo a aflige: “Estou namorando André há um ano. Já pensei várias vezes em terminar, mas não consigo. Ele tem inúmeras qualidades; nossa vida é divertida, o sexo é ótimo e nunca brigamos. Entretanto, o problema é a sua falta de cavalheirismo. Isso me perturba muito. Todos os meus ex se preocupavam comigo e tentavam resolver todos os meus problemas. Mas André parece que me vê como alguém que não precisa de proteção. Outro dia, saí da casa dele às nove da noite e não lhe passou pela cabeça me levar até meu carro. Tudo bem que meu carro estava na garagem do prédio, mas não achei legal. São várias atitudes desse tipo que me frustram. Ele não tem a preocupação de abrir a porta do carro para eu entrar, nem de puxar a cadeira para eu sentar. No sábado lhe telefonei cedo para dizer que um cano da minha casa estourou. Sabe o que ele respondeu? Para eu procurar logo um encanador para fazer o conserto. E falou isso como se tivesse me dado um grande apoio. Concluí que assim não dá... preciso de um homem ao meu lado que faça com que eu me sinta sempre protegida.”

Apesar de a grande revolução do século XX ter sido a das mulheres, não são poucas as que ainda fazem esse tipo de reivindicação. Ao contrário do homem, que é estimulado a ser independente desde que nasce, a mulher não é criada para defender-se e cuidar da própria vida. Quando adolescente, continua sendo treinada para a dependência. Não deve sair sozinha, seus horários, assim como sua sexualidade, são mais controlados, e é cobrada para permanecer mais tempo em casa. Por mais que estude e faça planos profissionais para o futuro, alimenta o sonho de um dia encontrar alguém que irá protegê-la e dar significado à sua vida, não dando ênfase a uma profissão que a torne de fato independente.

Apesar do movimento feminista das décadas de 60 e 70 ter feito com que grande parte das mulheres se rebelassem contra o eterno papel de donas de casa e mães, e as exigências práticas da vida não mais permitirem que elas se escondam sob a proteção do pai ou marido, para muitas a liberdade assusta. Não é para menos. Desde a infância, a mulher desenvolve uma grande dúvida interna quanto à sua competência para a vida. Afinal, foi ensinada a acreditar que, por ser mulher, não é capaz de viver por conta própria, que é frágil, com absoluta necessidade de proteção. Muitas mulheres acreditam até que serem sustentadas é um direito que têm pelo fato de serem mulheres.

O principal objetivo para a maioria continua sendo o casamento, visto como insubstituível fonte de segurança e usado como arma ideológica contra a mulher: “Uma pessoa só se realiza no casamento”; “Uma mulher não pode viver sozinha”; “A verdadeira felicidade da mulher é ter filhos”. Esses slogans são repetidos incansavelmente, mesmo que de forma subliminar.

As que se sentem capazes, com frequência temem desapontar as expectativas dos homens. Como a combinação de sexualidade e competência nas mulheres parece ameaçá-los, elas optam por esconder a sua autonomia e representar o papel feminino estereotipado. Assim, aceitam ter a função de um espelho que reflete o ideal e a fantasia do homem, sempre ajustando sua imagem de acordo com as necessidades e exigências dele.

Para a historiadora canadense Bonnie Kreps, as penalidades por não representar esse papel são rigorosas. Elas se estendem desde tornar-se invisível até a perda do apoio econômico e do status de uma pessoa saudável. “A multidão de atributos expostos nesse papel — maneiras respeitosas, olhar recatado, sorriso constante, a risada que confirma, entonação crescente, gestos físicos cautelosos, e assim por diante — foi adequadamente chamada de atitudes de acomodação”, diz ela.

Tanto a mulher que se sente insegura e frágil quanto a que se sabe competente, mas representa o papel feminino para agradar ao homem, são mulheres acomodadas. Ambas acreditam necessitar de um homem ao seu lado sem o qual não imaginam poder viver.

Um respeitado estudo americano sobre a masculinidade e a feminilidade a partir de uma perspectiva da infância confirma isso ao descrever os estágios da aprendizagem do respeito ao sexo masculino. São eles: afirmação (dos seis aos 10 anos), no qual as garotas têm rancor dos meninos; ambivalência (dos 10 aos 14 anos), quando as garotas começam a se desviar para o lado dos meninos; e acomodação (dos 14 em diante), no qual as garotas aceitam a “necessidade do apoio masculino”.

A mulher acomodada aceita que todo homem com quem se relacione a proteja. Bonnie Kreps diz ser possível observar em qualquer lugar o ritual diário pelo qual as mulheres permitem que os homens as guiem em situações físicas que podem controlar perfeitamente sem assistência masculina ou então estariam mortas. “Ainda assim, lá está ele, o braço masculino onipresente em nossa direção, dirigindo-nos nas esquinas, através das portas, para dentro dos elevadores, subindo escadas rolantes, travessando ruas. Esse braço não é necessariamente pesado ou grosseiro; é leve e delicado, porém firme, como dos cavaleiros mais confiantes com os cavalos mais bem treinados”.

