Consumo indiscriminado de anti-inflamatório gera complicações gástricas. No Brasil, mulheres consomem duas vezes mais que os homens

Automedicação contra dor eleva as chances de desenvolver problemas gastrointestinais
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Automedicação contra dor eleva as chances de desenvolver problemas gastrointestinais
Ao primeiro sinal de dor, calor, inchaço e vermelhidão, o diagnóstico caseiro parece certeiro. O conhecimento raso e popular infla o uso indiscriminado de medicamentos supostamente nocivos, com um recorte especial aos antiinflamatórios.

O que a crendice e a automedicação desconhecem é o poder corrosivo do destes remédios, responsáveis pelo aparecimento de úlceras, hemorragias e outras doenças gastrointestinais.

"Nos Estados Unidos, onde há um razoável controle da venda de tais produtos, 16 mil pessoas por ano morrem em conseqüência de tal relação", revela Angel Lanas, professor do Departamento de Gastroenterologia da Universidade do Alabama, nos EUA.

Lanas é um dos participantes de um recente estudo conduzido pelo chefe de gastroenterologia e hepatologia da Universidade Chinesa de Hong Kong, Francis Chan, que mapeou os efeitos negativos dos antiinflamatórios no sistema gastrointestinal.

Foram entrevistadas 4.500 pessoas, em 32 países. No Brasil, a pesquisa foi realizada por profissionais da Universidade de São Paulo (USP), em 10 centros de atendimento médico, entre hospitais públicos e clínicas privadas. Foram selecionados 1.213 pacientes com sintomas de queimação e náusea, que tinham realizado uma endoscopia digestiva nas primeiras 24 horas.

Segundo Décio Chizon, professor de pós-graduação da disciplina de Gastroenterologia da USP, 20% dos pacientes faziam o uso de anti-inflamatórios. O especialista explica que a relação entre o medicamento e o surgimento de úlceras é direta e independe do tempo de uso. Apenas uma dose em pessoas hipersensíveis ou com histórico de problemas no aparelho digestivo é suficiente para provocar lesões.

“O risco de ter úlcera é 12 vezes maior em pacientes que fazem o uso de anti-inflamatórios, principlamente entre os que têm mais de 60 anos. Podemos afirmar, hoje, com base nas pesquisas e na análise clínica, que 25% das pessoas que fazem o uso crônico desses medicamentos desenvolverão esse tipo de ferida.”

Sintomas ocultos

O mapeamento dos dados dá corpo aos estudos antigos que tentam comprovar o perigo da ingestão de medicamentos sem prescrição ou acompanhamento médico. Entretanto, a pesquisa foi feita com pacientes que tinham sintomas pontuais, típicos de problemas gastrointestinais. Os médicos alertam, porém, que lesões sérias podem aparecer sem queixas óbvias.

“Azia, náuseas, vômitos e cólicas abdominais são os sintomas mais frequentes e servem de alerta, mas não necessariamente significam que já existe uma lesão. Outro fator importante é que a falta desses sintomas também não afasta a possibilidade de complicações.”

Brasileiras consomem mais

O uso de anti-inflamatórios é duas vezes maior na população feminina. A indicação começa logo cedo, como um aliado no combate às cólicas menstruais. O risco de complicações gástricas, em mulheres jovens, é abaixo da média, mas não raro, tampouco incomum.

“Pacientes com sensibilidade podem desenvolver úlceras e até sangramentos, independente da idade. Há inúmeras formas de tratar cólicas menstruais sem a necessidade de recorrer aos anti-inflamatórios. É fundamental consultar um especialista que sugira o tratamento ideal.”

Os casos mais freqüentes ocorrem em mulheres portadoras de artrite ou artrose, que, para aliviar a dor, recorrem aos antiinflamatórios. “Com a idade avançada, os riscos são mais elevados. A artrite é uma doença mais prevalente em mulheres. Sem controle real da venda desses medicamentos, eles passam a ser a forma mais fácil e imediata de combater a dor.”

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