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Encontros Crespos fazem parte da luta diária do movimento negro pela igualdade e aceitação

Em um mar de pessoas incentivadas a esconder cachos e cabelos crespos, um grupo chama a atenção. São os participantes dos chamados Encontros Crespos ou Encontros do Orgulho Negro que acontecem em locais públicos e incentivam negros a assumirem e mostrarem seus cabelos com orgulho, abandonando alisamentos químicos e chapinhas.

A cantora Karol Conká participou do Encontro do Orgulho Crespo de São Paulo
Reprodução
A cantora Karol Conká participou do Encontro do Orgulho Crespo de São Paulo



“Um dos preconceitos mais visto hoje é a concepção de que o cabelo crespo é um cabelo ruim e demanda cuidados superprofissionais. Esse tipo de cabelo é visto como anormal quando é tão normal quanto os outros. O encontro surgiu para aumentar a autoestima, principalmente da mulher negra, com o próprio cabelo, ter orgulho dele e usá-lo solto”, é o que explica Léo Líbano, um dos organizadores do Encontro Crespo de Nova Friburgo, Rio de Janeiro.

Os encontros já se espalharam pelo Brasil sendo organizados em cidades como Nova Friburgo (RJ), Aracajú (SE) e São Paulo (SP) e cada vez mais mobilizam novos grupos país a fora. A média de participantes é de 300 pessoas por evento, variando de acordo com a cidade. 

Durantes os encontros, a oficina de turbantes ensina como usar o acessório
Encontro Crespo de Nova Friburgo
Durantes os encontros, a oficina de turbantes ensina como usar o acessório

Durante o encontro, que conta com pessoas de todas as idades - desde crianças com os pais até idosos - , são feitas diversas atividades: palestras que abordam a valorização da cultura negra, abertura de espaço para depoimentos, cuidados com o cabelo que vão desde hidratações até oficinas de turbante, e sessões de fotos.

“A maioria das mulheres que deram depoimentos tem a mesma história de bullying na infância. Em geral, as meninas negras são obrigadas a prender o cabelo, fazer trança e, de alguma maneira, escondê-lo”, conta Léo.

Durante os encontros, pessoas de todas as idades compartilham depoimentos
Encontro Crespo de Nova Friburgo
Durante os encontros, pessoas de todas as idades compartilham depoimentos



Libiny Flor é organizadora do Encontro Crespo de Cabo Frio, RJ
Arquivo pessoal
Libiny Flor é organizadora do Encontro Crespo de Cabo Frio, RJ

Libiny Flor é organizadora do encontro de Cabo Frio, Rio de Janeiro, e conta que ela mesma já alisou o cabelo e sofreu com preconceito. “Em  2011, decidi alisar meu cabelo definitivamente para me enquadrar nos padrões da sociedade, achei que tinha encontrado minha verdadeira beleza negra, mas o tempo passou e percebi que não era certo esconder as minhas origens. Aos poucos, fui mudando meus conceitos, mudei o cabelo, recebi críticas e não tive auxílios e incentivos de pessoas, mas sabia estar fazendo a coisa certa", lembra.

"Hoje, me olho no espelho e enxergo uma beleza que era oculta e, agora, é resplandecente. Incentivar pessoas a passar por essa transição, e conscientizar muitos com a valorização da beleza e cultura afro, é a minha luta”.

Nos dias atuais, os movimentos e lutas pela igualdade já têm mudado muita coisa e o engajamento de famosos ajuda muito. A participação de Karol Conká no Encontro do Orgulho Crespo de São Paulo e a atitude de famosos ao defenderem Taís Araújo e Maju Coutinho de comentários preconceituosos, por exemplo, podem conscientizar melhor as pessoas. 

"Tenho certeza que, a partir do momento que as nossas meninas de 12, 13, 14 anos acompanham esses fatos, percebem que a Tais, por exemplo, está sendo injuriada por uma coisa que é linda, que é maravilhosa. As nossas meninas estão ganhando mais autoestima ao verem personagens como a Tais e outras artistas soltando seus cabelos", conclui Léo. 

O medo de não ser aceita 

Nanda Cury
Arquivo pessoal
Nanda Cury

"Durante toda a infância e adolescência, usava meu cabelo preso com coque, trança ou rabo de cavalo e passava creme e gel fixador para esticar. O medo de não ser aceita na escola me fez alisar o cabelo, me inspirando nas meninas mais populares. Resolvi assumir o cabelo crespo pela primeira vez na praia, incentivada por uma amiga. Fazia anos que eu não mergulhava no mar e ela me falou, com razão, que eu estava ficando neurótica", lembra Nanda Cury.

"Senti uma sensação indescritível de liberdade e curti a praia sem me preocupar com o cabelo. Sentia que precisava mudar e decidi que iria começar pelo cabelo. Como meu cabelo estava detonado, por anos usando química e chapinha, fui ao cabeleireiro e pedi para cortar bem curto. Ele fez um corte estilo black power. Pela primeira vez na vida me olhei no espelho e me reconheci! Naquele dia, fiz as pazes com a minha autoestima, decretei a liberdade dos fios e desde então nunca mais alisei", conclui.

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