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Sobrevivente de um incêndio ocorrido quando tinha apenas nove anos, vietnamita participa de projeto para mostrar a luta pessoal em busca da aceitação do corpo

A vietnamita Hueyen Vo tinha nove anos de idade quando teve 85% do seu corpo queimado em um acidente doméstico, que acabou por retirar a vida da sua mãe. Agora, 15 anos após a tragédia, ela conseguiu falar sobre o peso das lesões em sua vida e como aprendeu a abraçar sua própria beleza em um ensaio em preto e branco, realizado para o projeto Beauty Beyond Scars (beleza além das cicatrizes, em tradução livre) do fotógrafo residente da Califórnia Krysada Binly Panusith Phounsir.

Hueyen Ho faz ensaio para mostrar ao público luta pessoal em busca de auto-estima e confiança após acidente doméstico
Reprodução/Snap Pilots
Hueyen Ho faz ensaio para mostrar ao público luta pessoal em busca de auto-estima e confiança após acidente doméstico

Kiki, como é chamada pelos amigos e familiares, estava estudando com sua irmã mais nova, Nhi, na sala de estar de casa, localizada em um pequeno vilarejo humilde do país, onde não havia estrada e nem eletricidade. A mãe vendia doces em uma cabana na frente da casa. Na tentativa de conseguir algumas guloseimas para si, as meninas foram atrás da mãe, mas antes acordaram a outra irmã, Thu’ong, que na época estava com três anos.

Quando as crianças chegaram perto da mãe, ela estava colocando gasolina em um pequena garrafa, procedimento que costumava fazer para encher o tanque da motocicleta do pai, o único veículo que a família pertencia. Nesse momento, Nhi segurava uma lamparina de querosene e, sem perceber, ergueu o objeto para onde a mãe derramava o combustível e o fogo começou.

Assustadas, as irmãs correram para dentro da loja, que teve a porta bloqueada pelas chamas. Para proteger as filhas, a mãe se colocou na frente do fogo. “Nós estávamos presas. Eu gritava, não conseguia respirar e estava me cansando. Lembro de sentir a minha pele borbulhar e descascar. Eu vi minhas irmãs com falta de ar. Naquele momento, eu pensei que eu iria morrer naquela loja”, lembra Kiki.

Mas, em seguida, seu pai pulou para a cabana e salvou as meninas, que estavam com queimaduras de terceiro grau. Já na ambulância, Kiki olhou para sua mãe, que estava com muita dor por causa das lesões, e pediu desculpas - que acabou por ser as últimas palavras que proferiu a ela.

Após o acidente, as três meninas e o pai se mudaram para os Estados Unidos em busca de melhores cuidados médicos, o que foi possível graças aos esforços de uma organização sem fins lucrativos.

Como estudante da Universidade de Berkeley, Kiki conseguiu uma bolsa para estudar a sexualidade em mulheres adultas sobreviventes de incêndios, assim como ela. O que logo chamou atenção de Binly, o fotógrafo responsável pelo ensaio.

“A resistência dela de quebrar com os padrões normativos de beleza é tão presente fisicamente quanto emocionalmente”, ele escreve na página do projeto. “Ela escreveu um artigo na universidade sobre o programa de surfe relacionado à recuperação de mulheres sobreviventes à queimaduras, que logo me fez procurá-la para conversar sobre a oportunidade de tornar suas palavras em imagens”.

Fênix tatuada representa a superação de incêndio que deixou Kiki com severas queimaduras pelo corpo
Reprodução/Snap Pilots
Fênix tatuada representa a superação de incêndio que deixou Kiki com severas queimaduras pelo corpo

A conversa gerou um ensaio íntimo em que Kiki aparece com poucas roupas, deixando as queimaduras visíveis, com o objetivo de representar a luta da jovem com o seu corpo e sua confiança obtida nos últimos anos. Quando adolescente, ela usava blusas de manga comprida para esconder as cicatrizes e usava seu longo cabelo sobre o rosto, como forma de disfarçar as marcas.

Nas fotos, ela mostra uma tatuagem de uma fênix - um pássaro que renasce das cinzas -, que não é apenas um símbolo do evento traumático, mas também de todos os desafios superados.

“Todo mundo tem alguma insegurança. Eu estaria mentindo se dissesse que estou 100% confiante todos os dias”, conta ela ao jornal britanico "Daily Mail". “De qualquer forma, posso dizer que estou 100% mais forte todos os dias porque estou disposta a sair da zona de conforto e desafiar cada pedaço da minha mente e alma para ser corajosa e feroz… E isso é tudo que eu espero que os outros façam depois de lerem minha história e verem minhas fotos.”

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