Médicos apostam nas mulheres para ‘convencer’ os homens a receber as doses

Além do cuidado com as crianças, mulheres ajudarão na adesão dos homens à campanha
Getty Images/Photodisc
Além do cuidado com as crianças, mulheres ajudarão na adesão dos homens à campanha
Uma espécie de jornada dupla, já tão enfrentada pelas mulheres, deve ser repetida durante a vacinação da gripe suína, que começa semana que vem. Segundo especialistas, elas terão papel fundamental para conseguir ampliar a cobertura da vacinação no País.

As mulheres não apenas terão de comparecer aos postos para auxiliar o Ministério da Saúde a bater os 90 milhões de imunizados, como também devem convencer maridos, filhos, pais e irmãos a vencerem a resistência e tomarem a vacina.

A resistência masculina em aderir à vacinação já foi atestada em outras campanhas. A última, contra a rubéola realizada em 2008, deixou em evidência a desvantagem dos homens na cobertura vacinal. Segundo o Ministério da Saúde, enquanto 95,3% das mulheres até 29 anos foram vacinadas contra a doença que pode deixar sequelas como surdez, entre eles a incidência na faixa etária ficou em 89,8%.

A diferença de seis pontos porcentuais pode parecer insignificante, mas não é. Primeiro porque o País havia se comprometido a imunizar contra a rubéola 90% da população – estratégia essencial para erradicar a doença do Brasil. Em tese, os homens ficaram abaixo da meta. Depois, porque foram meses de campanha e para conseguir chegar ao índice de cobertura masculina várias cidades precisaram fazer campanhas específicas para fisgar os fujões. São Paulo, Campina Grande, Curitiba foram exemplos de secretarias municipais que usaram da estratégia.

A campanha contra a rubéola não é a única que revela a distância dos homens dos postos de vacinação. Pesquisa publicada na Revista Brasileira de Medicina Tropical, em setembro do ano passado, mostrou o mesmo “fenômeno” com as doses que protegem contra a febre amarela. O trabalho feito por pesquisadores da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Diamantina, de Minas Gerais, mostrou que apesar deles aparecerem 10 vezes mais nos casos da doença, são minoria na cobertura vacinal.

Um idêntico cenário de distanciamento masculino é esperado agora na vacinação contra gripe suína, mesmo sendo a primeira epidemia do século, que afetou 220 países e matou jovens brasileiros. Os médicos agora apostam nas mulheres como peças chaves para trazê-los para tomar a vacina, ainda mais agora que o Ministério da Saúde estendeu o benefício das doses gratuitas para a faixa etária entre 30 e 39 anos.

Pegar pela mão

“As mulheres sempre tiveram papel fundamental na saúde de seus maridos, pais, avôs e filhos. Não será diferente com a vacinação da Influenza A (nome científico da gripe suína)”, afirma o infectologista do Hospital Emílio Ribas, David Uip. “Mesmo porque, não faz sentido dispensar uma vacina tão segura que protege contra uma infecção que pode ser letal.”

A dificuldade em conseguir vacinar os homens não tem como explicação só um possível “medo de agulha”. Os médicos dizem que o distanciamento deles das consultas é cultural: aparecem menos nos consultórios dos urologistas, clínicos gerais e dentistas, e mais nos dados de morte por câncer (diz o Instituto Nacional do Câncer), de infarto (afirma a Sociedade Brasileira de Cardiologia) e outras doenças.

Para vencer a síndrome de super-herói (“nada acontece comigo, por isso não preciso de médico”, se enganam alguns), o urologista do Hospital das Clínicas, Jorge Hallack, diz que é preciso investimento público e um empurrãozinho delas. “Homem só vai ao médico se a mulher, mãe ou irmã mandar”, diz.

E a tática “de pegar pela mão” também precisará ser repetida na vacinação contra a gripe suína, avalia o infectologista da Unifesp, Paulo Olzon. “O homem precisa de um incentivo muito mais forte do que o da mulher para fazer coisas relacionadas à saúde. Se a publicidade não for específica para esta parcela, ou atenuar a mensagem de que a doença pode ser sim perigosa, os homens não vão procurar a vacina”, ressalta.

Vacina para alguns públicos

Mesmo tendo deixado o mundo em alerta, a primeira onda de gripe suína não foi suficiente para convencer todos tomarem a vacina. Na Europa e Estados Unidos, as autoridades sanitárias amargaram sobras de doses.

No Brasil, a vacinação começa semana que vem e não será para todas as pessoas. Se o marido, filho, irmão, primo ou amigo tiver no público selecionado como alvo, não esqueça de dar aquela “chamada” para ele comparecer ao posto e ficar em dia com a saúde. Dá até para tomar as vacinas que estão atrasadas.

Calendário nacional de vacinação

Profissionais de saúde e indígenas: 8 de março a 19 de março
Gestantes, doentes crônicos e crianças de 6 meses a 2 anos: 22 de março a 2 de abril
Jovens de 20 a 29 anos: 5 de abril a 23 de abril
Idosos (mais de 60 anos) com doenças crônicas: 24 de abril a 7 de maio
Pessoas de 30 a 39 anos: 10 de maio a 21 de maio

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.