Masking faz mulheres autistas esconderem sinais e sofrimento

Estratégia de adaptação ao convívio social pode atrasar a identificação do TEA e aumentar o desgaste emocional ao longo dos anos

Masking faz mulheres autistas esconderem sinais e sofrimento
Foto: Andrea Piacquadio/Pexels
Masking faz mulheres autistas esconderem sinais e sofrimento

Ser considerada uma menina comportada, discreta ou extremamente madura pode, em alguns casos, esconder dificuldades que não são percebidas por quem está ao redor.

Entre mulheres autistas, a tentativa de se adaptar às regras sociais pode se tornar tão frequente que características do Transtorno do Espectro Autista (TEA) acabam passando despercebidas.

Esse processo é chamado de masking, ou camuflagem social. A prática envolve diferentes maneiras de tentar parecer adequada às expectativas do ambiente, como observar e reproduzir comportamentos de outras pessoas, preparar previamente o que será dito em uma conversa, controlar movimentos repetitivos e até manter contato visual mesmo quando isso provoca desconforto.

Mais do que uma simples tentativa de socialização, o esforço constante para esconder essas características pode exigir grande desgaste. A pessoa precisa monitorar continuamente a própria postura, fala e comportamento para evitar chamar atenção ou demonstrar dificuldades.

Esse mecanismo também ajuda a explicar por que muitas mulheres recebem o diagnóstico de autismo somente na adolescência ou na vida adulta. Durante a infância, a capacidade de observar e reproduzir comportamentos pode fazer com que sinais do transtorno sejam menos evidentes.

Como a pressão social para se adequar é intensa e a capacidade de compensar dificuldades pode ocultar seus sinais ao longo da infância, a adolescência emerge como um período crítico. Nesse momento, o aumento das demandas de sociabilidade pode tornar o masking ainda mais intenso e oneroso
Alexandre Valverde


Quando a adaptação cobra um preço

Manter esse esforço durante anos pode ter consequências para a saúde mental. Depois de situações sociais, algumas mulheres podem experimentar cansaço intenso, necessidade de isolamento e dificuldade para recuperar a energia. Ansiedade, baixa autoestima e crises emocionais também podem fazer parte desse cenário.

Em alguns casos, a busca por atendimento acontece inicialmente por outras razões. Depressão, ansiedade e estresse crônico podem aparecer antes que o autismo seja reconhecido, o que prolonga a procura por uma explicação para as dificuldades enfrentadas no dia a dia.

Para Alexandre, justamente por não ser evidente para quem observa de fora, o masking merece atenção.

“Trazer o masking para o debate permite lançar luz sobre sofrimentos silenciosos que passam despercebidos por familiares, professores e até profissionais de saúde, justamente porque a pessoa aparenta estar integrada enquanto lida com um enorme desgaste interno”, ressalta Alexandre.

Adolescência aumenta a atenção para a saúde mental

O tema também se relaciona a uma maior vulnerabilidade feminina para transtornos depressivos. Um estudo que analisou mais de 195 mil casos, conduzido pela Universidade de Queensland, na Austrália, e publicado na Nature Communications em 2025, identificou 16 variantes genéticas associadas ao transtorno depressivo e apontou uma carga genética maior entre mulheres.

Outro levantamento, publicado no Psychological Bulletin, indica que a diferença entre os sexos se torna especialmente significativa durante a adolescência. Nesse período, meninas podem apresentar até três vezes mais chances de desenvolver depressão.

No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 também mostram uma diferença importante. O diagnóstico de depressão foi relatado por 1 4,7% das mulheres entrevistadas, enquanto entre os homens o índice foi de 5,1%.

A discussão sobre o masking ajuda a ampliar o olhar para pessoas que, apesar de aparentarem estar bem adaptadas, podem enfrentar dificuldades significativas longe dos olhos dos outros.

Apoio pode ajudar a identificar sinais

O reconhecimento dessas dificuldades depende de uma avaliação cuidadosa, especialmente quando a pessoa passou anos desenvolvendo estratégias para esconder características do autismo.

Informação, escuta e acompanhamento especializado podem ajudar familiares e profissionais a compreender melhor esse comportamento.

A discussão sobre o autismo feminino reforça a importância de observar não apenas o comportamento aparente, mas também o esforço necessário para mantê-lo.

Em algumas situações, por trás de uma pessoa que parece perfeitamente adaptada pode existir uma rotina marcada por cansaço, ansiedade e dificuldades que permaneceram sem explicação por muitos anos.