Unidade pública de internação está com 46,4% dos leitos desocupados por falta de procura

O uso envergonhado de drogas pelas mulheres resultou em um vazio em uma das mais importantes unidades de tratamento femininas de São Paulo. A clínica pública Lacan, mantida pela Unifesp, o Hospital Lacan e o Grupo de Saúde Bandeirantes, tem 28 leitos disponíveis para internações de dependentes exclusivamente femininas, mas 13 deles estão vazios. O índice de sobra é de 46,4%.

“Inauguramos este serviço em novembro, pois sabemos da necessidade e importância do atendimento focado e exclusivo para mulheres”, afirma a médica Alessandra Dihel, coordenadora do espaço médico.

“Mas a dificuldade em atrair pacientes nos surpreendeu. A internação é voluntária e as mulheres, simplesmente, não vêm. Na unidade masculina são filas e filas de espera.”

A ausência das pacientes em um espaço que, tradicionalmente, estaria com superlotação não significa falta de demanda. As estatísticas oficiais, inclusive, apontam tendência inversa. Todas as réguas que medem o uso de álcool e drogas pelas mulheres apresentam tendência de aumento, em qualquer faixa etária.

As jovens estão usando mais cocaína e crack, conforme apontou levantamento feito pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, em uma escalada de 28% em dois anos. As mulheres de meia idade, em um intervalo de um ano, ampliaram 7,2% a participação nas estatísticas de internações por uso abusivo de álcool, conforme mostrou levantamento feito pelo Delas . Três em cada 100 idosas do País são dependentes de alguma substância psicoativa, diz pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP).

“Estamos vendo na prática que para garantir o acesso ao tratamento destas mulheres temos de derrubar algumas barreiras importantes”, avalia Alessandra. “A primeira é o preconceito. Elas usam drogas de forma escondida e tem pouca interferência da família e dos amigos. A segunda é o próprio papel de cuidadora da mulher. Mesmo no auge da dependência, ela cuida dos filhos e da família. Quem ficará responsável por eles quando elas decidirem que é hora de tratar de si?”, pergunta a especialista.

Relatos

Patrícia, 31 anos, e Mara, 53 anos, sentiram o gosto da dependência por meio de drogas diferentes, em situações completamente distintas mas servem para elucidar a dificuldade feminina em chegar ao tratamento especializado. A mais jovem traz à tona as fragilidades em torno da sexualidade da mulher. A mais velha, as responsabilidades domésticas que dificultaram colocar a própria saúde em primeiro lugar.

O crack, misturado à maconha, cruzou o caminho de Patrícia há dez anos e, na ponta da língua, ela responde porque os amigos não alertaram sobre o seu vício durante a década que passou fumando diariamente.

“Quando você usa droga, as pessoas próximas também usam ou se aproveitam disso. No caso das mulheres, existe algo muito cruel. Ninguém vai querer que ela pare de usar, porque é mais fácil conseguir sexo com ela quando ela não está sóbria. Se ela estiver na fissura, vai trocar seu corpo por um pouco de droga. Esta submissão é aproveitada por todos”, conta a jovem, em tratamento há 15 dias que já sente os sabores de outra forma.

“Lasanha e chocolate nunca me agradaram tanto como agora. Voltei a ter prazer em comer.”

Mara – no dia do encontro com a reportagem ela estava sem beber há somente 26 horas – ficou três anos bebendo, em média, oito copos de cachaça diariamente e ainda que desconfiasse que precisava de ajuda não imaginava quem poderia ocupar o seu lugar.

“Meu marido ficou paraplégico há quatro anos. Depende de mim para tudo. Sou eu quem sustento a casa, faço a comida para os meus filhos. Estou aqui (na clínica) porque sei que preciso, mas não imagino como as coisas vão ficar em casa”, disse.

Primeiro passo

A maneira mais ampla de olhar a dependência feminina pode ajudar os especialistas a atrair as mulheres para o tratamento. O déficit de unidades especializadas, para homens e mulheres, virou uma bandeira nacional e política de saúde pública com o plano nacional de enfrentamento ao crack lançado pela presidente Dilma Roussef. O ministro da saúde, Alexandre Padilha, já afirmou que não apenas o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ampliar a oferta de serviços, como também a rede privada, já que o problema com as drogas afeta a todas as classe sociais.

Serviço

Para fazer tratamento na clínica de São Paulo, que fica em São Bernardo do Campo, é preciso morar no Estado, ter mais de 18 anos e ser do sexo feminino. Mais informações no telefone (11) 4353-5436

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