A presença feminina no setor de tecnologia tem crescido nos últimos anos, mas ainda está longe de refletir equilíbrio.
No Brasil, mulheres ocupam menos de 30% dos postos na área e a desigualdade se torna ainda mais evidente quando o recorte é feito em cargos técnicos e de liderança.
Dados do estudo W-Tech 2025, do Observatório Softex, mostram que apenas 19,2% dos especialistas em Tecnologia da Informação no país são mulheres.
Em posições de liderança, o cenário é ainda mais restrito: elas representam 26,2% dos cargos de gerência e apenas 13,1% das diretorias.
Apesar dos números, o avanço feminino no setor tem sido marcado por trajetórias que combinam resiliência, adaptação e protagonismo, muitas vezes em ambientes ainda predominantemente masculinos.
É o caso de Ana Beatriz Pereira, diretora de Dados da HealthBit. Sua entrada na tecnologia começou ainda no ensino médio, em um curso técnico de informática, e evoluiu ao longo da carreira com passagens por diferentes áreas.
Para ela, a combinação entre conhecimento técnico e visão de negócios foi determinante para alcançar uma posição de liderança.
Ainda existe uma necessidade maior de a mulher provar sua competência técnica. E isso se intensifica quando falamos de cargos de gestão", afirmou em entrevista ao iG. Ana Beatriz Pereira
A falta de representatividade segue como um dos principais desafios. Segundo a executiva, ainda são raras mulheres em posições estratégicas como CTOs, CIOs ou CDOs, o que impacta diretamente na percepção de pertencimento de outras profissionais.
Essa mesma leitura é compartilhada por Anita Bataglin, Chief Revenue Officer da Unlock. Com mais de 15 anos de atuação no ecossistema digital, ela construiu sua carreira conectando tecnologia a resultados de negócio, uma abordagem que reflete a transformação do próprio setor.
A tecnologia deixou de ser apenas infraestrutura. Hoje, ela define a experiência do consumidor, a eficiência operacional e a capacidade de crescimento das empresas", explica Anita Bataglin
Para Anita, um dos entraves ainda está no imaginário sobre a área, historicamente vista como excessivamente técnica.
"Quando ampliamos essa visão e mostramos que tecnologia também envolve estratégia, produto e experiência, mais mulheres passam a se enxergar nesse espaço", destaca.
A especialista em IA aplicada a negócios, Victoria Luz, destaca que ampliar a presença feminina em diferentes áreas da tecnologia é essencial.
"Quando há poucas mulheres nesses espaços, diminui a possibilidade de identificação para as gerações mais novas.”
IA amplia oportunidades e responsabilidades
Com o avanço acelerado da inteligência artificial, o debate sobre diversidade ganha ainda mais relevância. Isso porque a construção dessas tecnologias passa diretamente pelas decisões humanas e a falta de pluralidade pode reproduzir desigualdades já existentes.
Ana Beatriz alerta para esse risco:
Se não houver diversidade nas equipes que desenvolvem e treinam os modelos, podemos acabar automatizando preconceitos. A presença feminina é essencial para garantir uma tecnologia mais ética e inclusiva”. Ana Beatriz
Na prática, essa participação já vem se ampliando em diferentes frentes. Segundo Anita, mulheres têm atuado não apenas no desenvolvimento técnico, mas também na aplicação da IA em negócios, na experiência do usuário e na estratégia das empresas.
“É uma oportunidade de construir soluções mais completas, que realmente dialoguem com a realidade das pessoas”, afirma.
Victoria Luz também ressalta que, além da atuação técnica, cresce o número de mulheres à frente de iniciativas que aplicam a inteligência artificial em áreas como negócios, educação e inovação.
Essa diversidade é essencial para tecnologias mais equilibradas e responsáveis.” Victoria Luz
Entre regulação e inovação
Outro ponto de destaque é o debate sobre a regulação da inteligência artificial no Brasil. Para as especialistas, a discussão é necessária, mas exige equilíbrio.
A criação de regras claras pode garantir segurança e responsabilidade no uso da tecnologia, especialmente em setores sensíveis, como a saúde. Por outro lado, há o risco de limitar o avanço da inovação se as diretrizes forem excessivamente restritivas.
“O desafio é encontrar um modelo que proteja a sociedade sem frear o desenvolvimento tecnológico”, resume Anita.
Caminhos para o futuro
Mesmo diante dos desafios, há um consenso entre as lideranças: o futuro da tecnologia passa, necessariamente, pela diversidade.
Mais do que ampliar números, trata-se de criar ambientes onde mulheres possam se desenvolver, ocupar espaços de decisão e influenciar os rumos da inovação.
Para quem deseja ingressar na área, Ana Beatriz reforça a importância da confiança e da conexão com outras mulheres.
Muitas deixam de entrar na tecnologia por não se acharem capazes. Criar redes de apoio faz toda a diferença”. Ana Beatriz
Victoria Luz orienta que o caminho na tecnologia passa pela curiosidade, pela prática e pela busca por mentorias. Segundo ela, por ser uma área em constante evolução, quem investe em aprendizado contínuo encontra mais oportunidades.
Anita complementa com um olhar estratégico: “Não é só sobre tecnologia, mas sobre entender como ela impacta o negócio e a sociedade. Esse é o diferencial que o mercado busca hoje”.
Em um setor que molda o futuro, a presença feminina não é apenas uma questão de equidade é parte essencial da construção de soluções mais inovadoras, responsáveis e alinhadas com a realidade.