As audições para a escola aconteceram durante o Festival de Dança de Joinville e a nossas colunistas acompanharam tudo de perto. 430 candidatos sonham com uma vaga na tradicional escola russa de balé

A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, localizada em Joinville (SC), a única fora da Rússia, realizou durante o Festival de Dança que acontece há 35 anos sua tradicional audição para ingresso de novos alunos. Esse ano, o evento aconteceu na terça feira (25), na sede da instituição. 

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430 candidatos de 12 estados brasileiros, da Argentina e do Paraguai concorreram a uma das vagas para a única filial do Teatro no país. Na entrada da Escola, mães, pais e responsáveis apreensivos e na torcida, pois após passarem pela secretaria do Bolshoi , os candidatos sobem sozinhos e ninguém pode mais acompanhá-los.

Conquistas e decepções

A coluna viu de perto sonhos sendo realizados, mas também as decepções de não alcançá-los, alguns pela primeira vez e outros mais de uma. É o caso da bailarina de 15 anos Victoria Borges, de São Paulo capital, que pela segunda vez tenta passar no teste. “Todos sonham em entrar no Bolshoi, é uma Escola que todo mundo quer estar. Eu procuro algo que tenha foco 100% no balé clássico e um método especifico. Eu me vejo aqui dentro e me adapto fácil, mesmo sabendo que seria algo bem puxado. Se eu não passar vou continuar tentando e trabalhar sempre mais, sei que vou conseguir”, comenta a bailarina.

As bailarinas paulistanas Victoria Borges e Natália Taliane na audição da Escola Bolshoi
Cleber Gomes
As bailarinas paulistanas Victoria Borges e Natália Taliane na audição da Escola Bolshoi

A audição é dividida em três etapas, todas eliminatórias, ou seja, a dificuldade é muito grande. Para o curso de Dança Clássica, a primeira aula é de balé clássico, com exercício de barra e centro, onde é avaliado nível técnico, equilíbrio, musicalidade, giros, saltos e elasticidade, além do uso das sapatilhas de pontas no caso das meninas. Tudo é muito rígido, pois o nível da Escola é muito alto, mas parece que todas ali sabem bem sobre esse processo.

Amigas e candidatas de Rondônia
Cleber Gomes
Amigas e candidatas de Rondônia

Eduarda Uchôa, de 14 anos, e suas amigas, Kauany Bernardo, também 14, e Emilly Beto, de 13, chegaram juntas de Porto Velho para realizar o teste mesmo sendo a primeira vez na Escola. “Minha irmã era bailarina e comecei o balé aos três anos de idade e meu sonho é fazer parte do Bolshoi e é, por isso, que levanto todos os dias e vou para o balé, e se eu não passar será mais um motivo para eu trabalhar mais e continuar”, fala a candidata.

As amigas não pensam diferente. “Quero ser uma delas”, diz Emily, interrompida por Kauany que completa: “Desde criança meu sonho é ser uma bailarina profissional e me espelho no Bolshoi, quero muito ser um deles”.

Na segunda etapa dos testes são analisadas a musculatura, articulações, desvios posturais, abertura de quadril e flexibilidade.

A última parte é conhecer o perfil do candidato para saber até que ponto ele deseja ser um bailarino profissional . Não é fácil, pouquíssimos são selecionados.

Após as baterias dos exames em uma das enormes salas da escola, Sylvana Albuquerque, coordenadora de produção e audições, conversa com todos antes da primeira eliminação. “Receber um não nesse momento não é motivo para vocês desistirem e, sim, para trabalhar cada vez mais e tentar novamente”, explica carinhosamente as meninas.

Audição na Escola Bolshoi é para todos, passar é para poucos
Cleber Gomes
Audição na Escola Bolshoi é para todos, passar é para poucos

E muitas seguem exatamente o que ela diz, como a carioca de apenas 13 anos, Joyce Oliveira, que faz parte de um projeto social no Rio de Janeiro chamado Arte com Visão, pois é a segunda tentativa dela de passar na Escola. “Aqui eles valorizam a arte da dança de uma maneira séria e é isso que eu quero para a minha vida. Passei semanas vendendo chocolate no sinal com meu pai para conseguir dinheiro para chegar aqui e vou tentar até eu passar, pois meu objetivo é dar aulas para as crianças do projeto social onde estou hoje”, explica ela, que tentou a primeira vez entrar no Bolshoi aos 10 anos de idade.

