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Identidade feminina

Lúcia Rosenberg escreve sobre a mulher atual

é psicóloga pela PUC-SP, mestre em Psicologia pela New School for Social Research em Nova York e autora do livro "Cordão Mágico - histórias de mãe e filhos".

Volta por baixo

O filme “Preciosa” nos mostra que não precisamos ser o resultado direto daquilo que nos foi projetado

09/02/2010 16:50

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Nosso assunto principal nesta coluna é identidade feminina, pois fui assistir a um filme que escancara a luta de uma menina/mulher para poder reconhecer-se e ter uma identidade. O filme “Preciosa – Uma História de Esperança”, dirigido por Lee Daniels e baseado no livro “Push”, de Sapphire, conta a vida de uma jovem de 16 anos, negra, pobre, gorda e grávida pela segunda vez de seu pai. Violentada a vida toda por ele, com o consentimento (e muito, muito ressentimento) da mãe, Clareece "Precious" Jones(Gabourey Sidibe) é encaminhada a uma escola alternativa, onde encontra espaço para expressar-se e ser percebida. Ali, descobre sua força e, aos poucos, mostra sua garra e determinação.

O caminho mais usual é que mãe e pai são os primeiros espelhos onde nos vemos refletidos e são as primeiras lições de amor, confiança e autoestima. Note que mãe vem de mater, que significa matriz, e pai, pater, quer dizer padrão – são os primeiros moldes e modelos. Se a mãe é calma, atenta e carinhosa, o bebê aprende que pode confiar nos outros. O pai é quem vai, antes de tudo, proteger a criança dos perigos do mundo.

Pobre Preciosa, que teve essa lição do lado avesso. Cresceu ouvindo das pessoas que deveriam amá-la, que ela era inútil, vadia e burra. Quem deveria ser seu guardião e protetor, era seu maior algoz. Foi alimentada por uma mãe que tinha por ela um imenso e insano ciúme, que a via como uma adversária, uma concorrente do amor de seu homem.

Nada de bom poderia acontecer a ela, aparentemente. Na escola, não tinha amigos, não falava com ninguém e não conseguia ler. Não acreditava que pudesse melhorar porque sempre escutou que jamais iria tornar-se coisa alguém de valor.

Aí está o retrato de como as referências de infância podem delinear a identidade de uma pessoa. Mas não a determinam, necessariamente. Não precisamos ser o resultado direto do que nos foi projetado e nem daquilo que nos fizeram acreditar sobre nós mesmos. Devemos deixar de lado a forma como fomos vistos, largar esse olhar viciado para podermos nos enxergar com nossos próprios olhos.

Pois nossa heroína consegue descobrir recursos internos e alguns poucos aliados externos. E, se a sorte a manteve viva apesar de tantos ataques, quedas e empurrões que sofreu em sua vida, ela leva adiante a tarefa de viver e lutar. Parece surgir lá de dentro daquela capa de gordura que a manteve, de certo modo, protegida, e de outro, escondida, uma nova Preciosa. E ela irrompe forte e decide tomar as rédeas de sua vida.

O mais importante aqui é a possibilidade de nascer em nós aspectos desestimulados por nossos pais. De podermos desenvolver competências desacreditadas. Que devemos olhar para dentro para poder descobrir nossa essência e encontrar um caminho para expressá-la e tornarmos quem realmente somos.
 

Sobre o Colunista

Lucia Rosenberg - luciarosenberg@ig.com.br - é psicóloga pela PUC-SP, mestre em Psicologia pela New School for Social Research em Nova York e autora do livro "Cordão Mágico - histórias de mãe e filhos".

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