Comandado por uma mulher, grupo paulista investiga casos de doenças incomuns, antes do alerta de epidemia

Beatriz, coordenadora do grupo Episus no centro, junto com três dos quatro agentes que formam o
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Beatriz, coordenadora do grupo Episus no centro, junto com três dos quatro agentes que formam o "Bope da Saúde"
Eles são menos numerosos, não usam roupas pretas, não possuem carros blindados, tampouco fuzis. A Tropa de Elite da Saúde de São Paulo ainda ganha um coeficiente rosa – é comandada por uma mulher, perita em medicina veterinária.

Embora não ostentem uma caveira como brasão, também invadem o morro e os bairros de classe média ou de elite para investigar focos de doenças graves e incomuns, antes que o alerta de epidemia – e as mortes – sejam inevitáveis e crescentes.

O trabalho de investigação e prevenção contra possíveis problemas de saúde pública é realizado pelo grupo Episus, um programa de treinamento de profissionais, supervisionado pelo Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Quatro profissionais, com diferentes formações – veterinária, enfermagem e medicina - são selecionados a cada dois anos para integrar esse “Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Saúde.”

A rotina não inclui flexões e treinos de tiro. Duas vezes por semana, os agentes assumem o papel de alunos do curso de Mestrado em Saúde Coletiva, realizado em parceria com a Santa Casa de São Paulo. Quem lidera e ensina é Beatriz Kitagawa, coordenadora do projeto. Em 2008, mais de 100 profissionais da área da Saúde se candidataram às poucas vagas oferecidas no concorrido grupo.

Pioneirismo

O trabalho é específico e, por vezes, personalizado. Não há um número mínimo de casos para que o grupo seja acionado. “Depende muito da doença. Apenas um registro de botulismo (intoxicação alimentar rara) é alarmante o suficiente para investigarmos”, relata.

O setor de vigilância epidemiológica da Secretaria Municipal entra em contato com a área técnica, o Centro de Zoonoses, para discutir um possível foco de contaminação ou sintomas atípicos em um ou mais pacientes de determinada região. Denuncia apresentada, razões atípicas e sem causa e conseqüência aparente, levam os agentes, sob o comando de Beatriz, a investigar o caso.

Em 2009, o primeiro caso morte do Estado provocado pela influenza H1N1 foi esmiuçado pelo grupo. Era preciso entender o ponto de partida da contaminação para que as medidas de controle tivessem sucesso, revela a coordenadora.

O mapeamento da rotina, hábitos, lugares, cidades ou países visitados pelo paciente foi traçado detalhadamente. Toda a rede de contato – parentes, amigos – foi encaminhada a uma equipe médica para avaliação do quadro clínico. O objetivo era, por meio da primeira morte, identificar se o vírus já estava circulando no Brasil.

“Com essa análise criteriosa, conseguimos provar a contaminação sustentada, ou seja, o vírus já circulava no País, os casos investigados não tinham feito nenhuma viagem internacional.”

Investigação 24 horas

Para entender as causas e fatores que possam ter provocado um doença, os agentes vasculham a rotina, os hábitos, as condições sanitárias em que o paciente vive. Questões aparentemente simples, como a presença de animais, esgoto, últimas refeições realizadas, dão corpo ao trabalho de investigação e solução de cada caso. É preciso voltar no tempo, resgatar o que foi vivido pelo paciente antes do aparecimento dos sintomas.

O resultado direciona as medidas do serviço de saúde e vigilância sanitária do Estado. O processo já deu base a ações e campanhas no interior de São Paulo. Após investigar surtos de febre amarela em Itapeva e Botucatu, o grupo constatou que a área representava um risco de contaminação aos moradores e aos turistas. Hoje, é recomendável a vacinação da população que circula nessa região.

De abril de 2009 até agosto de 2010, o grupo liderado por Beatriz já realizou 20 trabalhos de investigação. O número, embora seja bastante expressivo para a complexidade da atuação, não dá conta de atender às demandas do estado.

“A equipe trabalha 24 horas, sete dias da semana. Todos devem estar sempre disponíveis para um chamado. Apesar da sobrecarga, não conseguimos investigar todos os casos. A idéia é formar profissionais a cada dois anos para elevar o número de pessoas capacitadas”, diz.

Para auxiliar os demais agentes, e tirar dúvidas da população, o Centro de Vigilância Sanitária disponibiliza um profissional da saúde no atendimento telefônico (0800-555466). O site  também oferece orientações básicas e relatórios sobre a área de atuação do órgão.

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