Interrogado pela polícia, fundador da empresa que produziu próteses de baixa qualidade não demonstrou preocupação com suas vítimas

Indiciado: Jean-Claude Mas, o fundador da PIP ao ser preso, en Six-Four, na região da Côte d'Azur francesa
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Indiciado: Jean-Claude Mas, o fundador da PIP ao ser preso, en Six-Four, na região da Côte d'Azur francesa
O francês Jean-Claude Mas, 72 anos, fundador da Poly Implant Protèse (PIP), é considerado um sedutor frio e calculista por quem o conhece ou conviveu com ele.

Entenda o caso das próteses francesas PIP

O homem que enganou as autoridades francesas para se transformar no pivô de um escândalo sanitário que expôs a fragilidade do sistema europeu de regulamentação de produtos médicos, nasceu na pequena cidade industrial de Tarbes, no sul da França e tem apenas o segundo grau técnico completo, segundo informações da revista francesa L’Express.

Filho de um casal de comerciantes locais, Mas trocou a condução do pequeno negócio familiar pela vida de representante. Vendeu vinho, embutidos, conhaque, aparelhos de esterilização e instrumentos odontológicos por diversas cidades francesas, até parar na farmacêutica Bristol-Myers Squibb, onde permaneceu por cerca de uma década.

Foi apenas em 1982 que Jean-Claude Mas, já quarentão, conheceu o cirurgião plástico francês Henri Arion – o criador dos primeiros implantes de silicone, nos anos 60 – por intermédio de Dominique Lucciardi, que mais tarde viria a ser sua companheira e mãe de seus dois filhos, Peggy e Nicolas.

Na época, Arion era dono da Simaplast. Ele produzia e vendia próteses de solução salina e estava mudando o nome da empresa para MAP. Pouco depois de conhecer Arion, Mas estava trabalhando com ele. Em 1991, com a morte do cirurgião, Mas resolveu partir para um voo solo e fundou a PIP na cidade de Seyne-sur-Mer. Era o começo de uma trajetória de sucesso, ganhos financeiros e muitas polêmicas.

Mas fazia de tudo na PIP. Segundo contaram à L’Express antigos funcionários da empresa, ele era uma pessoa controladora e não admitia ser contrariado. Sedutor, proativo e por vezes sem limites, em congressos de cirurgia plástica ele era evitado por muitos cirurgiões por defender de forma agressiva as qualidades dos implantes que produzia – e chamava carinhosamente de “bebês”.

Ao que tudo indica, a decisão de produzir implantes com um silicone de baixa qualidade, foi pura matemática: enquanto o gel de uso médico de fabricação norte-americana aprovado pelo FDA custava 35 euros o litro. Os “bebês” de Mas saíam da fábrica recheados com um gel contendo substâncias de uso industrial que custava cinco euros, ou seja, sete vezes menos do que o produto regulamentado.

Com um valor tão competitivo, as próteses PIP se espalharam rapidamente pela Europa e por diversos países do mundo. A Agência Francesa de Segurança Sanitária estima que a PIP produziu e vendeu 100 mil pares de implantes por ano durante quase 20 anos, antes que a fraude fosse descoberta, em março de 2010.

Nem mesmo o alerta da agência norte-americana de alimentos e medicamentos sobre a segurança dos implantes PIP, em 2000, foi suficiente para abalar o negócio da vida de Mas. Nesse período, os “bebês” fabricados em Seyne-sur-Mer foram implantados nos corpos de milhares de mulheres em países como Brasil, Venezuela, Argentina, Grã-Bretanha, Espanha, Itália e Austrália.

Além das próteses de mama, a PIP produziu implantes para homens – testículos, peitorais e glúteos – e vendeu o gel para rechear implantes fabricados por outras empresas em países como Alemanha, Holanda, República Tcheca, Suécia, Finlândia e Estônia. Segundo a agência de notícias Reuters, as investigações policiais mostraram que a empresa teria economizado aproximadamente 1,6 milhões de dólares em apenas um ano usando o silicone não aprovado.

Apesar do sucesso obtido com a venda das próteses, Mas declarou à polícia francesa em interrogatório posterior à sua prisão que seus ganhos mensais se limitam a 1.650 euros mensais.

“Apenas sobrevivo, não sou um homem de dinheiro”, teria dito no interrogatório.

As investigações, no entanto, já mostram que Mas registrou a maior parte de seu patrimônio em Luxemburgo, usando subterfúgios fiscais para escapar do fisco francês.

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Mas confirmou à Justiça que sabia o tempo todo que o silicone usado nos implantes PIP não era aprovado para uso médico. Ainda assim, saiu em defesa de seus “bebês” dizendo que as próteses são seguras, e que as mulheres que estão reclamando estariam apenas atrás de dinheiro.

“Estou chocada. Ele admitiu a fraude e não demonstrou remorso algum”, contou à reportagem do jornal Le Parisien a francesa Alexandra Blachere, líder de um grupo de vítimas das próteses PIP, que acompanhou o depoimento de Mas à Justiça francesa.

No final de janeiro Mas foi solto sob custódia após pagar uma fiança equivalente a 100 mil dólares. Ele responderá em liberdade pelas acusações de fraude e danos físicos. Enquanto o julgamento não chega (a data ainda não foi marcada) resta às vítimas da fraude trocar os implantes rompidos, buscar seus direitos na Justiça e torcer para que os danos causados pelos "bebês" de Mas em seus corpos não sejam tão nefastos quanto as atitudes de seu criador.

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