Depoimento de Juliana Fincatti Santoto, advogada que teve câncer de mama e congelou óvulos para tentar preservara a fertilidade

Em meados de julho de 2004, quando eu estava com 26 anos, foi diagnosticado câncer em minha mama esquerda, um tumor de aproximadamente 5 centímetros. Fui a vários médicos, ouvi mais de três opiniões de oncologistas e de mastologistas e ninguém me advertiu sobre as sequelas do tratamento, em especial sobre os riscos para minha fertilidade.

Toda a família ficou sabendo do diagnóstico e, em uma conversa com a minha cunhada, que mora nos Estados Unidos, ela me chamou atenção sobre o congelamento de óvulos, pois lá nos EUA era muito difundido, todo mundo fazia antes da quimioterapia, que ela lia em revistas e etc.

Outro aspecto que me preocupou era que na minha família havia histórico de menopausa precoce e, depois de pesquisar, constatei que a quimioterapia poderia induzir a uma menopausa precoce. Ou seja isto tinha grandes chances de acontecer no meu caso, dado o meu histórico familiar.

A família toda do meu marido (que então era noivo, ele me pediu em casamento na véspera do resultado da biopsia!) é de médicos. Foi quando meu outro cunhado, oftalmologista, me falou da Dra. Ana Lucia Beltrame, sua colega de faculdade que trabalhava na área de reprodução humana. A Dra. Ana Lucia à época trabalhava em uma clínica e acabava de trazer a técnica do exterior. O procedimento na época era muito caro, mas consegui fazer um acordo de só custear as medicações. Era o melhor investimento que eu poderia fazer para o meu futuro. Só que eu precisava da autorização dos meus médicos (mastologista e oncologista).

A opinião médica

Fui a uma primeira consulta com um oncologista muito conceituado, toda sua formação acadêmica havia sido no exterior. Perguntei a ele sobre a chance de ficar estéril e o médico ficou bastante irritado! Disse a ele que tinha a possibilidade do congelamento de óvulos, mas que isso teria que ser feito antes da quimioterapia. Ele me respondeu que eu não eu tinha tempo para isso, que eu poderia morrer em breve. Saí do consultório sem chão, com a sensação de que teria que escolher entre a possibilidade de ser mãe e viver... Que sentido faria sobreviver à doença e não poder ser mãe, ou pelo menos ter essa possibilidade? Troquei de médico naquele dia!

Consultei outros médicos e o segundo mastologista me incentivou a fazer o congelamento, então decidi: "este é o meu médico, é ele quem vai me operar!" Meu oncologista também autorizou a realização do tratamento, só que ambos determinaram que primeiro eu seria submetida à mastectomia e, no pós operatório e antes do início da quimioterapia, poderia realizar a preservação de fertilidade.

Como a cirurgia foi muito agressiva (eu dormi três meses numa cadeira, porque a mastectomia e a reconstrução mamaria foram feitos na mesma cirurgia), certamente isso afetou o meu ciclo mestrual/ovulatório. Mesmo com toda a estimulação ovariana consegui apenas um óvulo para congelar. A Dra. Ana então sugeriu tentarmos mais uma vez e, com autorização dos meus demais médicos, realizamos mais um ciclo de tratamento e mais um óvulo foi congelado.

Os planos

Hoje estou casada e o que mais penso neste momento é ser mãe. O câncer de mama, em especial, ataca todos os símbolos da feminilidade: mama, cabelos e fertilidade. Sinto-me privilegiada por ter tido acesso a esse tratamento no momento certo, quando mais precisava, e tudo aconteceu por acaso.

Se conseguirei ou não engravidar com os meus dois óvulos congelados é uma incógnita, mas pelo menos estou satisfeita porque fiz tudo o que estava ao meu alcance e não fui obrigada a tomar uma decisão seríssima no momento mais frágil da minha vida. O congelamento dos óvulos me deixou tranqüila para ir para a quimioterapia com a sensação de missão cumprida e pronta para o que der e vier.

A mama, a cirurgia reparadora reconstrói. Os cabelos renascem, mas e a fertilidade? Hoje eu e meu marido nos candidatamos a adotar uma criança, mas isso já queríamos fazer antes de tudo. E aquelas mulheres que jamais pensaram ou não querem adotar? Quando acaba o turbilhão do tratamento oncólogico, elas têm que aceitar a idéia da adoção, porque até então não haveria outra saída...

No meu caso, realmente precisei do tratamento de preservação de fertilidade para garantir minha fertilidade para o futuro, por questões de saúde. Por tudo isso penso que o tratamento de preservação da fertilidade constitui um avanço extraordinário, em que a evolução das técnicas de reprodução humana evidencia uma medicina que se dedica não só a salvar vidas, mas também a proporcionar a plena realização do paciente enquanto ser humano.

Por essas razoes é que hoje reconheço que tive um tratamento realmente holístico, completo, porque de nada adiantaria ter excelentes mastologistas e oncologistas, pensando e trabalhando pela minha sobrevivência ao câncer, sem depois poder ter um futuro digno e pleno, enquanto mulher.

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