
Para muitas mulheres, a queda de cabelo é um dos momentos mais difíceis do tratamento do câncer de mama. Não pelo fio em si, mas pelo que ele representa: a alopecia induzida pela quimioterapia é visível e costuma tornar a doença pública antes que a paciente esteja pronta para falar sobre ela. Menos discutida é a etapa seguinte, que começa quando o tratamento termina. Quanto tempo o cabelo leva para voltar? Por que ele muitas vezes nasce diferente? E o que é seguro fazer para ajudar?
Por que o cabelo cai
Os quimioterápicos agem sobre células que se multiplicam rapidamente, característica das células tumorais, mas também do folículo capilar, um dos tecidos mais ativos do corpo. A intensidade da queda varia conforme os medicamentos usados, e nem todo esquema de quimioterapia provoca perda total dos fios. Durante o tratamento, uma das estratégias disponíveis para reduzir o impacto é a crioterapia capilar, conhecida como touca gelada, que diminui o fluxo de sangue no couro cabeludo. No ensaio clínico SCALP, publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), cerca de metade das pacientes que usaram a técnica preservou mais de 50% dos cabelos. A indicação, porém, depende do tipo de câncer e do protocolo, e deve ser avaliada pelo oncologista.
Quanto tempo leva para voltar
Na maioria dos casos, o dano ao folículo é temporário .
Em uma parcela menor de pacientes, sobretudo com alguns esquemas específicos de quimioterapia, a recuperação pode ser incompleta. Além disso, parte das mulheres tratadas para câncer de mama segue com terapia hormonal por anos após a quimioterapia, o que também pode afinar os fios. Por isso, se a densidade não evoluir nos meses seguintes, a orientação é procurar avaliação especializada em vez de esperar indefinidamente.
Por que o fio pode nascer diferente
Uma mudança que surpreende muitas pacientes é a textura. O cabelo pode voltar mais fino, com outra cor ou ondulado em quem sempre teve fios lisos, fenômeno conhecido como "cachos da quimioterapia". "Nos primeiros ciclos após a quimioterapia, o folículo ainda está se reorganizando. É comum a textura mudar temporariamente e, na maioria das mulheres, o padrão original retorna de forma gradual. O fio que nasce primeiro não é o fio definitivo", afirma o especialista.
O que ajuda na recuperação
Segundo Fernandes, o principal foco nessa fase é o ambiente em que o novo fio vai crescer. O tratamento oncológico pode deixar as reservas de ferro, zinco, vitaminas do complexo B e proteínas reduzidas, e o couro cabeludo costuma ficar mais sensível. "A paciente sai do tratamento com o organismo em reconstrução. Se as reservas nutricionais estão no chão, o folículo até religa, mas produz um fio frágil. Avaliar exames, corrigir deficiências com acompanhamento e cuidar do couro cabeludo cria as condições para uma recuperação mais consistente", explica.
Suplementos, medicamentos tópicos e procedimentos não devem ser iniciados por conta própria . Tratamentos como o minoxidil, por exemplo, só costumam ser considerados após o fim da quimioterapia e com avaliação médica. "Nada entra no protocolo sem o aval do oncologista. O papel do tricologista é somar à equipe, nunca atropelar o tratamento", reforça Fernandes. Nesse período, também é recomendado reduzir agressões aos fios, como tinturas, descolorações, alisamentos e o uso frequente de secador e chapinha.
Mais do que estética
Para além da biologia, a recuperação capilar tem um peso emocional que não deve ser subestimado.