O distúrbio existe e acomete de 10 a 20% das mulheres. É uma doença, sim, e a boa notícia é que pode ser tratada

Quem não se lembra do embate no showbiz hollywoodiano entre a atriz Brooke Shields (da Lagoa Azul, lembra?) e o também ator Tom Cruise, acerca da depressão pós-parto? De um lado, o astro de Top Gun criticou a postura de Brooke por tomar medicamentos antidepressivos durante o seu período de puerpério e, do outro, ela rebateu as críticas e ainda chamou a atenção mundial para a doença, o que culminou com o lançamento do seu livro Depois do parto, a dor, onde teve coragem para expor tudo o que passou e alertar as mulheres para este perigo. E é essa bandeira que levantamos agora.

Não confunda baby blues com depressão pós-parto
O baby blues acontece com 50% das mulheres. É uma melancolia que tem início cerca de cinco dias após o parto. Às vezes dura dias, ou semanas. A mulher fica mais chorosa, mais no ar, mais sensível, pode ou não ter dificuldade para dormir, porém não sente culpa, não tem um horror em relação a bebê. Tem mais a ver com uma tristeza, uma certa dependência para cuidar do filho, mas passa!, explica Ana Luiza Camargo, coordenadora da psiquiatria do Hospital Israelita Albert Einstein. Segundo a médica, é importante reforçar que a ocorrência do baby blues não significa que a mulher vá necessariamente desenvolver uma depressão. E sua ausência também não descarta a possibilidade da depressão pós-parto se instalar.

Por que ela aparece?
A depressão pós-parto é uma doença multifatorial. Segundo Ana Luiza, o pós-parto é um momento novo tanto do ponto de vista físico, quanto mental. As emoções e o corpo sofrem uma tempestade. E é natural que as duas situações influenciem o estado de espírito, comenta. Para o ginecologista Aléssio Calil Mathias, até as mudanças hormonais podem ser listadas como um dos fatores que a desencadeiam.

Como eu a detecto?
O início dos sintomas pode acontecer de quatro semanas a 12 meses, e é caracterizado por um humor depressivo, uma ansiedade excessiva, insônia..., detalha Ana Luiza. A médica descreve a situação como um par de óculos escuros ¿ A mãe vê tudo escuro. Ela levanta pela manhã e tem a sensação de que está carregando o mundo nas costas. Fica assustada. E pode pensar que não vai conseguir cuidar do bebê, chegando a pensar na morte, seja dela, do bebê ou dos dois. Tudo muito ligado a um forte sentimento de culpa, isso nos quadros mais severos da doença.

Principais estressores
A falta de suporte da mãe ¿ ela está sozinha, não tem com quem contar para ajudar com os cuidados do bebê ¿ é um dos principais fatores que colaboram com o quadro. A psicóloga Vânia Sole Botelho completa a lista com a acentuada queda dos hormônios sexuais, a qualidade do relacionamento familiar, principalmente com o marido e filhos, e os problemas em administrar a nova rotina. Para ela, além das condições ambientais, as características prévias de cada mulher também interferem: uma mulher com tensão pré-menstrual acentuada ou processos depressivos anteriores está mais sujeita a enfrentar o problema, explica.

Em busca do tratamento correto
Se a depressão é como um par de óculos escuros, basta tirá-lo. A pessoa não vai enxergar o mundo cor-de-rosa, mas também ele não será mais escuro; será da cor que realmente é, ilustra Ana Luiza. A médica ressalta ainda que a culpa trazida pela depressão é tão grande que ela não se dá conta do que está passando. Muito frequentemente é a família que deve observar, dizer que ela está passando por um transtorno e, principalmente, encaminhá-la para o tratamento adequado, administrado por médicos especialistas em saúde mental, diz. Muitas vezes a família incentiva com palavras de melhoras e otimismo, planeja viagens e passeios, com o intuito de proporcionar prazer para a mulher, mas ela naturalmente não vai se sentir bem. Ela precisa se tratar para gradativamente divertir-se nessas ocasiões, completa.

Como é o procedimento certo, afinal?
Após diagnosticado o quadro, a mãe precisa de uma rede de suporte social ¿ vale a família e até mesmo um serviço de homecare, para que o bebê fique sob os cuidados de alguém e faça com que ela se sinta menos sobrecarregada. A medicação também deve ser prescrita por um especialista, de forma que este preverá remédios que não passam pelo leite materno para o bebê, durante a amamentação, conta Ana Luiza. As pessoas devem estar alertas e sentirem-se a vontade para procurar profissionais de saúde mental para fazer uma consulta ¿ isso geralmente dá um norte para todos, diz. O tratamento para depressão pós parto não é rápido e varia de pessoa para pessoa, mas segundo a médica, logo no início, é possível amenizar os sintomas com medicação e a melhora concreta pode aparecer de 15 dias a seis semanas.

Quem tem uma vez, tem sempre?
Não dá para prever, alerta Ana Luiza. O fato de ter tido uma depressão anterior é motivo para ficar alerta durante o puerpério, sim. Existe a tendência, mas isso não significa a repetição. Cada paciente é único, conta. O médico deve estar atento e acompanhar o comportamento da nova mamãe ainda na maternidade, para transmitir a segurança de que, se a depressão ocorrer, ela será tratada e curada. Vários estudos estão em andamento. A doença é vastamente estudada. E o que se sabe é que os fatores que a desencadeiam podem ter múltipla influência e não dá para prever quando ela ocorre, finaliza.

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