Tamanho do texto

Massageadores, vibradores, anéis e camisinhas passam pelo crivo de pessoas comuns, que explicam detalhadamente o que foi ótimo – e o que podia ser melhor

Em maio deste ano, o Sexônico, buscador que compara preços de brinquedos eróticos, lançou um concurso de avaliação de produtos. A melhor resenha será premiada em dezembro com um vale-compras de R$ 500. As críticas são submetidas ao crivo de um pequeno júri formado por Mariana Blac (“nome artístico”, ressalta; leia entrevista com ela), 27 anos, a testadora oficial de produtos eróticos do site, e Rodolfo Elsas, 31 anos, sócio do negócio. O objetivo final da competição, estendida por prazo indefinido, é encontrar novos talentos e formar uma equipe com testadores de perfis diversos.

Autores de resenhas concorrem a um vale-compras de R$ 500 para trocar pór produtos eróticos
Divulgação
Autores de resenhas concorrem a um vale-compras de R$ 500 para trocar pór produtos eróticos


Pode parecer tarefa ingrata encontrar pessoas comuns que discorram, com graça, precisão e espirituosidade, sobre um produto autoexplicativo chamado Pênis Realístico Big Size ou um vibrador misteriosamente intitulado Abelha Mágica Fosforescente. Mas a experiência dos dois primeiros meses mostrou ao júri do Sexônico que não é bem assim. “No primeiro mês foi mais difícil selecionar as resenhas”, confessa Mariana. Foram 51. “Ficávamos sempre na dúvida se chegaria alguma coisa melhor mais para frente”. Já o segundo mês revelou uma possível candidata a uma vaga fixa na equipe em menos de 10 dias. “A qualidade melhorou muito”, atesta. O júri lê com bons olhos os textos com máximo enfoque na experiência pessoal, preferindo linhas de tom menos institucional possível.

Os resenhistas são desconcertantemente honestos em suas avaliações. Quem mais senão o cidadão comum, às voltas com o embaraço causado por um botão minúsculo na hora H, poderia atestar que “após passar o lubrificante fica um pouco difícil ligar o botão ‘on’, que fica escorregadio”? O fabricante do anel peniano vibratório testado é que não.

Outra candidata teceu ótimas recomendações sobre o produto resenhado, mas fez uma ressalva bastante específica: “Não existe posição para que a prótese fique fixada no chão”, alertou. E já sugeriu uma solução para os designers: “A parte de baixo devia ser mais redonda e com fixação”. O objeto em questão era um pênis realístico de 23 centímetros.

Do chão às estrelas

Nem todos ficam satisfeitos com a experiência proporcionada pelo objeto de escolha. “Promete tocar as estrelas, mas não é capaz de fazer alcançar o teto” foi a conclusão de uma resenhista às voltas com um bullet, cápsula vibratória bastante comum nas prateleiras das sex shops.

Durante feira erótica deste ano, expositora mostra vibrador disfarçado de rímel
Edu Cesar
Durante feira erótica deste ano, expositora mostra vibrador disfarçado de rímel


Mesmo os produtos mais simples podem se revelar um estorvo. Foi o que aconteceu com um casal que testou a raspadinha sexual, espécie de cartãozinho ao modelo do das lotéricas que, em vez de revelar prêmios em dinheiro, sugere atividades preliminares. “Tentamos raspar e não dava pra ler direito. Não deu para raspar com chaves nem com moeda e no final ficou sem graça”. Ela termina com uma nota mental: “Na próxima vez, vou comprar um dado das posições”.

Equipamentos tão comuns quanto uma camisinha também podem guardar surpresas. Ao adquirir um preservativo lubrificado fosforescente, o resenhista esperava ficar com “todo o falo brilhante”, conforme descreveu educadamente, tomando o cuidado de evitar qualquer gíria ou palavra de baixo calão. “Mas só fica com a ponta do reservatório iluminado. Isso é bem triste”, concluiu.

Uma questão de ponto de vista

Tudo é uma questão de expectativa -- e ela é tão subjetiva quanto as preferências das pessoas que resenham os produtos. A prova é a discordância entre consumidores sobre um mesmo brinquedo, um excelente sinal para resenhas colaborativas. Uma delas comparou a experiência com uma cápsula vibratória a uma “viagem à lua”, enquanto outra reclama que o mesmo produto “não para no lugar” e “parece um celular vibrando, rs” (sic). Pela risada virtual, ao menos ela deve ter se divertido com o teste (ocorrido em um restaurante).

As vantagens e ressalvas assinaladas também ilustram a subjetividade das experiências. Uma resenhista, provavelmente nerd, classificou a velocidade máxima de um produto como “vibração Jedi”. Outra se desfez em elogios a um vibrador clitoriano, mas assinalou como desvantagem o preço, que “talvez não seja tão acessível a todas as mulheres que merecem sentir tanto prazer quanto eu”. E houve quem listasse, entre os pontos altos de um pênis realístico, a facilidade de uso e satisfação (se comparada a um espécime humano real): “é só continuar deitada e mandar ver, sem trabalho de locomoção ou de tirar a roupa toda”.

Nem todos os produtos eróticos resenhados estão à venda em sex shops ou lojas do gênero. No segundo mês, uma resenhista que procurava apenas relaxar encontrou o caminho da felicidade em um massageador made in China, vendido por um camelô em uma rua de comércio popular.

No primeiro mês, um autor discorreu sobre as benesses do uso erótico do gelo, destacando como vantagem principal o fato de ser “um produto natural, sem contraindicações”. Como bem resumiu Paula Aguiar, presidente da Associação das Empresas do Mercado Erótico e Sensual, a ABEME, ao comentar as particularidades do mercado brasileiro: “A gente não ganha em tecnologia, mas é imbatível na criatividade”.

Veja aqui como se tornar um resenhista e leia as resenhas de outros consumidores

Leia também

11 livros que mudaram a história do sexo
Quando e por que fazer terapia sexual


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.