Pesquisa atesta que gases tóxicos interferem na qualidade do sêmen

Níveis alarmantes de poluição ocorrem em diversas capitais brasileiras
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Níveis alarmantes de poluição ocorrem em diversas capitais brasileiras
A pergunta “por que não consigo ter filhos?” pode ter como resposta a poluição. Pesquisa inédita realizada pelo Hospital das Clínicas e pelo Laboratório de Poluição da USP mostrou que os gases tóxicos, emitidos principalmente por veículos, interferem no sistema reprodutivo dos homens e diminuem as chances de procriação do casal.

O estudo, ainda em andamento, é conduzido por Jorge Hallak, coordenador da unidade de Toxicologia Reprodutiva e de Andrologia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Com os primeiros dados em mãos, Hallak e sua equipe trouxeram os poluentes para a lista de problemas – já composta por cigarro, álcool e drogas – que mais interferem na qualidade do sêmen (o líquido que sai do pênis durante a ejaculação).

Para chegar à conclusão sobre os danos, os pesquisadores analisaram 800 homens que foram divididos em três grupos: um deles infértil, outro formado por profissionais que passam longas horas expostos aos poluentes (motoristas de ônibus, táxi, agentes de tráfego), e um terceiro de homens que estavam prestes a passar pela cirurgia de vasectomia e, por isso, não apresentavam nenhuma queixa quanto à fertilidade.

“Encontramos nos homens que passavam longas horas expostos à poluição uma qualidade de sêmen inferior até mesmo do que a atestada entre os inférteis”, afirma Hallak.

As estatísticas mostram que 66,8% do grupo de profissionais que respiram muitos gases tóxicos tinham algum dano capaz de comprometer as chances de ter filhos. “Se, atrelados à exposição ao poluente existirem outros fatores como idade avançada da parceira, por exemplo, o impacto na fertilidade é ainda maior”, completa o pesquisador.

As taxas mundiais estimam que 15% dos homens sofrem com problemas relacionados à infertilidade. Com as informações obtidas neste estudo Hallak acredita ser possível delinear tratamentos mais eficazes. “Lembrando sempre que a reprodução assistida (artificial, popularmente chamada de proveta) deve ser a última opção, só adotada depois que todas as outras técnicas falharam”, completa.

Influência nas mulheres

Ainda não existem estudos brasileiros sobre a influência da poluição no sistema reprodutivo feminino. Os especialistas lembram, no entanto, que apesar dos ovários serem mais protegidos das ações do ambiente do que os testículos, outros órgãos das mulheres são fragilizados pelos gases tóxicos presentes na atmosfera.

Ubiratan de Paula, pneumologista do Instituto do Coração (Incor), já concluiu que em dias mais poluídos os casos de enfarte aumentam – o sangue fica mais espesso com os poluentes e aumenta a probabilidade de “panes”. Os acidentes vasculares cerebrais também acontecem em maior número, atestou a Sociedade Brasileira de Cardiologia, assim como os picos de problemas relacionados ao diabetes e doenças respiratórias – asma, bronquite e rinite.

Os níveis alarmantes de poluição, informou em 2008 o Laboratório de Poluição da USP, não são exclusivos de São Paulo. Em parceria com universidades de todo País, o patologista Paulo Saldiva – coordenador da entidade – concluiu que além da capital paulista, Recife, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre estão no limite da emissão de poluentes. Em todas as cidades, os níveis de concentração de partículas finas (um dos gases mais nocivos) estavam acima do preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O limite estabelecido pela OMS é de 10 mg/m3. Em Recife, foi o menor índice (13 mg/m3) e o maior em SP, 30 mg/m3.

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