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Thelma Torrecilha escreve sobre a dura e deliciosa tarefa de educar os filhos

é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 28, 25 e 3 anos de idade

A TV é tão nociva para as crianças quanto cômoda para os pais

Não há evidência científica de que os vídeos contribuam para o desenvolvimento infantil

31/10/2011 08:09

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Foto: Getty Images Ampliar

Crianças e TV: mínima exposição é a recomendação de todas as pesquisas, apesar da percepção positiva dos pais brasileiros

A sociedade brasileira cultua tanto a televisão que algumas pessoas ficam bravas quando surge um novo argumento para reduzir a exposição de crianças à TV. Foi assim com a recente notícia publicada pelo Delas. Ao noticiar a recomendação da Academia Americana de Pediatria para evitar a exposição de menores de 2 anos ao vídeo, a maior parte dos comentários criticou a pesquisa e defendeu o uso da televisão por bebês.

Acompanho com interesse as notícias sobre o tema porque considero a televisão nociva demais para as crianças. Os profissionais da saúde e da educação que entrevisto constantemente são unânimes em criticar os pais que deixam os filhos por conta da televisão. Criei duas filhas quando a Xuxa era considerada a babá-eletrônica daquela geração, mas nunca a Rainha dos Baixinhos assumiu essa função lá em casa. Há mais de 20 anos, mantinha as meninas o máximo possível afastadas da TV. Com o mais novo, que está com quase quatro anos, faço a mesma coisa. Acho impossível não ver nunca, mas é possível ter bom senso para dosar e reduzir ao mínimo o tempo de exposição e o papel da televisão na vida das crianças.

Essa discussão parece estar mais adiantada nos Estados Unidos, de onde veio a recente pesquisa, do que por aqui. Um exemplo é que a Disney foi obrigada a parar de vender os programas “Baby Einstein” como educativos, porque não há evidência científica nenhuma de que os vídeos contribuam para o desenvolvimento infantil.

A série foi considerada imprópria para a educação de bebês pela Associação Americana de Pediatria. Essa foi uma vitória na batalha liderada pela educadora e psicóloga Susan Linn, criadora da Campanha por uma Infância Livre de Comerciais (Campaign for a Commercial Free Childhood) e autora dos livros “Crianças do Consumo – A Infância Roubada” e “Em Defesa do Faz de Conta”. Acompanhei exposições dela aqui no Brasil, promovidas pelo Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana.

Susan Linn explica que os programas infantis minam a brincadeira livre, fundamental para o bom desenvolvimento. Expostas constantemente à televisão, as crianças se apaixonam pelos personagens e querem todos os produtos relacionados a eles. Com isso, as brincadeiras tornam-se menos criativas, pois as crianças apenas imitam o que veem na tela. “Se as crianças estão apenas imitando, isso não é brincar de verdade”, disse.


Brincadeira criativa é criar algo do nada, a partir do que vem de dentro da criança. Os pais devem escolher brinquedos que estimulem a participação criativa da criança. “Os melhores brinquedos são aqueles que são 90% a criança e 10% o brinquedo”, completou.

O prejuízo para o desenvolvimento mental e emocional é grande quando o tempo da criança é gasto em frente à televisão. “O brincar é a fundação do aprendizado, da criatividade, da resolução construtiva de problemas, da habilidade para dar continuidade a projetos e de ter autocontrole e retardar gratificações”. Para desenvolver tudo isso e aprender a lidar com a vida, com o mundo e com os seus próprios sentimentos, as crianças precisam dar asas à imaginação, precisam inventar as suas próprias brincadeiras.

Um estudo norte-americano apontou que quanto mais o bebê fica em frente à televisão, mais resiste a desligar o aparelho quando chega aos seis anos de idade. No Brasil, crianças de zero a 12 anos passam, em média, quase cinco horas por dia em frente à TV (Ibope/2008). Imagine o estrago! Quanto tempo roubado de atividades ricas para a formação dessas crianças.

Os pais não podem permitir que a televisão substitua o diálogo e seja o porta-voz da família, ou que ligar o aparelho seja um gesto automático: chega em casa, aperta o botão; acorda, aperta o botão. Mesmo quando as crianças estão brincando, a TV permanece ligada. Isso dispersa, atrapalha a brincadeira.

Gosto muito da frase que ouvi da fonoaudióloga Flávia Benevides Foz, que recomenda o mínimo de televisão para não prejudicar o desenvolvimento da linguagem: “Na briga entre o brinquedo e a televisão, o brinquedo precisa ganhar, por mais que seja cômodo para os pais deixar a criança vendo televisão”.

E só tratei aqui da televisão rivalizando com a brincadeira criativa. Se formos falar do conteúdo da TV contribuindo para o consumismo infantil, a erotização precoce, o sexismo, a obesidade infantil etc, essa discussão vai longe...

