Ela perdeu o marido dois meses antes de o filho deles nascer. Viúva e mãe, a publicitária mineira Cristiana Guerra criou o delicado blog ¿Para Francisco¿, que acaba de virar livro. O iG conversou com a escritora

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Acordo Ortográfico

Um homem tem morte súbita, dois meses antes do nascimento do seu único filho. Assim nasce este blog. Tentando entender e explicar dois sentimentos opostos e simultâneos vividos pela viúva e mãe que, no caso, sou eu. Muitos questionamentos. Muitos raciocínios. Muito aprendizado. E uma pressa em falar para o Francisco sobre seu pai, sobre o mundo e sobre mim mesma (só por garantia). Essas são as palavras que abrem o blog Para Francisco ( http://parafrancisco.blogspot.com ), de autoria da Cristiana Guerra.

Cristiana, uma publicitária mineira, perdeu o marido Guilherme na reta final de gravidez. Para conseguir lidar ao mesmo tempo com o luto e a alegria da maternidade, duas emoções tão fortes, ela criou o blog ¿ para contar ao filho, Francisco, as histórias dela e do pai. Estas histórias do blog acabam de virar um livro, também intitulado Para Francisco (editora Arx). Leia entrevista com a autora.

iG Como veio o insight de escrever o blog Para Francisco (e para quem quisesse ler...)?
Cristiana Guerra
O insight aconteceu seis meses depois da morte do Gui. Era dia 17 de julho de 2007 (nosso namoro começou em 17 de julho de 2005, descobri a gravidez em 17 de julho de 2006 e ele faleceu no dia 17 de janeiro de 2007) e essa coincidência de datas me fez querer escrever. Eu estava voltando a trabalhar na agência em que trabalhamos juntos e nos conhecemos, agora sem ele, e quis escrever para meus amigos da agência. Eu já vinha escrevendo para o Gui, para mim mesma. Mas nesse dia o email para os amigos, ao invés de se dirigir a eles, era uma fala para o Francisco. Quando entendi que era para o Francisco que eu realmente precisava falar, nasceu a ideia do blog. Resolvi escrever só pra registrar, e coloquei num blog para facilitar, para escrever de qualquer computador que tivesse acesso à internet, de qualquer lugar, em qualquer circunstância, ou seja, quando eu quisesse. E assim começou o blog, que eu não imaginava que as pessoas fossem ler. Achava que seria só mais um blog.

iG Você teve que lidar com uma falta ao mesmo tempo em que estava para ter um filho. Como não pirar com essa dualidade?
Cristiana Guerra Escrever foi o que me garantiu não pirar com a dualidade da falta e do ganho juntos. Não sei o que seria se não tivesse escrito. Só assim a dor não engoliu a alegria e vice-versa. E as duas emoções precisavam ser vividas devidamente.

iG Você lê o que escreve para o Francisco?
Cristiana Guerra Sim, eu leio o que escrevo. Porque muitas vezes escrevo para falar a mim mesma o que estou precisando elaborar. Ler o que escrevi há um tempo me ajuda a ver minha caminhada.

iG Exteriorizar e dividir a sua dor (uma dor-memória) sempre que escrevia não te fazia vivenciar de novo, inúmeras vezes, o que tinha sido dilacerante?
Cristiana Guerra Escrever me fazia reviver muitas coisas, sim, e isso às vezes era bem doloroso. Mas foi uma escolha, pela minha saúde e sanidade mesmo. Eu não queria deixar de viver o luto porque tinha acabado de me tornar mãe. E não queria deixar de ficar feliz, só por ter acabado de perder o meu amor. Parece ter sido um luto mais longo, mas acredito que foi um luto bem curado, que não deixou nada pra ser elaborado depois, entende?

iG Como a internet abriu essa possibilidade de tornar tudo mais suportável?
Cristiana Guerra A internet entra com o personagem-leitor, que me fez assumir um compromisso, com disciplina, de estar sempre escrevendo. Isso foi maravilhoso. A troca de experiências, o apoio, o carinho, sentir que também posso ajudar alguém que sofre, fazer novos amigos e, principalmente, descobrir que quero ser escritora, porque os leitores vieram. É um presente lindo da vida e de tudo o que me aconteceu.

