Gravidez múltipla pós fertilização artifical pode aumentar risco para a mãe e para o bebê

A projeção de pesquisadores da Universidade de Perth, Austrália, publicada recentemente na Reproductive BioMedicine, é de que em 10 anos, o sexo terá como foco apenas a diversão. A procriação será “responsabilidade” da fertilização in vitro.

Já os especialistas brasileiros são unânimes no discurso: com a tecnologia disponível hoje, a reprodução assistida é exceção e não regra para quem quer engravidar. 

O polêmico argumento do pesquisador australiano John Yovich, de acordo com o jornal Daily News, é que os casais, em especial os com mais de 40 anos, vão confiar mais na fertilização artificial  (que será 100% segura) do que na reprodução humana quando quiserem engravidar. 

Somente 10% dos casais que procuram ajuda médica precisam da fertilização artificial
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Somente 10% dos casais que procuram ajuda médica precisam da fertilização artificial
Atualmente, este comportamento é considerado arriscado pela maior parte dos especialistas do País. O que existe é cautela com o excesso destes procedimentos, muitos sem necessidade médica comprovada. Outras pesquisas já associaram a reprodução assistida a um maior risco de morte materna e problemas ao bebê.

Nas principais clínicas do País, apenas um em cada nove casais que começam o tratamento para reverter a dificuldade de engravidar precisa, de fato, da fertilização in vitro para conseguir a gestação.

Os outros 85% poderiam resolver o problema apenas com tratamentos médicos mais simples e mais baratos além de, claro, fazer sexo.

O urologista do Hospital das Clínicas Jorge Hallack, especializado em infertilidade masculina, diz que hoje o Brasil vive “um excesso de bebês de proveta”. Em entrevista recente ao Delas, ele disse que muitos casais poderiam engravidar se namorasse mais e se o homem - e não apenas a mulher -fizesse exames de rotina para identificar alguma alteração que interfere na fertilidade (como varicocele e problemas hormonais).

Hallack não é o único a fazer coro para “deixar a fertilização in vitro” apenas aos casos que realmente necessitam. Edson Borges, diretor da clínica Fertillity, chama atenção para a importância dos fatores ambientais na fertilidade. “Fumo, álcool, obesidade ou magreza excessiva podem ser o que de fato compromete a fecundação”, diz. O ginecologista e obstetra José Bento também já alerta para a influência dos “fatores psicológicos” na dificuldade de engravidar .

Riscos e infrações

Se todos esses componentes forem “equacionados” antes da mulher correr para a reprodução assistida ela pode escapar de alguns riscos que fazem parte do processo.

Revisão de estudos nacionais e internacionais, publicada em 2007 na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, afirmou que a “literatura permite concluir que o maior problema (da reprodução assistida) de morbidade materna relaciona-se à ocorrência de maior número de gestações múltiplas, destacando-se em alguns estudos a maior freqüência de hipertensão induzida pela gravidez e diabetes gestacional”, completa ao destacar o “aumento considerável de complicações maternas, fetais e dos recém-nascidos”.

Este ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) contemplou a área da reprodução assistida em seu código de ética, com o objetivo de regularizar melhor o que acontece dentro das clínicas, evitar que os médicos escolham o sexo do bebê antes da fecundação (chamado de sexagem) e também não permitir que um número exagerado em embriões sejam colocados no óvulo das mulheres, o que culmina nas gestações múltiplas.

“É claro que nós não estamos dentro das clínicas e É uma área de difícil fiscalização mas, se forem pegos (os médicos), serão punidos”, afirmou o presidente do CFM, Roberto D’Ávila.

O brasileiro e a falta de sexo

Além de problemas solucionados sem ser por reprodução, como endometriose (no caso da mulher) e varicocele (no recorte masculino), os especialistas estão cada vez mais atentos no “peso” que a falta de qualidade na vida sexual tem na dificuldade de engravidar do casal.

A comparação dos resultados do Inquérito da Vida Sexual do brasileiro, feito pelo Ministério da Saúde, mostra que no intervalo de um ano cresceu o número de pessoas com mais de 18 anos que nos 12 meses anteriores à enquete não havia feito sexo uma única vez (este índice subiu de 18,6% para 21,4%).

Nos consultórios de terapeutas, chegam relatos de casais que ficaram em plena abstinência mais de dois anos. Existe ainda aqueles que têm relações a cada 15 dias, considerado muito pouco para quem tenta uma gravidez.

“O pior é que, como os assuntos sexo, vida sexual e qualidade da relação sexual dificilmente são abordados pelos médicos com suas pacientes, este problema passa batido e não ganha a atenção que merece”, afirma Gérson Lopes, um dos secretários da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

A terapeuta sexual do ProSex (Programa de sexualidade do Hospital das Clínicas), Glene Faria, diz que “a saúde sexual é parâmetro de qualidade de vida. E apesar de não existir um padrão de quantidade ideal de relações sexuais, quando há descompasso, o problema pode acarretar até o fim do casamento”, diz. “Se o homem ou a mulher não estiver satisfeito, vira motivo de discórdia e desconfiança. Nem todos encontram abertura para falar disso, o que é um erro”, ressalta Glene.

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