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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Descobrindo o amor virtual

Regina Navarro Lins discute o lado bom e nada superficial dos relacionamentos na Internet

10/01/2011 13:10

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Talita, uma pedagoga de 48 anos, está separada há bastante tempo. O computador na sua vida sempre teve função limitada – enviar e receber e-mails e digitar alguns textos – até se decidir a entrar numa sala de bate-papo. Foi aí que conheceu Zé Roberto e por ele se apaixonou. “Nunca nos vimos, mas nos amamos muito. Há seis meses, todos os dias, no final do expediente dele na empresa, nos ‘encontramos’. Sabemos tudo da vida do outro. Sei quando ele está preocupado e percebo claramente quando está precisando de mim. Há dias em que sinto tanta saudade do Zé Roberto que fico ansiosa esperando o momento do nosso ‘encontro’. Quando acontece alguma coisa boa na minha vida, penso logo em contar para ele. Se estou com algum problema, ele me dá grande apoio; pensa junto comigo e me faz perceber vários ângulos da questão. Ele é casado, mas às vezes viaja a trabalho. Nessas ocasiões, ficamos muitas horas juntos à noite, cada um em frente ao seu computador. Quando vou dormir, sozinha na minha cama, me sinto profundamente ligada a ele. Arriscaria dizer até que nunca amei ninguém com tanta intensidade.”

Foto: Getty Images

O amor virtual não deve ser considerado menos complexo ou incompleto

Muitos se espantam ao ler o relato de Talita. Acreditam tratar-se apenas de fantasias solitárias de pessoas carentes. “Como é possível amar uma pessoa sem poder vê-la, tocá-la, sentir seu cheiro?”, perguntam. Penso, entretanto, que essa estranheza ocorre porque qualquer forma de pensar e viver diferente da que estamos habituados gera insegurança e medo. Afinal, o novo assusta. Ainda mais no que diz respeito aos relacionamentos amorosos.

Na verdade, não é possível julgar negativamente os relacionamentos virtuais em favor dos reais, porque nos dois casos estamos diante de processos culturais e sociais de construção de uma experiência que nunca é natural. Observando a história, percebemos que os comportamentos amorosos humanos são extremamente variados, sendo impossível encontrar uma forma universal de amor. Grandes diferenças distinguem o amor vivido na Antiguidade, na Idade Média, no século XVIII e na atualidade.

“Os amores virtuais não devem ser entendidos como amores incompletos, artificiais, desviantes, menores, e sim como amores plenos, ainda que de um tipo novo e estranho. A história do amor é a de uma sucessão de artifícios e neste momento estamos diante de mais um, tão artificial quanto todos os outros.”, diz o professor Márcio Souza Gonçalves, da Faculdade de Comunicação da UERJ, que pesquisou o tema.

O historiador inglês Theodore Zeldin vê vantagens nos relacionamentos virtuais. “Pode ser interessante de duas formas: a primeira é as pessoas exercitarem ser o que não são, desempenhando papéis. A segunda forma é ao dizer coisas que normalmente não diriam, se não estivessem no anonimato. Com isso podem ser mais sinceras. Por último, ajuda numa habilidade, muito importante, que é o flerte. Você tem que aprender como se tornar atraente para outra pessoa. Há uma troca humana de interesses. Quando duas pessoas têm uma relação de qualidade entre elas, com respeito pelo outro, isso ajuda a mudar o mundo.”

A Internet oferece a rara possibilidade de se interessar por alguém que não se vê e, portanto, ficar livre da ditadura da beleza física. Não são poucos os que admitem que jamais teriam se aproximado de uma pessoa feia, gorda ou baixa, mas que após o período de namoro virtualem, quando se deu o encontro, isso já não importava tanto. Num primeiro encontro virtual, as pessoas conversam e marcam novos encontros. Na hora combinada ficam ansiosas, exatamente como ao vivo. Quando o outro se atrasa para entrar no chat (sala de bate-papo), vem logo aquela sensação tão conhecida do medo da rejeição. Apaixonar-se pela Internet não é muito diferente do que acontece na vida real.

Num chat os internautas adotam um nome fictício e podem mentir a respeito de muitas coisas para garantir o anonimato e parecer mais atraente: idade, profissão, tipo físico, lugar onde moram, etc. Contudo, mesmo desejando conquistar o outro, ninguém consegue mentir no que de fato importa: características de personalidade como sensibilidade, generosidade, inteligência, humor e também a visão que a pessoa tem do mundo, são transmitidas desde o primeiro momento.

