Empresária, mãe-de-santo, não importa: Sylvia Egydio sempre foi uma mulher bem-sucedida. No Brasil e no mundo.

No lugar dos sapatos de salto alto, sandálias rasteiras rústicas e rentes ao chão. Em vez do alinhado tailleur, roupas brancas, confortáveis e modestas. Saíram as jóias ¿ sempre verdadeiras, vale ressaltar - e entraram fios de contas dos Orixás. Por fim, a maquiagem cede lugar às linhas de expressão, que podem ser traduzidas como marcas de sabedoria, típicas de um ser humano que viveu, e vive, com intensidade e total entrega. Sylvia Egydio, mais conhecida como Mãe Sylvia de Oxalá, tem olhar firme, voz serena e uma história tão surpreendente quanto bem-sucedida. Digna de livro.

Não posso me denominar rainha, mas confesso que me chamam assim. Não é por acaso: a ex-empresária de sucesso internacional e hoje respeitada mãe-de-santo, que há pouco mais de duas décadas comanda o Instituto Axé Ilê Oba , uma das casas de candomblé mais conhecidas do País, acumula experiências que facilmente inspirariam grandes escritores na construção de suas personagens-heroínas. De tantas reviravoltas, superações e conquistas em sua trajetória, chega a ser possível imaginar, no mínimo, três mulheres. Três Sylvias dentro de uma só vida; três vidas em uma só Sylvia.

A filha de dona Santa nasceu para estudar
Paulistana, nascida no Largo da Liberdade em 15 de julho de 1938, em uma família que tinha uma situação diferenciada para negros na época, como ela mesma define, Sylvia, assim como seus três irmãos, desde o berço foi incentivada a lutar. As armas? Educação e cultura. A mãe, Lucila Egydio, cujo apelido era Santa ¿ porque foi muito boa quando criança -, fazia doces, reunia os rebentos e lia para eles obras de Monteiro Lobato, José de Alencar, Euclides da Cunha e muitos outros. Era uma mulher muito arrojada e inovadora. Aprendeu a datilografar e comprou uma máquina de escrever, para nos ensinar dentro de casa, lembra a filha, deixando escapar um sorriso doce, repleto de gratidão. Fora isso, as crianças sempre estudaram em renomados colégios da Capital, mesmo após a morte do pai, quando Sylvia tinha apenas 14 anos. Não havia luxo nenhum e mamãe batalhou muito para nos criar sozinha, mas realmente a educação foi uma prioridade em nossas vidas. Cinemas e museus, por exemplo, eram programas semanais sagrados. O resultado? Todos os filhos com diploma de nível superior.

A doença e a mudança
No caso específico de Sylvia, porém, estudar parece ter sido realmente uma vocação. Primeiro, se formou em Enfermagem, especializando-se em Pediatria e Saúde Pública. Em seguida, entrou para a área de pesquisa após cursos de Análises Clínicas no Instituto Adolfo Lutz e participou de importantes estudos brasileiros, como a implantação da vacina contra o sarampo no País. Até os 33 anos, trabalhou na área de saúde, mas seis meses após a morte de Dona Santa, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) que a estimulou a dar a primeira grande reviravolta de sua vida: mudar de profissão e procurar o tio, o pai-de-santo Caio de Xangô, aproximando-se do candomblé. Ele me acolheu e disse que eu não teria ficado doente se tivesse cuidado de minha parte espiritual. Eu não sabia o grau de orixalidade que tinha e comecei a desenvolvê-lo. 

O tempo do tailleur
Sylvia passou então a cursar Administração de Empresas, especializando-se em Economia e doutorando-se em Comércio Exterior e Relações Internacionais. Paralelamente, cumpriu as chamadas obrigações para se tornar uma filha-de-santo. Bem-sucedida na nova escolha, abriu cinco escritórios de exportação e importação no Brasil, e três no continente africano. Quem me conheceu nesta época diz que eu era muito vaidosa; vivia de salto alto, tailleur e coberta de ouro, sempre viajando pra cima e pra baixo. No total, conhece 68 países ¿ isso mesmo, 68.

O chamado
Alguns anos depois, quando estava no ápice de sua vida profissional (e financeira), recebeu a notícia de que Pai Caio de Xangô havia falecido. E mais: que tinha sido eleita e preparada por ele, sem o saber, para assumir seu lugar no Instituto Axé Ilê Oba. Isso foi no ano de 1985. Fui a diversos pais e mães de santo, e todos confirmaram que eu seria a ialorixá (mãe-de-santo) que substituiria meu tio. Nunca sequer havia cogitado esta hipótese, diz, humilde, lembrando das palavras proferidas pela famosa Mãe Menininha do Gantois: você agora vai fazer suas obrigações para ser ialorixá, vai deixar a casa onde mora para viver na casa de candomblé, não vai mais trabalhar para fora e vai se dedicar plena e exclusivamente para a orixalidade. Se precisar de qualquer coisa nessa vida, não se preocupe: ela vai chegar até você. Sylvia conta que não sentiu medo algum. Já estava com quase meio século de vida e posso dizer que aproveitei tudo o que havia conquistado. Vivi intensamente todas as fases e sempre fui feliz. Estava pronta para mais essa mudança.

Deixar a casa no nobre bairro paulistano Alto de Pinheiros e todos os bens materiais pra trás, para viver na Vila Fachini, região humilde do distrito de Jabaquara, não foi chocante, ela diz. Senti muita segurança e gratidão, pois era como se estivesse me eternizando, explica. Familiares e amigos foram informados de sua decisão. Todos aceitaram, pois perceberam que eu estava seguindo meu caminho.

Segredos dos búzios
Seis meses após sua posse no Axé Ilê Obá, Mãe Sylvia rumou para Nova Iorque para participar de um congresso internacional sobre orixalidade. Encontrou lá uma amiga e ex-colega da Universidade de São Paulo (USP), que fez grande divulgação sobre suas jogadas de búzios entre os participantes. Logo, dezenas de pessoas ansiosas por descobrir o que o futuro lhes reservava se amontoaram em uma fila. Atendi tanta gente que praticamente paguei minha passagem de volta ao Brasil, diz. E, a partir daí, passou a viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos, para alento de seus fiéis clientes.

É por essas e outras que Mãe Sylvia diz, hoje, que sempre se preparou para ser o que é. A enfermagem, a administração, as relações internacionais, tudo isso a ajudou - e ainda ajuda. Talvez por causa de tanto preparo, a mãe-de-santo seja uma das mais reconhecidas e respeitadas do Brasil. Sua clientela é formada não só por empresários e políticos nacionais, mas também por pessoas de todo o mundo. Seus trabalhos sociais lhe renderam incontáveis prêmios e homenagens aqui e no exterior. No entanto, questionada sobre sua vida pessoal, é categórica: nunca fui casada, nunca tive filhos. Sequer tive tempo. Menina, você não viu meu currículo? Não percebeu que só estudei e trabalhei?. Tudo bem, Mãe Sylvia. Nós percebemos, sim. Fora isso, a gente sabe: se encontrar um príncipe é tão difícil, imagine um rei?

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