Ela considera, portanto, que a noção de cavalheirismo é crítica para as mulheres. Que tipo de homem deseja proteger uma mulher? Certamente não seria um que a vê como um igual, que a encara como um par. Mas aquele que se sente superior a ela. E como diz Mae West em um dos seus filmes: “Todo homem que encontro quer me proteger... não posso imaginar do quê.”

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Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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    26 Comentários |

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    • Camila | 17/05/2011 01:46

      A mulher do início, a Sandra, ao meu ver, confunde cavalheirismo com proteção. Eu não faço questão que um homem abra a porta do carro, que abra a lata de refrigerante e a coloque em meu copo ou que puxe a cadeira para eu sentar. Verdadeiramente, nem precisa pagar toda a conta sozinho. Não vou ficar decepcionada se ele propor a divisão, acho até justa. Mas eu gosto sim e não abro mão de alguém que ouça com atenção as minhas histórias, que demonstre interesse verdadeiro, que dê espaço para eu falar. Principalmente, que respeito meus sentimentos e pensamentos, mesmo que não concorde com eles. Gosto quando se preocupa se um determinado local em que pretende me levar vai me agradar e não só exige que eu vá para manter uma postura social, quando liga pra saber se cheguei bem após sair tarde de carro da casa dele, por exemplo. Saber que posso contar com ele para qualquer coisa e situação é gostoso, sim e eu nunca consegui abrir mão disso em um relacionamento. Tive um que durou 6 anos e 2 meses... Quando toda essa proteção deixou de existir, as coisas começaram a ficar complicadas e aí foram surgindo outros problemas que fizeram com que o namoro chegasse ao fim. A decisão foi dele, em um momento super delicado na minha vida; mudanças profissionais, eu estava saindo de casa para dar início a uma vida na minha própria casa, longe do meu pai, ainda tendo que assumir problemas com a minha mãe, que estava em depressão e precisava do meu apoio e ajuda financeira... Enfim, ele, que já havia desistido do instinto protetor que vestiu nos primeiros anos de namoro, não aguentou tanta pressão e foi embora, curtir uma vida de baladas todo final de semana. Nesse momento, alguém que abra a porta do carro ou me acompanhe até o meu carro é desnecessário para mim; queria mesmo era alguém que dissesse com sinceridade; 'Pode contar comigo, eu estou com você.'\n\nBeijos, Regina.

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    • Patrícia Mariano | 03/05/2011 17:28

      Não tanto fisicamente sabe Regina, mas tenho uma necessidade de proteção dos meus sentimentos toda vez que declaro ao querido minhas emoções estou despreparada para a resposta negativa, por exemplo ontem conheci um homem maravilhoso que julguei ser sensível por ser professor de yoga, hoje depois de eu ter lhe mandado 3 torpedos ele me disse "é que dependendo da mensagem, não precisa mandar", isso me deixou triste. Mas entendi que busquei mais do que ele pôde me dar. Difícil além de proteção eu quero atenção. Mas serei melhor, mais madura e independente. Será?

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    • guilherme | 03/05/2011 11:12

      Nos homens também somos obrigados cumprir uma meta imposta pela sociedade. O cara que não tiver um mulher (no minimo) é um fracassado. Simples assim. E temos uma serie de prériquisitos que devemos preencher desde cedo. O homem deve saber ser este “braço forte do cavaleiro bem treinado” para não correr o risco da mulher procurar outro que seja. Isto é desde sempre um ciclo. Um homem faz algo, as mulheres gostam, as mulheres exigem, então todos são obrigados a fazer. Notem que quando digo todos os homens são obrigados a ser este braço forte, já tenho em vista que o poder esta na mão das mulheres. Quando um homem chama uma mulher para sair, ela é quem escolhe se vai, ou se prefere ir com outro. Veja que do lado masculino também há o medo de não corresponder às expectativas. \n É claro que não se ouve homens admitindo que as mulheres têm poder e que infelizmente somos submissos a isso. Uma das coisas exigidas por uma mulher, é que seu parceiro seja o mais poderoso. A capacidade de um homens se relacionar com as mulheres é diretamente proporcional ao poder que um homem exerce no seu grupo.\n Desta forma posso reformular a resposta dada a ultima questão: Que tipo de homem deseja proteger uma mulher? Todos, por exigência das próprias mulheres, e se ele se sente superior, não é por culpa dele que é um arrogante, e sim por que esta parece ser a única forma de relação, para a maior parte das mulheres. Este é o cerne da questão proposta pelo filosofo Luiz Felipe Pondé – Mulher você namoraria o porteiro do seu prédio? \n Regina apesar do que pode parecer considero importante o sua colocação, só não gostaria de ver a culpa dos problemas femininos sendo terceirizada para a sociedade ou para os homens. Se temos um problema devemos encara-lo de frente. Se a mulher é acomodada a culpa é dela. Se as coisas forem colocadas deste jeito, há critica mas não o crescimento. \n Vemos quase todos os dia a mesma noticia e todas as vezes que vejo fico chocado. A mulher a panha do marido. Logo depois separa. Ai ela volta. Se perguntam por que voltou? A resposta é por que amo ele. A apanha de novo. Separa de novo. Depois pega outro que é igual ao primeiro e continua apanhando. Volto a insistir o poder esta na mão das mulheres é elas em ultima instancia que escolhem o parceiro. Mas elas devem ser ensinadas a escolher direito. Bom trabalho.

