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Passamos um dia com a designer para revelar os detalhes da produção artesanal dos móveis de madeira que vêm encantando o mercado

“As placas estão cortadas? Vamos colocar este pé mais para trás? Por que o braço da poltrona ficou tão folgado?” É assim que a designer Juliana Llussá trabalha: se envolvendo em todas as etapas de fabricação dos móveis. Sem mesa própria, ela chega à marcenaria localizada no bairro da Barra Funda, em São Paulo, e começa a analisar e questionar tudo. Rabisca projetos nas bancadas, testa o conforto e a ergonomia de uma poltrona recém-finalizada e checa o encaixe sem pregos ou parafusos de uma estante. Nada ali sai sem seu aval.

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Filha de uma economista e um administrador de empresas, Juliana, 42, descobriu seu fascínio pela madeira ainda na faculdade de arquitetura na Universidade de São Paulo, ao produzir uma cadeira na disciplina de desenho industrial. Onze anos depois, seu trabalho é apontado como um dos expoentes do design nacional e listado ao lado do de mestres como Hugo França e Carlos Motta. Não à toa foi convidada a criar a cadeira tema do filme “A Cadeira do Pai”, com Wagner Moura (depois rebatizado como “A Busca”), teve suas peças expostas durante a Semana de Design de Milão de 2013 e três indicações no prêmio “Design” do Museu da Casa Brasileira. “Sou muito autocrítica, às vezes olho uma peça e reflito se ela não poderia ter sido feita nos anos 40. Gosto de analisar o que torna um móvel realmente contemporâneo e criar algo novo”, afirma.

Focada no trabalho artesanal e de resgate de técnicas tradicionais da marcenaria , Juliana prioriza a produção de peças sem pregos ou parafusos, que exigem cuidadoso trabalho manual de sua equipe reduzida. A primeira coleção de 12 peças, por exemplo, contou com a ajuda de apenas um único marceneiro e levou oito meses para ser lançada. “Minha produção é baseada no sistema de encaixes colados. A técnica garante resistência e muita beleza às peças de madeira”, afirma. Daí o requinte de seu mobiliário, que chega a custar quase R$ 20 mil. A estante “Árbol”, uma de suas peças mais conhecidas, sai R$ 18.770, e o biombo “Noi”, R$ 14.970, ambas na nova loja – aberta ao público hoje –, no bairro de Pinheiros.

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Os profissionais da marcenaria valorizam os detalhes durante a finalização das peças
Edu Cesar
Os profissionais da marcenaria valorizam os detalhes durante a finalização das peças

Um pouco arquiteta, marceneira e administradora – ela também cursou administração na Fundação Getúlio Vargas (FGV), artes plásticas na FAAP e marcenaria no Senai –, a designer paulistana divide seu dia entre visitas à marcenaria e à loja, no melhor estilo “o olho do dono é que engorda o gado”. Quando na marcenaria, chega pelos fundos e não se importa com poeira ou forte cheiro de verniz. Ao contrário, está totalmente em casa, sempre junto à equipe. O jeito prático e direto faz que logo distribua novas tarefas aos funcionários e converse sobre o andamento dos projetos. Cada mudança é discutida e feita na mesma hora. E se ainda não ficar bom? Juliana mostra ao marceneiro ou faz ela própria a alteração necessária.

Dividida entre produção, estoque e acabamento, a marcenaria tem espaço para manter guardado cerca de 40 m³ de madeira maciça e certificada. De cumaru, sucupira e cedro a breu-vermelho, todas vindas de uma associação de produtores acreanos. Apenas a freijó, outra matéria-prima de destaque em suas criações, vem da capital paulista. O acabamento das peças é realizado no galpão. Os móveis recebem camadas de verniz italiano resistente à água e, caso seja necessário tapeçaria ou empalhamento, profissionais terceirizados se encarregam das tarefas. “A palha indiana é trançada à mão e o acabamento realizado na própria fibra. As tramas resultantes de produções artesanais são muito mais resistentes e bem feitas”, garante.

E o dia de Juliana Llussá não termina aí. A profissional faz ainda uma segunda jornada na loja e se dedica a compromissos administrativos. Atende fornecedores, lê e-mails, prepara sua agenda, confirma a entrega de produtos e cuida até mesmo da escolha de layouts relacionados a outros projetos da marca. “É necessário estar presente na empresa, cuidar do investimento, do estoque, da equipe e das vendas. Acredito que o trabalho renda mais quando pessoas interessadas estão próximas a você”, afirma. Mas engana-se quem imagina Juliana ausente do processo criativo nestes momentos. “As ideias surgem em qualquer lugar. Busco ficar atenta e colocar tudo no papel. Muitas vezes a criação é fruto de um pedido do cliente”, diz a profissional, que acaba de lançar novos móveis e já pensa em inovar . “Sempre me questionei porque não misturar metal e madeira. É uma ideia, uma possibilidade para criar. Trabalhar com madeira é apaixonante.”

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