Infelizmente, nossa mente é treinada para ver as imperfeições e se corrigir todo o tempo. Quem nunca se pegou com o pensamento: "Não está bom, flexível ou alto o suficiente"?

A busca contínua pela perfeição é uma espécie de combustível para os bailarinos, mesmo que isso, em algum momento, tenha o potencial de ser prejudicial. E sobre esse tema a coluna dessa semana de As Flávias , em parceria  com o Blog Tutu4Love da publicitária e bailarina Milena Pontes. 

Vídeos abundantes na internet e nas redes sociais pode ajudar e também prejudicar os bailarinos
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Vídeos abundantes na internet e nas redes sociais pode ajudar e também prejudicar os bailarinos


A ideia de ser perfeito está chegando a outro nível quando associamos a exposição das redes sociais. Quantas imagens ou vídeos de balé e dança você vê todos os dias? E quantos destes vídeos ou fotos são de bailarinos fazendo coisas extraordinárias? Alongamentos extremos, giros infinitos… O feed é assim, mas temos que exercitar um novo jeito de olhar para isso sem se auto depreciar, e esperamos que esse artigo ajude você também.

O bom e o ruim das redes

Hoje, até no Brasil, temos páginas que focam exatamente neste lado extremo e prodigioso do balé, muitas vezes confundindo estudantes iniciantes que buscam no online o complemento para as suas aulas práticas.

Infelizmente a busca por publicidade, likes e visualizações faz com que não haja qualquer critério em compartilhar vídeos de garotas precocemente nas pontas sem qualquer explicação sobre o contexto daquelas postagens, se distanciando da “vida real” da dança.

Obviamente temos que citar o lado positivo das redes. Em alguns cliques podemos assistir balés completos com os melhores do mundo, revê-los, copiar gestos, nuances, figurinos, além de obter muitos detalhes de uma obra, ou compreender aspectos da técnica que devem ser aprimoradas em uma aula sob a supervisão de um bom professor. Ser espectador também é uma das qualidades de um bom bailarino. 

Leia também: Tudo o que você precisa saber sobre dança e alongamento

"Não fazemos truques circenses"

O que nos faz neurologicamente gostar de assistir ou dançar são as emoções geradas com as surpresas que surgem em cada passo. Logo, é totalmente aceitável a evolução do balé, muito por influência do virtuosismo russo. Mas é preciso atentar-se para o fato de que a ascensão principalmente das plataformas de video (Youtube, Instagram) estão elevando as expectativas do público que se torna um tanto insensível à narrativa de um repertório completo, esperando sempre por feitos cada vez mais acrobáticos de acordo com a imagem que está sendo construída online. Recentemente algumas das grandes estrelas do Royal Ballet (uma das maiores companhias do mundo) se manifestaram sobre sentirem cada vez mais dificuldade em impressionar ao público, mas se tratando de uma arte como o balé clássico, isso é assustador. 

“Eu sinto que está se tornando um pouco perigoso com o passar dos anos as pessoas estarem cada vez mais impressionadas com os truques no bailado. Todos estão preocupados com os números de piruetas que podemos fazer, ou quão alto podemos subir e sustentar a perna. Por vezes, a linha é muito tênue entre um tipo de ginástica e a pura arte, que pode ser tão emocionante dependendo da forma como você a realiza", explica Francesca Hayward.  

Ryoichi Hirano completa: “O salto mais alto que as pessoas esperam é apenas uma fração de segundo de uma obra de até três horas. Somos contadores de histórias, não fazemos truques circenses.”

O que fazer? 

Há alguns cuidados que devem ser tomados com essa super exposição e essa busca sem fim pela perfeição e por fazer cada vez mais. São eles: 

Controle a autocrítica

Para os bailarinos (profissionais ou não), se auto depreciar pode ser muito comum ao assistir a vídeos ou ver fotos, e isto pode nos afastar dos inúmeros benefícios que a dança traz. Já se sabe que eles desenvolvem um senso autocrítico um tanto severo, e com as janelas sobre as habilidades alheias que a internet abre, essa característica é elevada a máxima potência. 

