Saiba diferenciar entre o hobby saudável e um comportamento compulsivo

Coleção: hobby vira doença quando os gastos e o espaço ocupado são exagerados e o ato de colecionar domina a vida da pessoa
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Coleção: hobby vira doença quando os gastos e o espaço ocupado são exagerados e o ato de colecionar domina a vida da pessoa
Marília Gabriela é dona de um arsenal de óculos, já Luisa Mell coleciona copos de licor de várias partes do mundo e Adriane Galisteu é apaixonada por biquínis – tem mais de mil peças no guarda-roupas. Assim como as apresentadoras, muita gente sente prazer em gastar parte de seu tempo atrás de determinado artefato para compor uma coleção, prática que pode ser considerada um hobby.

Para uma pequena parcela, no entanto, o hábito de acumular coisas está longe de ser saudável, ganhando contornos de compulsão. Nesses casos, a pessoa não tem um foco definido, ou seja, guarda qualquer tipo de item (revistas, jornais, aparelhos quebrados, roupas velhas, etc), geralmente pensando em sua futura utilidade. Além disso, dá uma importância exagerada ao conjunto de objetos, o que traz conseqüências negativas ao dia a dia.

De acordo com o psicólogo e psicoterapeuta Tonio Dorrenbach Luna, do Conselho Regional de Psicologia do Paraná, entre os problemas causados por essa mania estão o gasto excessivo de dinheiro para manter o acervo, o isolamento social e a presença de um monte de tralhas em diversos espaços da casa.

Sinal de alerta

Quando as tentativas de se livrar do hábito não dão certo e a situação provoca angústia e sofrimento, há grandes chances de que o quadro faça parte dos sintomas que caracterizam o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o famoso TOC.

“Os portadores costumam apresentar uma combinação de pensamentos obsessivos e atos compulsivos”, descreve Daniel Philippi de Negreiros, médico psiquiatra de Florianópolis (SC).

Ainda segundo o especialista, a manifestação da doença pode acontecer de várias maneiras. É possível, por exemplo, que os pensamentos gerem ações compulsivas relacionadas à mania de limpeza (muitas vezes a pessoa lava tanto as mãos que chega a causar feridas na pele) ou, conforme apontado anteriormente, à prática do colecionismo.

“A família acaba sofrendo junto com o indivíduo tanto por vê-lo aflito com as conseqüências de seu comportamento”, afirma. Vale lembrar, porém, que nem sempre a mania está ligada ao TOC. Sendo assim, é necessário chegar a um diagnóstico antes de tomar providências.

Apoio familiar

No caso do transtorno, são várias as causas que podem levar ao hábito de acumular objetos compulsivamente. “Entre elas destaca-se o fato de que o item simboliza alguma experiência emocional e, por isso, se livrar dele causará desconforto”, informa o psicólogo Tonio Luna.

Apesar de ser difícil viver em meio a um verdadeiro depósito, é importante que os familiares entendam que se trata de uma doença e que o próprio portador sente vergonha de seu comportamento.

“Por isso, a família deve procurar orientação especializada antes de enfrentar alguém que tem TOC. Quando há o colecionismo, jogar fora os objetos do paciente será interpretado como agressão pessoal e maldade”, diz o psicólogo Olavo Feijó, do Rio de Janeiro (RJ).

Caso o diagnóstico realmente aponte para o Transtorno Obsessivo-Compulsivo o tratamento indicado é composto por remédios e psicoterapia. “Os medicamentos usados são os antidepressivos e ajudam a reduzir os sintomas”, diz Daniel Negreiros, psiquiatra de Florianópolis. Já a psicoterapia, além de reforçar esse efeito, tem como objetivo proporcionar suporte emocional, favorecendo o desenvolvimento de recursos internos para lidar com as dificuldades causadas pelo transtorno.

Síndrome de Diógenes

O armazenamento de muitos objetos inúteis é um dos principais indicadores de que uma pessoa sofre dessa síndrome, descrita pela primeira vez em 1975. No entanto, não é o único.

“A doença atinge principalmente idosos, sendo que esses costumam viver em precárias situações de higiene e isolamento, recusando o contato com outras pessoas ou a ajuda de entidades assistenciais”, esclarece Negreiros.

O nome dado ao quadro foi inspirado justamente nesse sintoma de reclusão, já que se trata de uma homenagem ao filósofo grego Diógenes Sínope, que vivia dentro de um barril.

Para se ter uma ideia de como a doença é observada na prática, em maio desse ano a Subprefeitura do Itaim Paulista, bairro de São Paulo, retirou 3,7 toneladas de lixo e entulhos da casa de uma senhora. Para realizar a limpeza foram necessários dois caminhões e a ajuda de 12 homens.

Nesse mesmo mês, em Chicago, nos EUA, um casal de idosos foi encontrado soterrado pelo lixo que acumulava na residência onde viviam. Segundo informações da BBC Brasil, a situação era tão crítica que os bombeiros precisaram usar roupas especiais para entrar no local.

A curiosa síndrome, que ainda é tema de muitos estudos, pode estar associada à demência, ao TOC ou a outras doenças psiquiátricas – em alguns casos ela não tem relação com nenhum transtorno específico.

“Portanto, para diferenciar os casos patológicos é necessário levar em conta outros aspectos que vão além do ato de colecionar, como o sofrimento do paciente, déficit cognitivo, prejuízos sociais, entre outros”, finaliza Negreiros.

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