Mulheres são as mais afetadas por esse tipo de acidente, que pode até matar

Mulheres são as que mais sofrem com as quedas
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Mulheres são as que mais sofrem com as quedas
Segundo o último levantamento do Ministério da Saúde, cerca de 31 mil brasileiros acima dos 60 anos foram internados com complicações decorrentes de quedas.

Só no ano passado, o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou aproximadamente 81 milhões de reais com fraturas nessa faixa etária da população. E o número de idosos internados por esse motivo tem aumentado anualmente.

Do total, as mulheres são as mais atingidas, representando 67% dos casos. A aposentada Cleia Locatelli, 81 anos, já cansou de contar quantas vezes foi vítima de calçadas esburacadas. “Eu preciso andar mais devagar. Ás vezes necessito de um apoio, uma ajuda de alguém, senão caio. Até mesmo as guias mais altas são perigosas, eu não enxergo direito. Já fui parar no hospital algumas vezes”, relata.

As complicações advindas de uma queda vão desde fraturas mais comuns no punho, no fêmur (que pode prejudicar a capacidade de andar) e na coluna, até traumatismo crânio encefálico. “Mesmo caindo da própria altura, os vasos sanguíneos cerebrais do idoso são mais frágeis, podendo romper e gerar um sangramento cerebral. Nesses casos, pode até necessitar de cirurgia e deixar seqüelas importantes”, alerta André Jaime, geriatra e gerontólogo do Hospital São Luiz, em São Paulo. A incidência de fraturas é diretamente proporcional à idade e, quanto mais idoso, maior o risco de um problema grave.

Dados do Projeto Diretrizes, da Sociedade Médica Brasileira, demonstram que o total de ocorrências é maior a partir dos 85 anos, quando o número de casos é de 51%. De 65 a 74 anos, o número é de 32%, e na faixa etária de 75 a 84 anos é de 35%.

Envelhecer aumenta risco

Uma série de fatores externos ou inerentes ao envelhecimento contribui para o aumento do risco de quedas. A partir dos 30 anos, as pessoas começam a perder massa muscular e força a uma taxa de 1% ao ano. Aos 75 anos, por exemplo, idade do ator Renato Aragão - que sofreu uma queda durante as gravações de um programa – um indivíduo tem 45% menos massa muscular. Rubens Rodrigues, ortopedista do Instituto de Ortopedia e Traumatologia de São Paulo (IOT-SP), alerta: o idoso não tem o mesmo controle da musculatura como na juventude, nem o mesmo equilíbrio e força muscular.

Habilidades como equilíbrio, agilidade, acuidade visual e auditiva também vão sendo reduzidas com o envelhecimento. Doenças articulares – artroses, hérnias de disco e bicos de papagaio – são mais incidentes nessa população e trazem limitações que também favorecem quedas, assim como a osteoporose. “Se um jovem escorrega, ele rapidamente compensa o desequilíbrio, porque tem mais agilidade. Na hora de atravessar a rua, tem uma visão melhor e um caminhar mais rápido. No idoso, tudo isso precisa ser corrigido”, avalia André Jaime.

As alterações nutricionais também são fonte de preocupação. Nessa faixa etária, a mastigação é ruim, o apetite fica alterado e a ingestão de proteínas abaixo do esperado. O resultado é uma aceleração da perda de massa muscular, que gera redução de força e equilíbrio.

O uso de medicamentos também tem um impacto muito grande: quanto maior a quantidade consumida, maior o número de quedas. De acordo com o médico, o paciente tem risco aumentado de quedas se toma mais de um remédio por dia, sobretudo aqueles que agem na pressão arterial e no sistema nervoso central. Esses tipos de remédios são comumente prescritos para o controle da pressão arterial e também para evitar a depressão (antidepressivos) ou induzir o sono. “Quem toma remédio para dormir levanta em um estado de torpor acima do normal, o que facilita a queda”, afirma o ortopedista Rubens Rodrigues, do Instituto de Ortopedia de São Paulo. Eventualmente, quedas podem ser o primeiro sintoma de doenças graves como uma patologia óssea ou metabólica, tumor, ou ainda fase inicial do Parkinson.

Ambiente sem segurança

Além dos fatores inerentes ao passar dos anos, algumas situações no ambiente propiciam a queda dos idosos como a presença de tapetes no local de circulação, ausência de barras de suporte em corredores e banheiros, baixa aderência do piso e a utilização de sapato com solado de madeira.

A recomendação dos médicos é a adaptação dos ambientes para os idosos. “O espaço da bacia do banheiro deve ser maior, é preciso ter um banco dentro do box para que ele possa tomar banho sem correr riscos, senão como ele vai limpar os pés?”, questiona Rodrigues. “E tapete nem pensar! O idoso arrasta mais o pé, tropeça e cai”, conclui. A fisioterapeuta Deborah Supino, do Hospital das Clínicas de São Paulo, alerta para que familiares não protejam em excesso esses idosos. "É interessante estimula-lo a realizar algumas atividades físicas. Se ele ficar tolhido de tudo, acaba perdendo ainda mais tônus. " Ela ressalta também que é preciso acabar com o preconceito com relação a andadores e bengalas. "Se ele for indicado como um cuidado para prevenir a queda, é melhor usá-los do que lidar com as possíveis consequências."

O problema piora fora de casa. Shoppings, ruas, cinemas, teatros e transportes coletivos não estão suficientemente adaptados às necessidades especiais dos idosos. “Essa ainda não é uma realidade difundida na cidade. O idoso se depara com escadas e rampas íngremes, que nem sempre são as mais adequadas”, avalia o geriatra. O ortopedista Rubens Rodrigues concorda e acredita que as mudanças ainda estão concentradas no âmbito particular e longe do ideal.

Segundo o geriatra, para que a prevenção desses acidentes fosse mais eficaz, seria necessária uma série de ações rotineiras que pudessem identificar quais as principais deficiências de cada caso e trabalhar em cima delas. “Alguns têm problemas que podem ser tratados com nutricionista, outros com ortopedista, outros ainda com oftalmologista. O idoso precisa ser atendido por uma equipe multidisciplinar”, recomenda.

Dicas para evitar quedas:
- Deixar uma luz fraca acesa no quarto ou nas proximidades (para guiar o idoso se ele precisar levantar à noite)
- O chão da residência deve ser rugoso e não escorregadio
- Fazer exercícios físicos como caminhada ou musculação, sempre com orientação adequada
- O banheiro deve ter barras de apoio ao lado do assento sanitário e dentro do box
- A iluminação deve ser mais forte, adequada à capacidade de visão do idoso
- Escadas e rampas devem ser evitadas
- Sapatos com solado de madeira devem ser trocados por solados de borracha
- Consultar o médico a cada seis meses
- Usar bengala ou andador se for necessário


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