É preciso cuidado ao ver todos o conteúdo disponível nas redes sociais
Reprodução
É preciso cuidado ao ver todos o conteúdo disponível nas redes sociais

Um exemplo: com o crescimento do balé adulto, muitas mulheres apaixonadas pela dança buscam cada vez mais informações nas redes. Mas muitas dessas “dicas” vem de bailarinos já experientes que obviamente possuem habilidades físicas muito diferentes, e  para gerar cada vez mais likes e compartilhamentos, vão em direção da super valorização da flexibilidade. Tudo isso causa muito mais frustração que o acolhimento que esta troca deveria gerar. 

A busca pela perfeição está sempre em andamento porque a perfeição nunca pode ser alcançada. Isso não deve desencorajá-lo, e, sim, gerar uma paixão infinita dentro de você para viver a forma de arte que você ama.  

O auto discurso negativo tornou-se muito comum na dança . O autoelogio pode passar a impressão de superioridade, e quando você está falando negativamente de si mesmo para um amigo, inconscientemente isso gera uma certa “união” e um sentimento de cumplicidade.

A inclinação para criticar-se frequentemente começa em torno da adolescência, e sempre que há um objetivo fazemos um balanço de nossas qualidades e defeitos afim de traçar o melhor caminho para atingí-lo. Nossos corpos são nossos instrumentos nessa jornada, qualquer falha percebida tornar-se uma ameaça ao nosso sucesso.

Use qualquer crítica negativa em sua vantagem. O mundo inteiro está aqui para julgá-lo, então enalteça seus pontos positivos e dance a favor dos seus objetivos.

Quebre o hábito

"Mindfulness” é  a prática de estar plenamente presente em cada momento enquanto calmamente aceita os pensamentos e sentimentos que você tem sobre ele.

Psicológos incentivam os bailarinos a aceitar o fato de que temos pensamentos negativos e decidir sobre ações que são consistentes com os valores que nos esforçamos para ter. Os dançarinos precisam ser capazes de formar críticas construtivas. Mas também precisamos distinguir um pensamento viável do impraticável.

Seus pensamentos não são quem você é, eles são simplesmente eventos mentais, porém transformar a forma como reflete sobre suas qualidades e defeitos mudam também a sua relação com a dança.

Diga para si mesmo uma coisa boa sobre sua dança. E quando estiver tendo sentimentos negativos na sala de aula, se volte para esse pensamento positivo.

Faça da autocrítica uma ferramenta útil

A autocrítica é útil quando é parte de um planejamento. Estabelecer metas e ser capaz de perceber os resultados que está tendo é muito importante para esse processo.

“Ser capaz de perceber a si mesmo de forma equilibrada e com coerência é uma arte.”   (Vamos falar sobre a construção e a importância da auto imagem em breve aqui na coluna) 

Identique a auto-sabotagem

Todo pensamento é emocional em vez de lógico. Muitas vezes, estes bailarinos não estão apenas se comparando ao seu reflexo no espelho, mas também com cada um da classe. Auto-sabotagem é destrutiva e negativa e inevitavelmente só acentuam suas fraquezas.

É muito mais fácil observar este comportamento em outras pessoas, mas podemos, também estarmos nos auto-sabotando e sem perceber.

A auto-sabotagem ocorre quando nós mesmos criamos problemas ou obstáculos para a realização de alguma meta, compromissos, sonhos ou projetos. Pode ser um hábito automático, programado no subconsciente, um destes hábitos está relacionado com o adiamento para o futuro de coisas que poderiam ser feitas no presente, e também com outras atitudes das quais vamos enumerar agora:

 Livre-se da crença limitante

Crença limitaste é quando você pensa ou diz certas frases como se fossem uma verdade absoluta, é a história que você conta para si mesmo: “Eu não consigo…”  “eu nunca…” “não sou capaz de…”.

“Se você acha que pode, ou se você acha que não pode, você está certo”, ja defendia Henri Ford

 Não se esconda

Você busca o seu progresso nas aulas, mas está o tempo todo preocupado em não se arriscar demais com medo de uma observação mais dura do professor. Este hábito te faz estar sempre atrás de alguém, alimentando o vício por copiar as seqüências e tentando não ser visto.

Um homem é medido pela tamanho de seus sonhos.

Nosso maior tesouro é a capacidade de sonhar. Como co-criadores de nossa realidade, os bailarinos podem criar qualquer imagem que nossa tela mental possa pintar. Mas basta que você determine para si um meta grandiosa, para que o brilho da realização aponte pensamentos e hábitos que se colocarão entre você e seu triunfo. Para saber mais sobre o universo da dança, acompanhe a coluna As Flávias no iG

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