Entenda o método e saiba como não usá-lo de maneira errada

Contraceptivo emergencial: uso indevido aumenta risco de transmissão de DSTs
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Contraceptivo emergencial: uso indevido aumenta risco de transmissão de DSTs
Este ano, o Ministério da Saúde planeja distribuir 916 mil “pílulas do dia seguinte” (458 mil cartelas com duas unidades), número 29,9% maior do que o entregue em 2005, quando começou a distribuição.

A matemática mostra que, se todas forem usadas, 104 pílulas serão ingeridas a cada hora por alguma mulher de algum lugar do País interessada em impedir, de forma emergencial, uma gravidez não planejada.

Na conta, só entram as pílulas que chegam às pacientes por meio dos serviços públicos. Nestes casos, as interessadas recebem orientações dos profissionais de saúde dos postos antes de recorrer ao método, criado há 10 anos, com o intuito de socorrer apenas vítimas de estupro.

Hoje, a recomendação dos médicos – inclusive do governo federal – é que os comprimidos sejam uma última opção preventiva, caso a camisinha tenha falhado ou o anticoncepcional tradicional esquecido.

O problema é que fazer da pílula só do dia seguinte uma companhia “de todo dia” pode revelar comportamento de risco. Indica que o sexo sem proteção é recorrente, o que pode ser a porta de entrada de doenças sexualmente transmissíveis, como aids e sífilis.

“A contracepção de emergência tem grande potencial para prevenir gestações que são efetivamente indesejadas, reduz a possibilidade de mulheres – em especial as mais jovens e as mais pobres – recorrerem a um abortamento inseguro”, afirma Margareth Arrilha, presidente da Comissão de Reprodução e Cidadania (CCR), ligada ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). “É um método reconhecido pela OMS (Organização Mundial de Saúde), mas que deve ser usado em situações especiais. Não pode ser de forma programada ou em substituição de um método de rotina”, reforça.

Além dos serviços públicos de saúde é possível conseguir a pílula do dia seguinte nos balcões das farmácias particulares. O medicamento, composto por alta dosagem hormonal custa, em média, R$ 15. Usá-lo de maneira desregrada pode ser um risco não necessariamente por causa das substâncias existentes na pílula. O índice de proteção de uma gravidez indesejada varia entre 75 e 85%. Com camisinha, a eficácia de proteção contra uma gestação é de 99%.

Ainda não há estudos que confirmem que a dosagem hormonal contida na pílula é nociva quando usada de formas repetidas e nem evidência de que o método compromete a fertilidade faminina. Mas os dados epidemiológicos do País comprovam que a transmissão do HIV entre mulheres é uma realidade. Elas, inclusive, foram eleitas como foco das campanhas nacionais por cresceram nas estatísticas de casos. Ter relações sexuais sem preservativo é estar vulnerável a uma doença sexualmente transmissível.

Uso incorreto

Os especialistas em saúde afirmam que a pílula do dia seguinte deve ser encarada como uma das conquistas da mulher na área do direito sexual e reprodutivo. A Igreja Católica, por exemplo, é contrária ao uso por considerá-lo abortivo. Essa convicção fez com que algumas cidades brasileiras interrompessem a distribuição das cartelas. Jundiaí, São José dos Campos e Pirassununga, todas em São Paulo, são alguns exemplos.

Mesmo os defensores da pílula do dia seguinte concordam que o mau uso não pode ser descartado da lista de preocupações. O Programa de Saúde do Adolescente de São Paulo, por exemplo, constatou que uma em cada quatro meninas – entre 14 e 21 anos – que recorreu ao contraceptivo de emergência não havia usado nenhum outro tipo de proteção. A mesma faixa etária é a que mais cresceu nos dados do vírus HIV.

No final do ano passado, ao menos três pesquisas brasileiras estudaram o uso indevido da pílula do dia seguinte. Uma delas, publicada no Caderno de Saúde Pública foi feita com 4.210 adolescentes (14-19 anos) da rede pública estadual de Pernambuco. A maioria dos estudantes relatou conhecer o método e a maioria também, quando usou, o fez de forma errada: 78% das meninas recorreram à pílula como método inicial ou utilizaram o medicamento depois de três dias da relação sexual, o que diminui ainda mais a chance de sucesso em evitar a fecundação.

Mais estudo, maior uso

Outro estudo, feito com 600 estudantes da Universidade de São Paulo (USP) atestou que 51% delas já havia usado a pílula do dia seguinte ao menos uma vez na vida. O índice é uma amostra de que quanto mais escolarizada a população feminina maior o uso do método. Para comparar, a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, feita em 2006 com mulheres brasileiras de 20 e 24 anos de todos os níveis educacionais, encontrou uma taxa de uso da contracepção de emergência de 18,5%.

No trabalho feito com as estudantes da USP, um terço das que usaram a pílula fez isso por insegurança. Elas faziam uso de outro método (anticoncepcional tradicional ou camisinha) e ainda assim procuraram as doses do dia seguinte.

Para Ana Luisa Vilella Broges, da faculdade de enfermagem da USP e uma das autoras do estudo, uma das explicações para a diferença dos números é o próprio conhecimento do método. Além disso, acrescenta ela, “uma gravidez em um grupo jovem com grandes perspectivas educacionais e profissionais tem um significado bastante negativo, sendo a pílula do dia seguinte um recurso adotado para evitá-la”.

A preocupação exclusiva com uma gravidez indesejada e não com as DSTs já foi classificada pelo próprio Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, como um dos efeitos negativos dos avanços da medicina em controlar a aids. Como a geração atual não enfrentou a pior fase da epidemia do HIV (nos anos 80), acreditam os especialistas, “acabou perdendo o medo da infecção”.

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