Há 4 anos, a médica Albertina sofreu um acidente e foi avó. As duas experiências transformaram sua vida

Albertina Duarte, a médica de todas as mulheres
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Albertina Duarte, a médica de todas as mulheres
Albertina Duarte, 66 anos, é ginecologista e desde que recebeu o diploma de medicina, em 1975, estuda o ser feminino. Com esta experiência, coloca em prática projetos preventivos contra a gravidez precoce, a violência de gênero e também outros sintomas da mulher moderna, como obesidade, infarto e hipertensão. Conheça o lado mais pessoal dessa importante figura da medicina.

Delas: A senhora tem reconhecimento profissional em todo País. Já ganhou inúmeros prêmios, está sempre em um novo desafio. A vida pessoal pagou caro por isso?

Albertina: Pagou uma fortuna. Tenho dois filhos e a minha mais velha disse, aos 8 anos, que queria ser dona de casa para ser mais presente e não deixar os filhos sozinhos. Chorei escondido por dias depois que ouvi isso.

Uma vez fui chamada na escola e a professora disse que eu dava mais atenção para a minha terceira filha, a tal da Med. Eu disse, como assim? Só tenho dois filhos. E ela respondeu que o caçula dizia: “Ah, se a Med deixar, eu vou viajar nas férias com a minha mãe. Se a Med deixar, minha mãe vai olhar a minha lição de casa... O caçula falava da medicina, apelidada por mim de Med, como se fosse uma integrante da família. Foi um tapa na cara dolorido.

Meu marido um dia não aguentou a pressão e foi embora. Ficamos separados um ano, sofri pra caramba e só voltamos às boas quando assumimos a inversão de papeis. Ele trabalharia meio período para cuidar dos meninos e da casa e eu continuaria com a minha jornada de 14 horas por dia, sem férias. Deu certo para o casamento, mas não aliviou a culpa. E percebi que a culpa existia em todas as mulheres com quem trabalhei. Sem-terra, prostitutas, mães, travestis, profissionais liberais, todas culpadas... elas adoecem por isso.

Leia aqui o perfil profissional de Albertina Duarte

Delas: E, olhando para trás, conseguiu encontrar o melhor tratamento para a culpa feminina, pelo menos para a sua culpa?
Albertina:
Há quatro anos, sofri um acidente e fui avó. As duas experiências foram transformadoras e fizeram eu me redescobrir mulher, de forma plena. Eu estava falando em dois celulares ao mesmo tempo, com uma paciente esperando na cadeira ginecológica desconfortável e com uma pilha de papeis para assinar em cima da mesa.

Fui tomar uma chuveirada, ainda falando nos telefones, antes de continuar o trabalho. Levei um tombo feio. O resultado foi uma fratura no fêmur e a indicação de ficar em repouso absoluto por seis meses. Na mesma semana, havia recebido a notícia de que seria avó pela primeira vez. Era o meu corpo pedindo uma pausa e a minha alma pedindo reflexão. Muita coisa mudou. E outras eu me resignei. Para ser feliz, jamais quero mudar algumas situações

Delas: Fale mais sobre o que mudou e o que não quer mudar.
Albertina:
O escorregão me mostrou que eu precisava emagrecer e eu não ligava para isso, achava que era uma imposição do corpo perfeito e tal. Mas se não perdesse peso, talvez não tivesse condições físicas de brincar com os meus netos, porque estava muito pesada. Comecei uma dieta e já perdi 23 quilos. Também fiquei com vontade de passar batom e maquiagem, coisas que negava por achar ser de mulherzinha.

Resolvi aprender a dançar também. Um professor vem ao consultório e me ensina os passos. Martinho da Vila, com a música Mulheres (já tive mulheres, de todas as cores...) é a minha preferida, renova as energias. Ao mesmo tempo, não saía sem salto alto e com roupas com ombreiras, para ganhar respeito em especial dos meus colegas homens. Ser avó me fez reencontrar a autoestima. Sinto que sou poderosa mesmo sendo tão pequenininha.

Delas: E o que decidiu não mudar?
Albertina:
A ideia de ficar em casa fazendo crochê e cuidando dos netos me feria demais. Então, reconheci - sem culpa - que adoro a falta de finais de semana e de trabalhar 14 horas por dia sem férias. Quinze dias após meu tombo, contrariando as prescrições clínicas e súplicas dos meus amigos, estava fazendo partos em cima da carreira de rodas. Mas, agora, mudo o trajeto, pego meus netos em casa para eles passarem duas horas comigo no caminho até o aeroporto e enquanto espero um avião para ir a um congresso. Tudo bem ser assim.

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