iG Recomeçar é sempre dolorido. Como foi recomeçar a sua vida (a velha, antes da morte do Gui; e a nova, pós nascimento do Francisco)?
Cristiana Guerra O recomeço da minha vida (sem o Gui, com o Francisco) não teve muito tempo pra ser preparado. Simplesmente aconteceu. Foi muito brusca a ida dele. Tive dois meses (antes de o Francisco nascer) para me preparar para a nova realidade, me despir dos sonhos, dar conta da frustração ou pelo menos aceitá-la. Mas eu tenho um passado de perdas que foi um treinamento meio tropa de elite. Perdi minha mãe aos 24, meu pai aos 31, tive um casamento ruim, reformei casa com o primeiro marido, perdi na casa o dinheiro da herança, ou seja, eu já tinha aprendido a me reconstruir. Foi um treinamento e tanto para o que estava para vir. Mas depois veio o Francisco para recompensar tudo. Alegria, alegria, alegria. Não tem como não se entregar a esse amor que cresce diante dos nossos olhos.

iG O seu lado de artista no mundo da moda também sofreu interferências depois do nascimento do Francisco?
Cristiana Guerra O meu lado de artista do mundo da moda só surgiu (ao menos na internet) depois do Francisco, depois da perda do Gui. Antes, eu me vestia bem, tinha compulsão por roupa bonita, e só. Depois que comecei a fazer o blog para Francisco, veio a ideia do Hoje Vou Assim ( http://www.hojevouassim.blogspot.com/ ), outra brincadeira despretensiosa que deu um retorno surpreendente. Demorei um tempo para entender (e acho que meus leitores, mais tempo ainda ¿ alguns ainda não entendem) que os dois blogs são os dois lados de uma mesma elaboração. Eu teria sido uma pessoa muito triste sem o Hoje Vou Assim. Ele também me ajudou demais.

iG O escritor Caio Fernando Abreu escreveu certa vez que o amor também é uma forma de morte - morte da solidão, por exemplo. Escrever o blog também foi uma forma de morte da solidão?
Cristiana Guerra
Escrever o blog foi, sim, a morte da solidão, foi enterrar a dor aos poucos, vivenciar o luto no ritmo que precisava ser. Acho que esse trecho do Caio Fernando Abreu me traz um insight importante: o que fazer com o amor que a gente sente quando o objeto do amor não existe mais? Como lidar com a morte de alguém se não morre o amor que sentimos por essa pessoa? Acho que o blog ¿ e o livro ¿ são uma transferência desse amor. Porque o amor não desaparece, ele continua. Transformei esse amor em um livro ¿ amor à escrita ¿, em amor pelo Francisco, pelas pessoas que de certa forma fazem essa troca comigo, me leem, me escrevem.

iG Como as pessoas reagiram aos primeiros posts?
Cristiana Guerra As pessoas reagiram de forma muito forte aos primeiros posts. E acho que acontece isso com toda pessoa que lê o blog pela primeira vez. E já tive retorno de gente que foi pega pelo livro na livraria, sem saber do blog. Foi a mesma coisa. É uma mensagem que costuma tocar as pessoas de verdade.

iG Daqui pra frente, quais os planos para o blog e para a sua carreira de escritora?
Cristiana Guerra Quanto ao blog, meu plano é continuar escrevendo para o Francisco, mas sobre outros assuntos, principalmente. Ainda estou numa interrogação, mas não quero parar. É uma delícia essa troca. Além do mais, quero continuar escrevendo para, quem sabe, descobrir o caminho para um outro livro. Que eu não faço a menor ideia de qual seja. Estou escrevendo uma coluna sobre moda numa revista, mas de um jeito bem divertido, nada de dicas de tendências. Acho que sei escrever sobre coisas que eu vivencio. Vou por esse caminho para ir aprendendo.


Lançamento do livro Para Francisco
Dia: 25 de Novembro de 2008, terça-feira, a partir das 19h30
Local: Saraiva MegaStore, Shopping Ibirapuera,
Endereço: Av. Ibirapuera, 3.103 - Piso Moema - São Paulo - SP

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