Nova presidente da Sociedade Internacional de Pesquisas com Células-Tronco fala sobre pesquisas e preconceito no mundo científico

A norte-americana Elaine Fuchs, 60 anos, bióloga celular da Universidade Rockefeller e pesquisadora do Instituto Médico Howard Hughes, estuda a bioquímica do tecido cutâneo, a pele. Ela é a nova presidente da Sociedade Internacional de Pesquisas com Células-Tronco.

Parte de seu trabalho é focada em transformar o tratamento de vítimas de queimaduras e ferimentos. Na entrevista a Claudia Dreifus, do New York Times, a médica falou sobre suas pesquisas e sobre o preconceito que ainda impera no mundo masculino da ciência. Confira trechos da entrevista.

A cientista Elaine Fuchs: vitória em um mundo onde os homens são maioria
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A cientista Elaine Fuchs: vitória em um mundo onde os homens são maioria
Ao longo dos anos, qual descoberta a deixou mais orgulhosa?

Fomos pioneiros numa abordagem não-convencional para solucionar a base genética das doenças humanas. No passado, quando geneticistas pesquisavam uma doença herdada, eles sistematicamente estudavam grandes famílias com a ocorrência, e depois buscavam no DNA o gene defeituoso. No fim, acabavam conseguindo identificar o culpado, mas seguiam sem entender como proteínas mutantes contribuíam para uma pessoa desenvolver a doença.

No início da década de 1990, tomamos uma direção reversa ao estudar o que as proteínas faziam, para depois descobrir quais doenças eram causadas por elas, quando defeituosas. O primeiro avanço veio quando estudávamos uma rara doença hereditária envolvendo bolhas na pele. Era uma condição rara, não havia grandes famílias para estudar.

O que fizemos foi começar estudando as queratinas, as principais proteínas da pele. Quando criamos ratos para expressar queratinas mutantes, descobrimos que a pele deles criava bolhas. Além disso, fomos capazes de demonstrar como a mutação causava as bolhas. Então, o próximo passo era comparar a patologia da pele dos ratos com todas as doenças conhecidas que causavam bolhas na pele humana. Desde então, nosso método se tornou um paradigma para orientar cientistas à base genética de outras doenças humanas.

Atualmente, seu laboratório foca em células-tronco da pele. O que há nelas que a fascina tanto?

Células-tronco da pele têm propriedades especiais que faltam nas células comuns da pele. Elas conseguem desenvolver um tecido que pode se tornar pele exterior, folículos capilares ou glândulas sudoríparas. Eu gostaria de saber como uma célula-tronco pode criar tecidos tão diferentes entre si.
Isso pode, no fim, se mostrar útil no tratamento de pacientes com queimaduras.

Atualmente, podemos dar a eles enxertos de pele, embora a pele transplantada não desenvolva pêlos ou suor, algo de que as pessoas precisam para regular sua temperatura corporal. Uma vez que entendamos completamente como funcionam as células-tronco da pele, poderemos conseguir projetar enxertos aprimorados. Poderemos, inclusive, criar tecidos que ajudem com a cegueira da córnea.

Como parte dessa pesquisa, a senhora criou um rato extraordinariamente peludo. Por quê?

Nós queríamos compreender a função de uma proteína produzida por células-tronco da pele: a beta-catenina. Ela ajuda os genes a ligar e desligar, e ajuda as células a aderirem umas às outras. Assim, isolamos a proteína e a inserimos em ratos. Para nossa surpresa, vimos que ela parecia persuadir as células-tronco a criar folículos capilares.

Essa foi uma dica de como as células-tronco da pele fazem pêlos?

Exatamente. A proteína emitia instruções ao interruptor que pega uma célula-tronco e diz a ela: “Faça um pêlo”. O que estávamos fazendo ao expressar altos níveis de beta-catenina era dizer às células da epiderme: “Crie um pêlo”. E elas responderam: “OK”. O resultado foi o rato cabeludo.

A senhora sempre quis ser cientista?

Sempre me interessei por como as coisas funcionam. Quando era criança em Chicago, nos anos 50, não havia muitas mulheres cientistas. Assim, fazer o tipo de pergunta que me interessava era algo incomum.

Quando entrei na escola de pós-graduação em Princeton, em 1972, como uma das três mulheres em bioquímica, tive dificuldades em encontrar um orientador para minha tese. A primeira pessoa com quem falei sobre a possibilidade de trabalhar em seu laboratório foi Bruce Alberts. Ele disse: “Eu só aceito os melhores alunos”. Para mim, era uma indicação para dar o fora. O orientador que me aceitou foi Charles Gilvarg. Fiquei muito feliz, até que seu técnico de laboratório me disse: “É surpreendente que você trabalhe para ele, pois ele afirmou que as mulheres não pertencem à ciência”. Levei esses fatos como um convite para provar as pessoas do contrário. Isso me fez trabalhar mais duro.

Bruce Alberts era, até recentemente, presidente da Academia Nacional de Ciências, da qual a senhora é um membro. Alguma vez ele já lhe o lado dele dessa história?

Bem, ele alega não se lembrar do ocorrido. Porém, atualmente todos esses cavalheiros são apoiadores da mulher na ciência. Eles voltaram atrás.

Tenho de lhe dizer que agora que estou numa posição de autoridade, sinto ser vital pavimentar o caminho para que outras mulheres entrem nestas fileiras. Essa é a verdade para muitas das mulheres bem-sucedidas da minha geração. Hoje já não é moderno dizer em voz alta que as mulheres não deveriam ser cientistas, mas algumas posturas permanecem.

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