Objetivo é ampliar acesso ao teste e conseguir diagnóstico precoce

Orientação: trabalho feito a partir de uma cartilha que promove diálogo sobre o tema
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Orientação: trabalho feito a partir de uma cartilha que promove diálogo sobre o tema
O Ministério da Saúde quer, por meio do apoio da Igreja e também das escolas, diminuir o contingente de 114 milhões de brasileiros que não sabe se é ou não portador do HIV, o vírus causador da aids.

O número de pessoas que não realizou o teste do vírus HIV – suficiente para lotar nada menos do que 1187 Estádios do Maracanã em dia de clássico – representa 60% da população do País.

Para diminuir resistência, medo, preconceito e desinformação sobre a testagem, o Programa Nacional de Prevenção à DST/Aids convocou o apoio de entidades que antes quase sempre caminharam de costas para a doença transmitida, em especial, pelo sexo sem proteção.

A primeira instituição a aceitar a parceria com a saúde foi a Igreja, um passo histórico no combate à aids. No final do ano passado, Ministério da Saúde e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) deram as mãos para tentar reverter a legião dos que podem estar invisíveis nas estatísticas da doença – que soma 30 mil casos novos por ano.

A estratégia é capacitar religiosos e membros da igreja para estimular os fiéis a fazer o teste. O Frei José Bernardi, secretário geral da Pastoral da Aids, conta que depois de firmada a parceria, já foram capacitados religiosos de cinco capitais: Manaus, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre e João Pessoa. Em abril, a capacitação deve amentar – segundo informações do Ministério da Saúde, a parceria está cogitada para chegar a São Paulo.

“Os agentes (da Igreja) encarregam-se de sensibilizar e incentivar as pessoas a buscar o serviço de saúde para a testagem”, explica o frei. “Os programas estadual e municipal encarregam-se da estrutura e do pessoal para o aconselhamento e a testagem, além de encaminhar ao serviço especializado os que tiverem resultado positivo. O ministério da saúde vai providenciar os testes e o tratamento”, diz.

Fiéis na batalha

Segundo o secretário geral da Pastoral da Aids, até agora não houve rejeição por parte dos fiéis com relação ao incentivo do teste da aids e muitos procuraram o diagnóstico. A Igreja ainda não adota postura preventiva com relação à doença. Rechaça, por exemplo, a utilização de preservativos já que o sexo deve acontecer só depois do casamento, com função reprodutiva, segundo os preceitos religiosos. Mas o fato é que as portas do catolicismo estão mais abertas para os cuidados com o HIV.

Além da parceria com o Ministério da Saúde, ainda com foco na assistência e não na prevenção, a Igreja realiza outros trabalhos de combate à aids. “Acreditamos que dialogar sobre o tema também ajuda a diminuir o medo e, conseqüentemente, o estigma, o preconceito, tão presentes na realidade da epidemia”, afirma Frei Bernardi, que conduz também um trabalho com as mulheres casadas e com mais de 40 anos, cada vez mais presentes nos números da doença. Elas representavam 8% dos casos novos no Brasil em 2000 e hoje somam 15%. Uma pesquisa do Instituto de Infectologia do Emílio Ribas atestou que 75% delas contraíram HIV dos maridos ou parceiros fixos.

“Estamos com um trabalho nas comunidades a partir de uma cartilha que promove o diálogo sobre este tema, procurando refletir sobre as condições sociais e culturais que colocam a mulher numa situação de maior vulnerabilidade”, conta Bernardi.

Prevenção nas escolas

O Programa Nacional de Combate à Aids, que já comemora a parceria com a Igreja Católica, quer que a “dobradinha” chegue também às unidades de ensino. “Queremos ampliar o projeto de saúde nas escolas, o incentivo à procura da testagem e também o uso de preservativo”, afirmou a assessora técnica do Departamento de DST/Aids do Ministério da Saúde, Rosângela Ribeiro.

Ainda que a aplicação deste projeto envolva, principalmente, meninos e meninas menores de idade, Rosângela diz que o trabalho é necessário porque esta faixa etária também aumenta nas estatísticas. “Tanto que os adolescentes são o foco da nossa campanha de aids do carnaval”.

Ela explica que nas escolas os programas de incentivo à testagem seguem as diretrizes do Conselho Federal de Medicina (CFM). “Caso a caso, os adolescentes são avaliados. Aqueles que são capazes de entender o que é a testagem e de receber os resultados podem ser testados sem o conhecimento dos pais. Eles são incentivados a compartilhar com alguém da família, mas o sigilo é garantido, independentemente da idade, se assim o adolescente desejar”.

Pré-natal masculino?

A estratégia de aproximação com a igreja católica e com as escolas para diminuir a quantidade de pessoas que não fizeram o teste da aids precisa atrair, em especial, o sexo masculino.

Na divisão entre homens e mulheres, elas são 49,8% entre os testados. Eles, no entanto, são 30,4%. A vantagem feminina é explicada por um fator: o pré-natal. Quando ficam grávidas, é praxe na rotina médica sugerir o exame do HIV.

O infectologista do Hospital Albert Einstein, Arthur Timerman, explica que é preciso ampliar o número de pessoas que fazem o teste do HIV para junto aumentar o diagnóstico precoce da doença , única forma de garantir a sobrevida. “Hoje, sabemos que 65% dos pacientes diagnosticados com aids só ficam sabendo que têm o vírus quando uma doença crônica oportunista (tuberculose, pneumonias) surge”.

A recomendação para quem teve comportamento de risco – uso compartilhado de seringas e sexo sem prevenção – é esperar 30 dias antes de fazer o teste. O período conhecido como “janela epidemiológica” é o indicado para que os resultados não sejam alterados. Se não respeitado, pode dar um “falso negativo”, quando na verdade a pessoa tem a doença.

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