Mãe de Isabella é uma das que apresentam sintomas. Saiba como tratar

Anna Carolina de Oliveira: reviver o drama teria desencadeado sintomas de estresse pós-trauma
AE
Anna Carolina de Oliveira: reviver o drama teria desencadeado sintomas de estresse pós-trauma
Apesar de os homens serem maioria entre as vítimas de assassinatos, acidentes de carro e sequestros, são as mulheres que mais adoecem por causa da violência urbana, revela pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Em estudo feito com 2,5 mil pessoas, os pesquisadores constataram que elas são duas vezes maiores nas estatísticas do chamado estresse pós-traumático do que eles: 12,8% contra 5,3%.

Reviver os momentos do crime, bater de frente com as lembranças do episódio violento são exemplos de gatilhos para a manifestação deste quadro psíquico, que causa depressão, síndrome do pânico , isolamento social e até dores físicas.

Anna Carolina Oliveira, mãe de Isabella – menina assassinada em 2008 – tem apresentado sinais do estresse pós-traumático, como roer as unhas até sangrar e morder os lábios de forma repetitiva, conforme noticiou o iG .

Para ela, o julgamento do homicídio da filha – em andamento há três dias na cidade de São Paulo – pode ter despertado o transtorno depois do trauma da morte da garota. Para 26% da população que sofrem deste mesmo quadro, o “gatilho” pode ser qualquer coisa, desde uma fotografia até ler notícias justamente sobre o “caso Isabella”.

Rosaly Braga Campanini, psicopedagoga e pesquisadora do Programa de Atendimento às Vítimas de Violência da Unifesp, esclarece seis dúvidas sobre o estresse pós-traumático.

iG: O que desperta o estresse pós-traumático?
Rosaly: É um quadro psiquiátrico que pode ocorrer, ou não, após a pessoa (ou alguém próximo dela) vivenciar uma situação de extremo perigo, muito ameaçadora, que envolve morte, ameaça ou algum ferimento. Recordar constantemente a situação, ter sonhos muito aflitivos, lembrar com a mesma intensidade do momento da experiência são alguns sinais. Imediatamente após o fato violento, todo mundo tem uma reação aguda ao estresse que, em geral, desaparece com o tempo. Se o quadro é prolongado por mais de um mês, é o que consideramos o estresse pós-traumático.

iG: Existem gatilhos do estresse pó- traumático? Pode ser uma manifestação tardia?
Rosaly: Depois de muito tempo do fato ocorrido, uma notícia semelhante pode despertar os mesmos sintomas. Se a pessoa estiver muito fragilizada, vulnerável, os sintomas retornam. Em nosso ambulatório, isso foi muito evidente com o caso dos ataques do PCC (facção criminosa que entrou em conflito com a polícia e paralisou São Paulo por dois dias em 2006) e mais recentemente com a morte e o julgamento do caso Isabella. Episódios que envolvem um clamor público acabam despertando sintomas de estresse pós-traumático em quem nem conhece as vítimas.

iG: Por que as mulheres são mais vítimas de estresse pós-traumático?
Rosaly: As pesquisas apontam que as mulheres apresentam mais quadro de depressão também. As mulheres tendem a procurar mais ajuda, a entrar em contato com o sofrimento de forma mais intensa. O homem, culturalmente, precisa ser o forte, não pode demonstrar esses sinais, o que pode influenciar nas pesquisas. No nosso ambulatório tem bem mais mulheres, por exemplo. Mas quando há o quadro, a ajuda é necessária, independentemente do sexo, pois há interferência no trabalho, no casamento e na vida social.

iG: Existem sintomas físicos do estresse pós-traumático?
Rosaly: Sim, muitos deles. Em geral são suor, taquicardia, surtos de raiva, excitabilidade que acaba tendo uma repercussão fisiológica. O estresse é uma resposta fisiológica.

iG: Qual é o tratamento?
Rosaly: O tratamento para estresse pós-traumático é medicamento associado à psicoterapia, a melhor opção. Isso porque, o estresse pós-trauma é desencadeado por um fator externo, não são crises existenciais ou orgânicas. Por isso, a psicoterapia é essencial. Quanto mais cedo a família percebe e procurar ajuda muito mais efetiva e mais rápida será a resposta ao tratamento

iG: Ficar triste após o episódio violento é normal. Quando procurar ajuda?
Rosaly: As pessoas com relações familiares que funcionam como um bom suporte emocional, em geral, não desenvolvem o estresse pós-traumático. Mas, por vezes, nem a família e nem a pessoa se dá conta dos sintomas. Por isso, é importante os parentes estarem atentos: ficar muito isolado, não sair mais, não querer trabalhar, perder o ânimo para tudo é sinal de que a ajuda especializada é necessária. Achar que depende só da força de vontade do paciente é um erro.

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