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    • André | 03/05/2011 10:50

      Felicito a colunista pelas observações e pondero que se de um lado a mulher é condicionada a receber proteção, pela sua suposta "fragilidade", de outro o homem também é condicionado a protegê-la.\nTenho inúmeras amigas independentes, inteligentes e que conseguem tocar suas vidas muito bem, elas não precisam da proteção masculina.\nPorém, estão sozinhas.\nOs homens tem uma diiculdade imensa de se relacionar com essas mulheres, de perceberem que as mulheres estão com eles por opção e não por necessidade.\nÉ uma pena. \nAté a próxima

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    • Nadya Gabrielle | 03/05/2011 09:08

      Olá bom dia , Muito bem bolado o texto, porem, realmente foi-se .....\n\nfoi-se.................\nO tempo em que dependia-mos de homens para sobreviver.. Carinho... Amor...\nTudo isso já encontramos, nos amigos nas festas e no trabalho, mesmo assim sempre tem um homem querendo nos mandar. kkkkkkkkkkk (tentando)\n\nQuanto a você Sandra, criamos muita expectativa sobre a pessoa amada mais não podemos nos abalar por uma falta que sentimos,.. até porque o homem jamais poderá supri todas as necessidades da mulher.\n\nTalvez nos precisamente sentimos essa falta do carinho do nosso pai , e então vamos procurar num homem qualquer que jamais ira nos amar como ama o pai. Éhh o amor de um homem é muito importante pra nos mulheres, isso venhamos e convenhamos é bom de mais... Há como é bom ama-los. Homens queridos e amados.

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    • Fernanda | 03/05/2011 09:08

      Quanto radicalismo neste texto...!\nPor mais independentes que nós mulheres possamos ser, as essências dos gêneros são diferentes.\nAcredito realmente na maravilha da independência feminina, masculina, de qualquer um!! Liberdade e independência são fundamentais. Eu sou uma mulher independente, trabalho, pago minhas contas, tomo minhas decisões sozinha, troco lâmpadas, vejo a água do carro, etc. E sou bemmmmm feliz assim!! Mas minha essência feminina regozija com uma atitude de cuidado, zelo. Vejo isso como carinho, atenção, amor, e não como dependência, submissão!!!! O equilíbrio é muito rico. Posso combinar as duas situações: ser independente e receber atitudes de zelo. Isso não é uma "necessidade", só é mais "gostoso". Como é bom ter consciência de que não "depende" de alguém, que sabe se virar sozinha... se combinar isso com um companheiro que tenha este zelo por você, melhor ainda. Não ficaria dependente dele, saberia que se não o tivesse, faria dar certo de outro jeito. Mas carinho, cuidado, podem se temperos "a mais" para a graça da vida.

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    • Francisca | 03/05/2011 00:39

      Penso que não necessariamente tenha que ser um homem, a companhia ideal, perdi minha mãe faz seis meses, vivíamos uma para outra, eu por ser mais nova cuidava dela com todo carinho, e agora...fiquei só, perdi meu porto seguro, meu chão, minha ouvinte, minha consoladora, minha confidente, minha amiga...enfim meu tudo, Por isso digo, parti com ela, eu finjo que vivo porque tem que ser assim, a solidão é muito grande e não precisa ser só por homem.

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    • Eli Agnoletto | 02/05/2011 22:58

      gostaria de ter esses dizeres para enviar a meus amigos..

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    • | 02/05/2011 22:04

      Concordo c/ a historiadora canadense qdo diz q mulheres q querem ser protegidas são acomodadas: são aquelas q precisam ter um homem ao seu lado e preferem estão mal acompanhadas do q só... Amo os homens e os admiro justamente em razão da independência e da auto-confiança q demonstram em sua atitudes e essa admiração sempre me inspirou em ser como sou: independente, segura de mim e nem aí p/ o q os outros falam! Pode ter certeza q os homens admiram e respeitam mulheres fortes q ñ precisam deles.

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    • José Silva Sobrinho | 02/05/2011 21:49

      Puxa vida, ter que consertar cano estourado sábado de manhã é fogo! Com a evolução das mulheres, principalmente a financeira, o homem não é mais obrigado a desempenhar esse tipo de papel. É difícil saber quais mulheres ainda aceitam cavalheiros, serenatas, poemas, flores. Já vi algumas dispensar homens por esse motivo. A leitora está baseando a atual relação em relações do passado, nas quais havia cavalheirismo mas faltaram outros elementos, tanto que não avançaram. Não existe homem perfeito, o príncipe idealizado pela mulher. O jeito é adaptar-se, mas se algo que ele não tem é muito importante para mulher, a melhor solução é abrir mão do relacionamento e tentar outro, onde não falte esse elemento tão imprescindível.

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