Especialista “top” afirma que dano cardíaco da terapia hormonal para libido feminina ainda é desconhecido

As mulheres conquistaram espaço na medicina para aproveitar a sexualidade de forma plena. A indústria farmacêutica, de olho nas clientes em potencial, já investe em testes e fórmulas de drogas para tratar a disfunção sexual feminina (nenhuma ainda aprovada e no mercado).

Tendo como base a revolução promovida pelos comprimidos do tipo que há uma década já fazem parte do universo masculino, a projeção é de mudanças extremas na população feminina. Neste processo de criação de um novo capítulo da história sexual delas, o médico Otávio Celso Gebara está preocupado: como é que fica o coração das mulheres?

Gebara é cardiologista, professor da Universidade Federal de São Paulo e chefe do Departamento de Geriatria feminina do Instituto do Coração de São Paulo (Incor). Durante o Congresso Brasileiro de Cardiologia – que acontece até a próxima quarta-feira (29) em Belo Horizonte, o especialista reservou um tempo para responder a três perguntas, com exclusividade ao Delas , sobre o possível impacto da já chamada versão feminina do Viagra no coração das mulheres.

Delas: Existe um movimento internacional para a elaboração de drogas contra a disfunção sexual feminina. O risco cardíaco precisa ser cogitado no processo?

Otávio Celso Gebara: Sem dúvida nenhuma. O investimento que a indústria farmacêutica começa agora para criar um comprimido, no entanto, já acontece na prática sem que o risco cardíaco seja sequer conhecido. Muitos ginecologistas indicam para mulheres com problemas na libido a reposição do hormônio testosterona. É uma conduta antiga mas ainda não sabemos responder se esta prática é ruim para o coração. Algumas pesquisas dizem que a reposição da testosterona diminui a produção do colesterol bom, deixando mais espaço para o colesterol ruim, mas o fato é que não temos a menor certeza sobre o impacto cardíaco real.

Delas: A reposição hormonal com finalidade em melhorar a vida sexual feminina ainda não tem risco calculado? É um tiro no escuro?

Otávio Celso Gebara: Não sabemos o efeito. Nem para o bem, nem para o mal. Da mesma forma que não sabemos se a terapia de reposição de testosterona é maléfica e nem conhecemos se essa terapia tem algum efeito protetor, já que, é sabido, uma das explicações para as mulheres ficarem mais suscetíveis às doenças coronarianas após a menopausa é o fim da proteção hormonal. Seria muito importante que mais pesquisas nesta área fossem realizadas, não apenas para o que já é feito, como no caso da reposição da testosterona, mas também para as drogas que ainda virão.

Delas: O risco cardíaco da reposição hormonal é pouco valorizado pelas mulheres e quase nunca abordado, não é mesmo? Por quê?

Otávio Celso Gebara: As mulheres e os médicos falam muito sobre a relação entre reposição hormonal e câncer de mama, tema amplamente divulgado, mas muito pouco é discutido sobre o risco cardíaco. A relação ainda é investigada, sem repostas definitivas, mas de uma maneira geral as doenças cardíacas são pouco cogitadas pelas mulheres como um fator de risco.

Fizemos uma pesquisa em São Paulo e muito menos da metade das mulheres acredita que pode morrer de problemas no coração, quando está é a primeira causa de morte real (a pesquisa mostra que 15% cogitam o risco). Por isso, eu digo que a função dos cardiologistas que tratam de mulher é produzir conhecimento e passá-los para os ginecologistas. Porque estas pacientes dificilmente vão chegar aos nossos consultórios, mas vão aos dos ginecologistas. Outra coisa que percebo é que a mulher que faz reposição hormonal coloca na balança a qualidade de vida naquele momento. Elas dizem que estão ótimas, que a vida e os sintomas tidos como nocivos melhoraram, então é muito difícil falar em risco cardíaco no futuro para essas pacientes.

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