Após vários encontros no chat, muitos se sentem íntimos e, dependendo do estado de excitação, se decidem pelo sexo virtual. “A Internet abre um novo universo de relações humanas, possibilitando ao ser humano realizar aquilo que efetivamente é: um nó de relações voltado para todos os lados. No jogo de relações de todo tipo — comerciais, culturais e outras que se dão via Internet — se dá também a relação afetiva. Daí pode surgir enamoramento e paixão.”, diz o teólogo e escritor Leonardo Boff .

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Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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    28 Comentários |

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    • Ketellyn | 27/01/2011 05:30

      Tenho apenas 15 anos, conheci meu amor no meio de 2008, um ano depois começamos a nos falar no celular, ai sim posso dizer que ele começou a sentir o mesmo por mim, mas ele tem apenas 18 anos, moramos muito muito muito longe. Ele é meu primeiro amor, mas sofro muito, rola muitas brigas por causa do passado, cíumes e até distancia, as vezes brigamos feio e parece que tudo irá acabar, mas nunca conseguimos nos separar, a saudade sempre é mais forte. Eu sofro muito mas não me arrependo de nada, um dia ainda vou enloquecer e atravessar o estado pra ver ele. Estamos brigados á 5 dias, estou sentindo muita saudade, espero que dessa vez o "acabou" não seja verdade.

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    • Beatriz | 23/01/2011 14:49

      Estou aqui deitada ao lado do meu marido, é um sonho cada vez q eu penso nisso.ele viu meu email num email que enviei pra uma amiga em comum, ele no Libano e eu no Brasil.E me adicionou no msn, e começou a falar comigo, e isso em 2008.E essa paixão virou amor,cumplicidade, nos tornamos inseparáveis e em 2010 fui encontrar ele no Equador, nos casamos e estamos,com todas as coisas de um casal normal.Nem paro p pensar que a internet nos uniu ,duas pessoas de países diferentes,mas penso: como foi bom ele ter vindo e viver com ele é maravilhoso.Ele é estrangeiro e estou aprendendo a lidar com ele, e o amor é o que nos une,abençoado por Deus.

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    • Adriano | 23/01/2011 13:34

      eu sou bem diferente: falo logo que sou mulherengo, duro, baixinho, feio. Não gosto de iludir as pessoas. Quem gostar de mim vai ser desse jeito mesmo!!!

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    • silvia camargo | 23/01/2011 13:32

      tudo que agente passa pro outro é real, se é via internet, via olho no olho, isso pouco importa!
      eu gosto muito é de estar com as pessoas, não sou internauta nos relacionamentos mas fico curiosa em ler os artigos

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    • Argonetic | 23/01/2011 11:46

      Regina, não sei se posso chamar de amor virtual essa relação. Está centrada numa pessoa que me vendeu um produto pela Internet. Não vi seu rosto, não sei a idade, mas sei alguma coisa da trajetória histórica familiar. Identifique-me com essa história e percebo que é o início de um caminho para o relacionamento físico futuro. Pena é que mora em outro país!

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    • lili | 19/01/2011 14:08

      Realmente o amor vitual é platonico, qdo acontece não tem explicação, confesso que é a primeira vez que estou amando assim, e posso dizer que é maravilhoso, já nos comunicamos via telefone, porém qdo não falo c/ ele via net ou fone parece um vazio indescritivel! rs rs.

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    • julia | 17/01/2011 09:02

      tenho um grande amor virtual a 3 anos....nos falamos todos os dias de manhã,no almoço e de madrugada...acho que nunca vms nos encontrar mas a experiencia está valendo muito a pena....TE AMO BB....

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    • Liza | 16/01/2011 02:32

      Conheci meu ex em um site de relacionamentos, namoramos quase um ano via net, passamos mais quatro casados, e há cinco meses nos separamos, O motivo? ele não consegue viver sem a adrenalina que os namoros virtuais causam, e nunca abandanou isso, mesmo estando casado. Mas, de tudo, ficou uma boa experiência.

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    • Jacky | 15/01/2011 10:56

      Conheci meu marido pela internet,conversamos por dias,até decidirmos nos encontrar.No primeiro encontropre foi tudo muito diferente,tanto eu como ele estavamos envergonhados.saimos mais duas vezes e começamos a namorar e com oito meses nos casamos.No dia 28 de janeiro vai fazer um ano k estamos felizes,ele é a melhor pessoa k já conheci.Sempre tive cuidado com a internet e assim encontrei o grande amor da minha vida,acho k nao da pra esconder ok vc é,nao é um mundo diferente dok a gente vive,só temos k tomar certos cuidados como temos em nossa vida

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    • Elisangela | 14/01/2011 19:52

      Olá a todos!! Sim tive e foi num deles onde conheci o amor da minha vida exatamente há 7 anos e somos casados há 4 anos.Simplesmente maravilhoso!!! Somos muito felizes.

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