Conheça alguns fatores que podem desencadear crises de cefaleia, um problema bem feminino

Setenta e dois por cento da população brasileira teve pelo menos uma crise de dor de cabeça no último ano, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cefaleia. A prevalência é maior entre as mulheres. Ainda segundo a entidade, todo dia 2% da população brasileira tomam analgésico.

A entidade internacional já classificou mais de 200 tipos diferentes de dor de cabeça. Saber o que está causando essa dor é o principal passo para tratá-la corretamente.

Dor: recorrer à remédios para poder realizar as tarefas diárias pode ser perigoso
Getty Images/Stockbyte Silver/John Foxx
Dor: recorrer à remédios para poder realizar as tarefas diárias pode ser perigoso
As dores de cabeça, essencialmente, são de dois tipos. “A cefaleia primária é a doença e o sintoma dela mesma, já a secundária é aquela em que outros motivos podem estar causando a dor, como uma gripe, por exemplo”, esclarece o neurologista especializado em dor de cabeça Abouch Krymchantowski. Segundo ele, para distinguir uma da outra é essencial ficar de olho na freqüência e na intensidade das crises. “A primeira não é uma coisa que você tem um dia e passa. Ela chega a ter uma constância de duas vezes ou mais por semana durante anos”, afirma.

As dores secundárias podem ter motivos distintos que nem sempre estão relacionados à tensão do dia-a-dia ou a uma doença em si. “Em geral, a pessoa tem dor de cabeça porque herda uma predisposição. E frente a determinados deflagradores, a cefaleia aparece”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Cefaleia, Carlos Bordini.

Os fatores que podem funcionar como gatilho da dor são os mais diversos e variam de pessoa para pessoa. Dormir pouco ou em excesso, ingerir comida gordurosa, fumar, pular refeições, mudanças súbitas de temperatura, muita claridade e consumo de produtos como o álcool, lácteos, entre outros, são os deflagradores mais frequentes.

“Para algumas pessoas, evitar esses fatores pode ser útil. No entanto, temos de tomar cuidado para que a pessoa não crie mitos. Para poder dizer que o vinho, por exemplo, dá dor de cabeça a pessoa teria que experimentá-lo algumas vezes em situações diferentes. A grande chave é o equilíbrio”, afirmou o neurologista.

Músculos cansados

Mascar muito chiclete, morder caneta, roer a unha e atividades como essas podem exigir demais dos músculos do maxilar e causar dores de cabeça. “Nesses casos, os músculos estão desempenhando funções às quais não estão habituados, levando-os ao cansaço, que vai se manifestar sob a forma de dor”, explica o cirurgião dentista especialista em reabilitação oral, Flávio Luposeli.

Outro problema comum é o bruxismo – o ranger ou apertar de dentes – que sobrecarrega a musculatura, causando fadiga. “No geral, 80% dos episódios são causados pela fadiga, outros 20% são problemas de dentição mesmo.”

Também existe uma linha de pesquisa nesse ramo que acredita que problemas como a mordida cruzada, por exemplo, podem causar dores de cabeça. “Mas isso é raro”, diz o dentista.

Cefaleia e gravidez

Poucas mulheres sabem, mas nos três primeiros meses de gravidez é comum que a futura mamãe apresente cefaleia. “O corpo está se preparando para uma elevação no volume de sangue, que na gestação aumenta 50%. Um dos artifícios do corpo é a vasodilatação, ou seja, os vasos aumentam sua capacidade. Essa adaptação é feita também no cérebro”, afirma Edílson da Costa Ogeda, obstetra do Hospital Samaritano, em São Paulo. O problema, no entanto, é temporário e deve desaparecer até o final do terceiro mês.

Para lidar com as dores durante o período, o especialista indica uma melhora nos hábitos diários, como sono mais tranqüilo, alimentação mais equilibrada e atividade física. Medicamentos só devem ser utilizados se prescritos pelo médico.

Assim como a gravidez, a tensão pré-menstrual (TPM) também pode originar dor de cabeça. Segundo Ogeda, a causa ainda não esta totalmente elucidada mas é provavelmente hormonal. No entanto, a retenção de líquidos também colabora neste caso. “Por isso uma das orientações é a atividade física e a diminuição do sal na dieta”, recomenda.

Quando ir ao médico?

Mas a dor de cabeça também pode ser sinal de que algo não está bem. Quando o organismo está desidratado, a cefaleia aparece. Sinusites, meningites ou até problemas neurológicos graves podem ter como um primeiro alerta a dor na cabeça. Para saber quando procurar um médico e quando a dor pode ser controlada, os especialistas dão algumas dicas.

Procure um médico:
- Se a dor está mais intensa ou está mudando
- Se estiver acompanhada de febre
- Dor associada a sintomas de problemas neurológicos como dormência, visão dupla ou desvio da boca, por exemplo
- Quando a dor incomodar mais de duas vezes por semana

Não há necessidade de recorrer ao médico quando:
- A dor passa com relaxamento, banho morno ou descanso
- Já sabe que tem enxaqueca e está em tratamento médico
- A dor aparece com uma frequência inferior a duas vezes por semana

Analgésicos

A discussão sobre o uso ou não de analgésicos é intensa na comunidade médica. A principal crítica é a banalização da utilização desse medicamento, que pode ser facilmente adquirido e tem propagandas constantes nos meios de comunicação.

A primeira recomendação é ser avaliado corretamente por um profissional especializado no assunto que irá prescrever ou não o remédio correto. “É impossível ir ao médico e ser avaliado em menos de 45 minutos, porque para um bom diagnóstico é necessária uma boa investigação”, alerta o neurologista Abouch Krymchantowski.

“Quem tem enxaqueca tem deficiência em suas defesas contra a dor. O analgésico inibe seu sistema de defesa contra a dor, quanto mais você toma, mais inibe e mais dor você vai ter”, explica Carlos Bordini. A recomendação do neurologista é que se faça uso de medicação no máximo duas vezes por semana. Mais que isso, o ideal é procurar um profissional.