Aparelho é alternativa de tratamento para pacientes com movimentos comprometidos

Walter faz um exercício de equilíbrio no videogame
David Santos Jr/ Fotoarena
Walter faz um exercício de equilíbrio no videogame
A sessão de fisioterapia ganha ares de brincadeira com o videogame. Os tradicionais exercícios para recuperação de movimentos são combinados com o jogo, que simula atividades de ioga e até competições esportivas.

“O Walter já é craque”, brinca Sérgio de Souza Pinto, fisioterapeuta da Unicid (Universidade Cidade de São Paulo). Ele orienta o paciente Walter Oshvat, de 61 anos, a se equilibrar sobre uma plataforma branca. Seus movimentos são captados pelo aparelho e usados numa espécie de sinuca virtual, onde o jogador-paciente precisa acertar esferas dentro de uma caçapa.

“É um exercício de equilíbrio”, explica o fisioterapeuta. Os movimentos são sutis para quem vê de fora, mas exigem força e concentração do paciente, que chega a ficar ofegante. “Cansa, mas é divertido”, conta Walter – ele teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e perdeu boa parte dos movimentos no lado esquerdo do corpo.

“Só conseguia andar escorando nas paredes de casa e vivia caindo”, recorda. Hoje, com o tratamento, Walter já consegue andar sozinho e usa as mãos para gesticular com naturalidade enquanto fala. “Estou ótimo”, comemora.

Motivação

O videogame já está sendo usado há mais de dois anos na Unicid como complemento terapêutico. “Ele não substitui outros recursos de reabilitação, é apenas mais uma alternativa”, explica o fisioterapeuta Fábio Navarro. Ele trouxe o projeto à universidade após participar de um congresso no Exterior.

“O jogo é bom por motivar os pacientes”, explica o especialista. Algumas pessoas reclamam dos exercícios tradicionais da fisioterapia e não conseguem realizar determinados movimentos. “Mas com o jogo, elas se distraem e, sem perceber, acabam realizando o movimento. É como se o paciente se esquecesse do problema enquanto está interagindo com o game”, afirma Navarro.

Vítimas de AVC, como Walter, costumam obter bons resultados com o game. “Os exercícios são um estímulo para o controle dos movimentos”, explica Souza Pinto.

Paralisia

Quem sofre um derrame pode ter o sistema nervoso central afetado, o que prejudicará a percepção dos estímulos externos. Essa percepção é fundamental para que o corpo estabeleça seu equilíbrio e tenha controle dos movimentos.

Walter ainda tem sequelas do AVC. “Não sinto a ponta dos dedos, mas consigo mexer as mãos”, descreve. Seu fisioterapeuta explica que os danos causados pelo derrame impõem certos limites à recuperação. “O movimento pode não ficar 100% recuperado porque houve lesão do sistema nervoso”, esclarece o especialista.

A alternativa é estimular o que restou do sistema nervoso para alcançar o máximo de controle sobre os movimentos. Walter, por exemplo, anda sem ajuda de muletas ou bengalas, mas seus passos já não têm mais tanta firmeza.

Plataforma do videogame é usada para monitorar o equilíbrio do paciente
David Santos Jr/ Fotoarena
Plataforma do videogame é usada para monitorar o equilíbrio do paciente
Lesões ortopédicas

O game consegue resultados ainda melhores com pacientes que sofreram lesões ortopédicas, como fraturas nos membros inferiores ou superiores.

“Como não existe a limitação da lesão no sistema nervoso, a recuperação pode ser completa”, afirma Souza Pinto.

Diferente das lesões neurológicas, que requerem tratamentos de pelo menos seis meses, as lesões ortopédicas podem ser cuidadas em poucas semanas.

“O paciente precisa trabalhar a coordenação e a força para recuperar os movimentos que perdeu ao ficar muito tempo com parte do corpo imobilizado”, explica.

Esportes simulados

Na Unifesp, o Lar Escola São Francisco também tem usado o videogame para reabilitação de lesões nos membros superiores. “Usamos jogos de basquete e baseball”, conta a terapeuta ocupacional Sandra Regina de Almeida Pacini.

A vantagem do jogo virtual, em vez do jogo real, está no controle dos movimentos. “Não há risco (de novas lesões) para o paciente”, comenta. Além disso, muitos sequer teriam condições de participar de jogos reais.

Com um controle que capta os movimentos dos pacientes, o console permite inclusive jogar simulações de boliche e de tênis. “Esses jogos são bons porque exigem a repetição do mesmo movimento”, conta Pacini. Essa repetição é fundamental para o paciente recuperar a força e a coordenação do movimento. Mas a especialista alerta que o tratamento deve sempre ter acompanhamento de um profissional.

Por mais que o jogo seja originalmente um recurso de entretenimento, o estado fragilizado de alguns pacientes pode ser agravado se ele realizar tais movimentos de maneira inadequada.

No caso dos exercícios de equilíbrio, o fisioterapeuta fica sempre próximo do paciente para o caso dele cair.

“Temos que estar preparados porque isso acontece mesmo”, alerta Souza Pinto.

Já em paciente com tumor nos ossos, o que requer um longo período com o membro imobilizado, o game pode até ser contraindicado.

“O movimento pode ser muito brusco. Há casos de pacientes que sofrem fraturas ao trocar de roupas”, afirma Pacini.

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