Desde 2006 não são registrados novos casos de câncer de colo do útero em índias do Xingu

Indígena do Xingu acompanha a explicação sobre como é o corpo feminino
Divulgação
Indígena do Xingu acompanha a explicação sobre como é o corpo feminino
Um trabalho de prevenção do câncer de colo do útero – um dos principais problemas de saúde que acometem as brasileiras – tem mostrado excelentes resultados: desde 2006, nenhum caso da doença foi diagnosticado entre a população feminina do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso.

A iniciativa começou há 46 anos e hoje vem sendo realizada em parceria com o Núcleo de Prevenção de Doenças Ginecológicas (Nuprev), do Departamento de Ginecologia da EPM/Unifesp.

Anualmente, o departamento encaminha profissionais para trabalharem com a equipe do Projeto Xingu nas aldeias, realizando exames ginecológicos específicos para diagnóstico de lesões no colo do útero ( colposcopia ) e tratamento com cirurgias ambulatoriais.

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"Com o aumento dos casos de câncer de colo do útero e suas lesões precursoras nas mulheres do Xingu, esta estratégia possibilitou maior acesso ao exame especializado com profissional qualificado, tratamento e seguimento em 100 % dos casos", explica a enfermeira Érica Ribeiro Pereira, coordenadora técnica do Ambulatório do Índio da Unifesp e responsável pelo Programa de Saúde da Mulher no Projeto Xingu.

"Somente os casos que necessitam de procedimento cirúrgico mais invasivo são encaminhados para tratamento hospitalar".

Uma análise da prevenção do câncer de colo do útero desenvolvido no Xingu no período de 2005 a 2006, apresentado por Érica, como tese de doutorado, mostra que a cobertura do exame preventivo da doença aumentou de 50% para 99,6%. A população alvo do estudo foram mulheres com idade acima de 12 anos e história de vida sexual ativa ou pregressa.

Outro dado importante encontrado foi a redução na ocorrência de anormalidades nos exames de 11,7%, em 2005, para 6,0%, em 2007. "O rastreamento do câncer do colo do útero no Xingu era realizado desde 2000, mas ainda não havia um programa de prevenção organizado, que garantisse a coleta dos exames e os outros procedimentos especializados".

Encontro de mulheres no Xingu onde especialistas levaram informações sobre DSTs e câncer de colo do útero
Erica Ribeiro Pereira
Encontro de mulheres no Xingu onde especialistas levaram informações sobre DSTs e câncer de colo do útero
A intensificação do contato desta população com as cidades localizadas no entorno do Parque Indígena do Xingu tem facilitado e contribuído para aumentar a presença de doenças infecto-contagiosas como o papilomavírus humano (HPV) nas comunidades indígenas.

Além da infecção pelo HPV, as mulheres indígenas do Brasil estão expostas a vários fatores de risco para o câncer do colo do útero como multiplicidade de parceiros sexuais, infecções sexualmente transmitidas e idade precoce na primeira relação sexual, entre outros. O pouco acesso a prevenção e tratamento também contribuem para aumentar o risco destas mulheres em desenvolver esse tipo de câncer .

A presença do HPV na população feminina do Xingu tem sido evidenciada e provavelmente está envolvida com o aumento dos casos de câncer do colo do útero e suas lesões precursoras.

"Outro estudo que estamos desenvolvendo com as mulheres do Xingu é a identificação do HPV de alto risco oncogênico", afirma Érica. "Por meio dele será possível identificar a prevalência dessa infecção nesta população e propor estratégias, junto aos órgãos públicos, para a importância de disponibilizarmos a prevenção primária por meio das vacinas nesta população considerada vulnerável".

Segundo a pesquisadora, os trabalhadores em saúde, em especial, os profissionais de enfermagem, têm papel crucial nas ações de prevenção e diagnóstico da doença. Na saúde indígena, estes profissionais compõem o maior número, sendo a maioria do sexo feminino, o que facilita a aceitação do exame preventivo.

"Melhorar as medidas preventivas e advogar para disponibilizar a imunização contra o HPV no calendário vacinal indígena é prioritário", afirma.

"Não podemos esquecer que as universidades também têm papel fundamental para a expansão do trabalho de prevenção e assistência às populações especiais, como as indígenas, e que experiências como esta podem ser aplicadas em outras realidades".

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