Centro de meditac?o orgastica de San Francisco, EUA, propaga o ?movimento slow-sex? e atrai quem busca mais prazer do que amor ou romantismo

_CSEMBEDTYPE_=inclusion&_PAGENAME_=ModeloiG%2FMiGComponente_C%2FConteudoRelacionadoFoto&_cid_=1237491699211&_c_=MiGComponente_C

San Francisco - Ate mesmo numa cultura na qual os brinquedos sexuais s?o um segmento prospero e Oprah Winfrey discute como ter uma vida melhor no quarto, uma comunidade mista dedicada ao orgasmo feminino beira o extremo.

A fundadora do One Taste Urban Retreat Center, Nicole Daedone, ve a si mesma como a lider do movimento slow-sex, ou movimento do sexo lento, que enfatiza quase que exclusivamente o prazer feminino - no qual o amor, o romance a ate o flerte n?o s?o necessarios.

"Em nossa cultura, admitir a importancia de nosso corpo e quase como admitir um fracasso", diz Daedone, 41 anos, que pode citar a poeta Mary Oliver e falar ironicamente sobre as complexidades da anatomia feminina com a mesma autoconfianca. "N?o acho que as mulheres ser?o verdadeiramente livres antes de conquistarem sua sexualidade".


Em busca da aventura sexual

Um grupo formado por 38 homens e mulheres - com media de idade de vinte e tantos anos - vive em tempo integral no centro de retiros, um predio despretensioso e elegante, com pe direito alto, situado no distrito de South of Market. Eles preparam as refeic?es juntos, praticam ioga e meditac?o mindfulness e conduzem workshops sobre comunicac?o para grupos de fora de ate 60 pessoas.

Porem, a atividade primordial do grupo, identificada no calendario do site pelo misterioso nome de "pratica matinal", e aberta somente aos moradores do centro.

Todos os dias, as 7 da manh?, enquanto o resto dos EUA esta comendo cereal matinal ou tentando enfrentar um engarrafamento sem ter falta de ar, cerca de uma duzia de mulheres, nuas da cintura para baixo, deitam-se com os olhos fechados numa sala com cortinas de veludo, enquanto os homens, vestidos, se aconchegam a elas, acariciando-as num ritual conhecido como meditac?o orgastica - "OMing", para os intimos. Os casais, que podem ou n?o estarem envolvidos emocionalmente, chamam uns aos outros de "parceiros de pesquisa".

Uma comunidade dedicada a que homens e mulheres criem em publico "o orgasmo que existe entre eles", segundo definiu uma moradora, pode soar como a mais nova piada da California. Mas, a regi?o de Bay Area tem uma historia vivida e notavel de buscadores que constroem suas vidas em torno da aventura sexual.

San Francisco tem orgulho de sua heranca libertina, como Sean Penn demonstrou recentemente em "Milk". A busca pela transformac?o pessoal, inclusive atraves do sexo, levou para o litoral as banheiras quentes do Esalen Institute, em Big Sur - berco do movimento do potencial humano. Nos anos 60, as comunidades floresceram na cidade, muitas delas incorporando o amor livre.

O centro One Taste nada mais e do que a mais recente estac?o desse metro sexual, entrelacando as linhas da liberdade individual radical, da espiritualidade oriental e do feminismo.

A ideia de uma comunidade sexual de San Francisco voltada para o orgasmo feminino faz parte da longa e rica historia de mulheres que assumiram sua sexualidade e a tornaram publica", diz Elizabeth A. Armstrong, professora de sociologia da Universidade de Indiana, que vem estudando as sub-culturas sexuais de San Francisco.

Cleopatra moderna

Assim como outros lideres de comunidades, a lider do centro One Taste, Daedone, tem uma personalidade polarizadora e seus admiradores a veneram como diva sexual, embora alguns ex-membros afirmem que ela exerce um poder meio religioso sobre seus seguidores. Segundo eles, algumas vezes ela chegava a sugerir enfaticamente quem deveria se envolver com quem.

"Sempre tinha uma press?o em relac?o aos limites das pessoas", diz Judy Silver, que morou no One Taste por tres anos e meio e saiu no outono passado. "Todos sabiamos que era um lugar da pesada, e entramos para jogar duro".

O grupo n?o atraiu muita atenc?o durante seus quatro anos e meio de existencia - talvez porque esse tipo de comunidade ja n?o cause nenhuma surpresa para os moradores de San Francisco - apesar de ter causado alguma sensac?o quando o jornal The San Francisco Chronicle trouxe uma materia sobre as aulas de ioga sem roupa do grupo (sem fins sexuais). Muitos voyeurs n?o praticantes de yoga apareceram por la depois disso. Agora as aulas ocorrem com os alunos vestidos.


Quem busca

O One Taste atrai um publico ecletico. Algumas pessoas est?o em periodos de transic?o, como o engenheiro de 50 anos e rosto angelical do Vale do Silicio, divorciado recentemente, que disse que a pratica de fixar sua atenc?o em um ponto minusculo do corpo da mulher melhora sua concentrac?o no trabalho.

A maioria dos moradores e de jovens buscadores, que procuram preencher um vazio interno e se fortalecer atraves do que Daedone prega: uma mistura de sexualidade e espiritualidade centrada na mulher. Uma das residentes, Beth Crittenden, 33 anos, cresceu entre as plantac?es de tabaco do conservador estado de Virginia, um lugar onde, segundo ela, a anatomia feminina nunca era discutida e a masturbac?o era algo que n?o podia ser mencionado. "Eu nunca tinha feito nada, mesmo no cair da noite", disse ela.

