Técnica “repete” erro de cirurgia plástica e impulsiona denúncia. Saiba como evitar os riscos

O sorriso dos brasileiros está ameaçado pela má formação dos dentistas e também pela negligência na hora de realizar procedimentos como implante, próteses e colocação de aparelhos ortodônticos.

É preciso critério na escolha do dentista
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É preciso critério na escolha do dentista
Dados do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp) mostram que no ano passado foi registrado recorde de denúncias contra profissionais da área. Os implantes dentários, que caíram no gosto da população em substituição da dentadura, impulsionaram a alta nas queixas.

Na ausência de dados nacionais, o cenário paulista pode ser representativo de todo o território por concentrar a maior parte dos dentistas brasileiros (quase 60%) e  também por possuir um sistema de notificação estruturado.

Os erros encontrados hoje nos implantes, por comparação, repetem os já disseminados pela cirurgia plástica: envolvem escolha de um profissional não especializado na técnica; banalização do uso do procedimento para casos não indicados; propaganda enganosa que promete resultados inatingíveis; oferta do implante por preços muito baratos em clínicas sem aval da vigilância sanitária.

Para Cristian Alexandre Corrêa, cirurgião dentista especializado em implantes, a impressão é que “alguns locais fazem o procedimento no estilo linha de montagem”. “Em especial os consócios de implante dentário consideram a boca dos pacientes como se fosse uma indústria de carros”, diz ele que em seu consultório, quase toda semana, recebe pacientes com implantes malfeitos, grudados, tortos. “Ontem mesmo chegou uma mulher com 25 implantes na boca, todos desalinhados, quando no máximo dez seriam suficientes”, completa. Cada implante pode custar entre R$ 1000 e R$ 3000.

Consequências incalculáveis

“Desde 2004, o número de reclamações recebidas anualmente por nós oscilava entre 150 e 210”, afirmou Marco Antônio Manfredini, conselheiro do Crosp e presidente da comissão responsável pela área. “No ano passado tivemos o maior registro. Foram 266 denúncias, divididas entre queixas contra erros de profissionais, clínicas clandestinas e publicidade irregular.”

A quantidade de notificações serve apenas como uma referência do problema. Só entra na conta as pessoas que procuraram um canal de denúncia. Segundo Manfredini, os implantes dentários foram os que mais ganharam espaço no total das notificações. Hoje, de cada dez denúncias, três são sobre a técnica que, quando bem feita, traz de volta à autoestima, a melhor capacidade de mastigar os alimentos e uma boca saudável. O inverso, alertam os especialistas, fere exatamente os três pontos citados.

“Quando você falha na saúde, as consequências são incalculáveis. O individuo que não está preparado para realizar um implante, pode acarretar mutilações e até a morte do paciente”, avalia Newton de Carvalho, presidente da ABO e especialista em implantodontia em Minas Gerais. “O prejuízo estético é o menor deles.”

Estética X saúde

Acreditar que o implante dentário, um procedimento cirúrgico, é uma técnica exclusivamente estética é o primeiro erro, avalia o presidente da Associação Brasileira de Odontologia. “Costumo comparar. A mulher que teve um câncer de mama e faz reconstrução mamária não é submetida a uma cirurgia estética e, sim, a um procedimento reparador. É assim que o implante deve ser encarado”, acredita Newton de Carvalho.

A orientação é que o procedimento seja o último na escala de opções. Se o dente já não existir mais ou tiver em vias de cair aí, sim, a técnica é indicada. Não há nenhuma contraindicação ao implante com relação à idade. Por isso, os idosos - cada vez mais numerosos na população conforme contabiliza o Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) – estão entre os principais beneficiados da técnica.

A falta de dentição na terceira idade, mostra pesquisa nacional da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), do Rio Grande do Sul, interfere muito na alimentação. Foram analisados 5.124 idosos de todo País e quase metade deles (49,7%) tinha dificuldade de mastigar, a maioria por falta de dentição. São eles que podem ser atraídos às clínicas com profissionais não gabaritados, muitas vezes em busca dos preços muito baratos ou facilidades de pagamento.

Muitos cursos, pouca qualidade

O excesso de cursos de odontologia prejudica a qualidade do ensino
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O excesso de cursos de odontologia prejudica a qualidade do ensino
O aumento de denúncias contra dentistas é creditado à má formação que os estudantes recebem na faculdade. O Conselho Federal de Odontologia acredita em uma “proliferação” de aberturas de novos cursos que acarretou prejuízos no ensino. Segundo Rubens Corte Leal, vice-reitor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo e membro do CFO, os alunos chegam cada vez mais despreparados e não há uma disponibilidade de um corpo docente de qualidade para atender a nova demanda de faculdades. Em tradução, isso indica que cada vez mais profissionais são lançados no mercado sem capacidade mínima para atender de forma adequada a população.

Desde o ano passado, há um movimento conjunto entre os conselhos de classe e Associação nacional de odontologia para que o Ministério da Educação - responsável pela abertura e fiscalização dos cursos – barre novas faculdades e faça um “pente fino” na qualidade dos já existentes.

"O ensino de má qualidade pode repercurtir no aumento de casos mal sucedidos. Porém um maior número de profissionais no mercado possibilitou acesso a um maior número de pacientes ao serviço odontológico o que pode gerar maior incidência de denúncias devido a um maior número de procedimentos realizados", pondera o vice-reitor da USP ao completar que os conselhos regionais de odontologia não registraram um aumento  proporcional (de denúncias) ao número de vagas disponíveis nos cursos de odontologia.

O MEC informou que todos os cursos estão passando por avaliação “na medida em que passam pelo processo de renovação de reconhecimento”, ou seja, avaliações periódicas. Mas ainda não há um plano específico para a grade de odontologia.


Saiba quais são os cuidados antes e depois do implante

- Escolha o profissional com critério. Veja as referências com outros pacientes e se o dentista tem registro no conselho regional de odontologia

- Dê preferência aos dentistas com especialização em implante

- Certifique-se que a clínica tem licença da vigilância sanitária. Observe a higiene com os materiais e também descarte de produtos

- Desconfie do profissional que orientar a retirada de dentes, inclusive os sadios, para a colocação de implante geral

- Desconfie ainda de preços muito baratos e de promoções ao estilo “traga um amigo e ganhe o tratamento”. Não acredite em locais em que você chega e o dentista já quer operar no mesmo dia

- Se tiver dúvidas, procure uma segunda opinião

 - Pergunte ao dentista sobre possíveis contraindicações do implante. Em hemofílicos, por exemplo, nem sempre é possível a realização

- Pessoas com pressão muito alta, diabetes descontrolado ou com doenças que impediriam qualquer cirurgia precisam esperar a saúde estabilizar para realizar o implante

- Após o implante, os cuidados com a saúde bucal são iguais. Escove normalmente, passe o fio dental e visite o dentista a cada seis meses. Em três meses, 1% dos implantes descolam. Por isso, todos são orientados a rever o procedimento após 90 dias

-Pessoas que fazem implante da boca inteira precisam de 72 horas para a recuperação. Um implante só ou dois não é necessário repouso

- O implante é indolor. Mas após a colocação algumas pessoas podem sentir incômodo para falar e engolir. O prazo de adaptação, entretanto, é curto

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