Joyce vendeu chocolates ao lado do pai para bancar a viagem para a audição em Joinville
Cleber Gomes
Joyce vendeu chocolates ao lado do pai para bancar a viagem para a audição em Joinville

São muitas histórias, distâncias, e sonhos que se cruzam na mesma sala de balé. “É uma oportunidade e um sonho, se eu não passar, eu volto”, diz Natália Taliane, de 14 anos, fã da bailarina Svetlana Zakharova, ucraniana e uma das mais influentes do Bolshoi Ballet da Rússia e uma das mais bem pagas do mundo.

Sentada ao seu lado, mais uma bailarina chamada Taliane. A menina de 15 anos faz balé em um projeto social em São Paulo próximo a região da cracolandia, o Novos Sonhos, e que também tenta o teste pela primeira vez. “Estou nervosa, são muitas meninas e essa escola é um sonho”, explica emocionada. Ela tem como madrinha e inspiração no projeto a bailarina brasileira Bruna Gaglianone, que estudou na escola de Joinville e há cinco anos dança na Cia em Moscou. “Quero ser como ela”, completa.

Para os meninos que sonham em entrar na Escola, o processo é o mesmo, e antes de subirmos as escadas para chegar as salas do Bolshoi conhecemos os gêmeos Murilo e Maurilio Souza Muniz, 15 anos de idade da cidade de Santo Antônio da Patrulha/RS. Eles fazem balé há cinco anos, e tentam fazer o teste pela 2ª vez. “Vamos batalhar juntos para essa conquista, se for para passar, tem que ser os dois para que a nossa família permaneça unida e a gente possa sempre ajudar um ao outro”, diz Murilo.

Gêmeos Murilo e Maurílio
Cleber Gomes
Gêmeos Murilo e Maurílio

Eles enxergam a Escola como um trampolim para a carreira. Na cidade natal, a mãe tem uma padaria e o pai é motorista. Os gêmeos fazem aulas de balé na cidade vizinha Porto Alegre, onde são bolsistas e se dedicam diariamente para melhorar na técnica e se tornarem alunos da filial da escola russa no Brasil.

Quem já passou

Sonho que já se concretizou para alguns alunos, como o paraguaio Angelo Gimenez, de 19 anos, que aos seis foi morar em Buenos Aires. Ele começou balé aos 14. “Através de um amigo fiquei sabendo da escola, inventei uma desculpa na minha escola de dança na Argentina e viajei dois dias de ônibus sem saber onde estava indo de fato, pois não conhecia nada e nem falava a língua. Fiz a audição sem nenhuma expectativa e passei, estou aqui há um ano”, detalha. Ele que tem planos para ir para o México ou Estados Unidos quando se formar.

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Correr atrás dos sonhos também faz parte da história do também aluno Xavier de Araraquara, há três anos na escola. Fez balé por quatro anos sem gostar, e quando se deu conta já era um bailarino. Pegava ônibus e contava o dinheiro para chegar as aulas gratuitas, além de contar com vaquinhas e ajuda de seus professores. Perdeu o teste da escola russa algumas vezes, mas quando conseguiu fazer, passou. “Sou um privilegiado e sei disso, passei por muitas dificuldades para chegar aqui, me dediquei e treinei muito”, diz ele, que até patrocínio de uma empresa da sua cidade tem (Sistema Moura Informática) tamanho é o orgulho que possuem do aluno

Angelo e Luiz Fernando já são alunos da tradicional escola russa
Cleber Gomes
Angelo e Luiz Fernando já são alunos da tradicional escola russa

A instituição concede 100% de bolsas de estudos para todos os aprovados. Além de ensino gratuito, eles recebem auxilio de alimentação, transporte, uniformes, figurinos, assistência social, pedagógica, odontológica, fisioterapia, nutricionista, assistência médica e hospitalar. Os alunos devem apresentar bons resultados na escola e também no ensinou médio e fundamental.

Infelizmente nem todos realizaram o seu sonho dessa vez, pois desses candidatos somente os gêmeos Maurilio e Murilo foram aprovados, e com eles apenas mais seis bailarinos (as) que possivelmente estarão de volta em outubro de 2017, quando a Escola abre nova e maior audição. O balé é um sonho, mas também é persistência e determinação, e para a maioria que consegue chegar até as salas da Escola do Teatro Bolshoi do Brasil, sem dúvida não vão desistir tão facilmente. Para saber mais sobre balé e o universo da dança, acompanhe a coluna As Flávias no iG. 

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