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Sobre o articulista

Thelma Torrecilha - thelma.torrecilha@ig.com.br - é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 27, 24 e 3 anos de idade

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    7 Comentários |

    Comente
    • Luiz Paulo Vieira | 01/11/2011 09:57

      Eu sempre disse que a televisão é uma maquina de fazer lavagem cerebral. Cria uma criança desprovida de discernimento e adultos compulsivos e retardados.\nEx. É comum encontrar pessoas discutindo a atuação dos personagens das novelas, logo pela manhã... e aluno levando armas para escola porque viram no jornal das 8, noticias que em outros países acontecem isse tipo de coisas... Ou seja a tv faz apologia ao crime, e a tudo que não presta, principalmente nos países com alto índice de analfabetismo como o Brasil...\n

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    • Pedro | 01/11/2011 00:29

      Eu tenho certeza que a maioria dos pais atualmente não dispensam meros minutos em entretenimento com os filho, como ler um livro, brincar em uma praça, montar um quebra cabeças(ainda existe viu), pois desde que me conheço por gente convivo com a TV e nunca a ví como vilã, pois penso que a própria foi inventada para a boa maioria dos pais para distrair seus filhos, uma vez que os mesmos ficaram cada vez mais obcecados pelo sucesso e obtenção de riqueza em seus trabalhos que ficou muito mais fácil para distrair seus filhos, quando digo isso refiro-me a outros subterfúgios hoje existentes como aulas de artes marciais, curso de linguas, natação, e etc... Cabe aos pais monitorar o que os filhos estão assistindo e não esperar que as tv"s e muitas vezes esperar que a escola oriente os filhos do que pode e não pode assistir. A internet esta muito mais perigosa e perdida, vamos dizer aassim que a TV, pois essa é dificil de monitorar. E achar que a tv aliena as crianças é uma grande besteira, pois se fosse assim seriamos todos lunáticos pois minha geração tinha a TV como maior fonte de entretenimento. Brinquem, joguem, passeiem, conversem ,amem mais seus filhos, pois é isso que fará que não se tornem uns Zumbis aloprados.

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    • AUGUSTO SATO | 01/11/2011 00:01

      Parabéns pela matéria! Até que enfim algo que traduz a verdade acerca do enorme estrago que esta se fazendo em gerações inteiras, tornando infrutíferas, alienadas e vazios de padrão moral plantados em seu subconsciente é isto que a televisão de hoje cria!

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    • Gina | 31/10/2011 21:28

      Acredito que realmente a TV traz mais danos do que vantagens ao desenvolvimento das crianças.O simples fato da criança ser levada a ficar quietinha, só ouvindo o que está sendo projetado é indício de que há algo que há está impedindo de desenvolver-se. Penso que desenvolvimento tem a ver com interação, e como já dito por esta coluna, bebê com menos de dois anos não interagem com a TV, são espectadores passivos.

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    • Melissa | 31/10/2011 12:25

      Àqueles que acham que TV é bom para seus filhos: deixem-nos o quanto quiserem, apenas não reclamem depois das suas notas na escola, se é que isso importa?!

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    • Orlando Jose Vilela | 31/10/2011 11:29

      Ao ler esta matéria com muita atenção refletindo sobre o drama, sou a favor de um controle sobre o assunto, mais posso dizer que as crianças é refens, os pais nunca vai conseguir enibir a agressividade da TV. que entra em nossos lares vai até mesmo em nosos quartos com a presença dos que se diz artistas, o que chamo de professores do diabo, pessôas escolhidas para espalhar em nossas familiasuma praga infernal pra o resto da vida, infelismente temos muita gente que usa a inteligencia e a TV para mostrar o lado errado da da vida aos pequenos inicentes e sempre com a televizão que dá todo o apoio, e o inferno toma conta da felicidade do mundo e das pessoas, mostrando coisas que só deveria ser feito entre quatro paredes, vamos lutatar para que a TV. possa mostrar mais coisas construtivas para a vida e o futuro de nossas crianças e da humanidade espero que esta coisa que chamo de coisa errada venha se equilibrar nos ajudando a sermos mais felizes e que as famílias venham ter a razão e tranquilidade para educar seus filhos, obrigado pela atenção me ouça serás feliz junto a nós que somos do bem.

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    • paulo | 31/10/2011 11:03

      O grande fato e que a tv é um dos processos que mais provoca isolamento e solidão das crianças levando a um futuro adulto de grande sofrimento e com isso procurando cada vez mais consumir a tv e os produtos por ela propagados estimulando cada vez mais as doenças e mortes prematuras dos adultos. A força da tv é muito forte juntos aos cérebros prematuros ainda das crianças e os pais se acalmam com isso porque ainda não descobriram o maleficio que isto provoca no organismo infantil. E ainda muito mais.....

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