Ela acabou indo parar no predio do One Taste na rua Fulton, com seus sofas macios e aconchegantes, e matriculou-se no curso de auto-prazer da mulher - pois seus relacionamentos com os homens "acabavam sempre batendo num muro de cimento", disse ela.

Ela resistiu as ofertas de ingressar em novos cursos (por uma taxa), deletando as incessantes mensagens de e-mail que recebia do centro. Mas, as vesperas de seu 29? aniversario, ela voltou, hesitante. "Eu estava com medo de abrir tanto minha vida, mas estava com mais medo ainda de n?o faze-lo", disse ela.

Os resultados

Agora que e uma instrutora, Crittenden fala sobre "a velocidade lenta do meu desejo e minha hesitac?o em ceder a ele".

Outra integrante do centro, Racheli Cherwitz, 28 anos, passou anos lutando contra a anorexia e o alcoolismo, segundo ela propria disse. Na busca de sua identidade, mudou-se para Israel e se tornou uma judia ortodoxa.

Descobrir a One Taste, disse ela, melhorou sua auto-imagem e deu a ela um "profundo acesso fisico a mulher que sou e a mulher que quero ser".

Cherwitz viaja para Nova York e oferece treinamento particular sobre sensualidade numa filial do One Taste na Grand Street. Ela diz que muitos de seus clientes s?o casais de judeus ortodoxos do Brooklyn.


Eles so podem tocar

No mundo do One Taste, homens e mulheres fazem um estranho pacto impessoal. N?o ha contato visual durante a meditac?o orgastica. A ideia, similar ao sexo tantrico do budismo, e prolongar o climax sensorial e compartilha-lo publicamente antes de conseguir a "aceitac?o" - termo usado pelos moradores, que costumam falar atraves de jarg?es, para definir o orgasmo.

Apesar de os homens n?o serem tocados pelas mulheres e n?o chegarem ao orgasmo, eles dizem vivenciar uma sensac?o de energia e saciedade. Tanto os acariciadores quanto as acariciadas insistem que o verdadeiro proposito do OMing e uma "hidratac?o" do ser, e a conex?o humana e n?o o sexo.

Reese Jones, investidor de risco namorado de Daedone, compara a meditac?o orgastica a uma massagem.

"E um procedimento para nutrir o sistema limbico, como o ioga ou o pilates, nada mais que disso", diz. "Quando voce vai fazer uma massagem", disse ele, "voce n?o leva a massagista para jantar depois".

Grande parte da atmosfera da comunidade gira em torno de Daedone, uma mulher de charme consideravel, apesar de seus detratores a verem como uma mestra em manipulac?o.

"Nicole le as pessoas", diz Marci Boyd, 57, a moradora mais velha do grupo, usando uma frase do livro "Stranger in a Strange Land", de Robert A. Heinlen, que significa entender alguem t?o completamente que o observador se funde com o observado.

Daedone insiste que ela n?o gosta e n?o pede pela imagem de toda poderosa. Ha um potencial muito forte que isso se torne um culto.

Ela deixou recentemente sua moradia na comunidade, em parte para lutar contra essa tendencia. "Sempre que eu estava no centro, todo mundo me tratava como um guru", disse ela. "Eu acordava e as pessoas vinham sentar-se na minha cama".

Agora ela mora com Jones, seu namorado, que vendeu sua companhia de software, a Netopia, para a Motorola por US$ 208 milh?es, e fornece recursos financeiros para o One Taste, ajudando inclusive a comprar uma sede de retiros em Stinson Beach, na California.


Sera que vai pegar?

Daedone quer que o One Taste saia do eixo alternativo e para isso o centro oferece ensinamentos de rabinos e monges tibetanos, junto com aulas publicas e cursos sobre "sexualidade consciente".

Entretanto, e dificil imaginar que o One Taste se torne uma tendencia. Num curso de final de semana realizado recentemente no centro, onde uma enorme plateia de homens e mulheres estava interessada em aprender a meditac?o orgastica, Daedone resumiu sua filosofia.

"Em nossa cultura", disse ela, sentada sobre uma almofada com uma aura quase divina, "as mulheres tem sido condicionadas a terem uma sexualidade fechada e uma abertura de sentimentos, e os homens tem uma sexualidade aberta e os sentimentos fechados. Existe esse lugar enorme de resistencia e vergonha".

Logo depois, os aspirantes a pratica do OM, incluindo um casal de Marin County que esperava reacender a chama de seu casamento, reuniram-se no ch?o em volta de uma cama de massagem. Justine Dawson, uma bela moradora da comunidade, de 34 anos, tirou seu roup?o e subiu na maca. Outro morador, Andy Roy, 28, comecou sua tarefa, com uma concentrac?o t?o intensa que comecou a transpirar.

Os presentes foram instruidos a ventilar seus sentimentos e muitos o fizeram, descrevendo a excitac?o que eles, tambem, estavam sentindo.

Quando a sess?o terminou, Dawson emanava um resplendor digno de um Caravaggio, uma inocencia juvenil. Em outro contexto, aquele poderia ter sido um momento profundo e romantico entre dois amantes. Em vez disso, uma imagem diferente me veio a mente: a entrevista pos-coito de Howard Cosell, segurando um microfone, no filme "Bananas", de Woody Allen.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.