Médicos dizem que “solução” traz mais problemas do que vantagens

A dor ameaça a qualidade de vida de três em cada 10 pessoas e a maioria dos portadores deste problema crônico utiliza uma fórmula arriscada de conviver com as pontadas, formigamentos, choques e sensibilidades excessiva que agridem o corpo.

Pesquisa divulgada nesta quinta-feira (10/6) mostrou que a automedicação é uma das estratégias mais usadas pelos portadores de dor crônica (persistente por mais de três meses), hábito que pode mascarar doenças mais graves (como câncer), despertar outros problemas de saúde (úlcera, por exemplo) e ainda postergar a queixa de corpo dolorido.

Portadores de dor crônica recorrem à automedicação. Estratégia é arriscada, sengundo médicos
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Portadores de dor crônica recorrem à automedicação. Estratégia é arriscada, sengundo médicos
O inquérito para mapear como as pessoas lidam com este problema de saúde foi feito pela Faculdade de Saúde Pública, patrocinado pelo laboratório Janssen Cilag. Em questionário aplicado em 2.446 moradores da cidade de São Paulo foi possível calcular como as pessoas lidam com variados tipos de dor. De maneira geral, quando não recorrem aos xaropes, pomadas e comprimidos por conta própria, as pessoas simplesmente não utilizam estratégia nenhuma para lidar com as queixas.

Por partes

A dor de cabeça foi a que mais impulsionou a automedicação. Das pessoas que informaram conviver com ela há mais de três meses, metade afirmou que tenta corrigi-la com comprimidos “receitados” por amigos, familiares, conhecidos ou em propagandas.

No caso das dores nas costas, a taxa de automedicação foi de 13,7%, mas dos portadores 45,1% informaram não procurar o médico para tratar o problema. Mesmo cenário foi identificado em quem sofre de dores nas pernas: 7% recorrem a automedicação e 54,6% não fazem nada.

“As pessoas lidam com a dor como se ela devesse fazer parte de duas rotinas. Recorrem mais a automedicação quando o problema inviabiliza a locomoção, como foi o caso das pernas e costas. Mas de maneira geral quase nunca buscam o médico para tentar sanar o problema”, afirmou Maria Rosário Latorre, professora do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública e autora da pesquisa.

Maratonas da automedicação

O médico Rogério Teixeira da Silva, coordenador da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), diz que a automedicação para sanar a dor é um problema grave, presente, inclusive, entre os praticantes de atividades físicas que deveriam estar mais atentos à saúde.

Em estudo feito com 7 mil corredores do País, a SBOT identificou que 30,6% deles usavam de medicamentos por conta própria para aliviar as dores que sentiam em decorrência da corrida. “Hoje, é muito comum que nas maratonas, os organizadores ofereçam kits aos participantes, contento camiseta, boné e dois comprimidos antiinflamatórios, um erro absurdo”, afirmou Silva. “A automedicação foi incorporada no esporte. Um trabalho feito com os jogadores de futebol que participaram da Copa do Mundo passada (2006, na Alemanha) mostrou que um terço deles tomava remédio por conta própria antes de cada jogo.”

O alerta é que os medicamentos utilizados para combater a dor, além de causarem dependência, como é o caso da morfina, podem acarretar outros efeitos colaterais. Vale lembrar que em 2008, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restringiu a venda livre dos principais medicamentos da classe de antiinflamatórios (Vioxx, Prexige e Arcoxia) por agravarem problemas hepáticos e cardíacos.

Sem receita e sem experiência

A explicação para tantos casos de automedicação, segundo já pontuou Jaldo de Souza Santos, presidente do Conselho Federal de Farmácia, é cultural e também evidencia falhas dos farmacêuticos. “Não há cultura de pedir receita médica antes de dispensar os medicamentos nos balcões das farmácias”, ponderou.

Além disso, no caso da dor, ressaltou a especialista Maria Rosário Latorre, há uma dificuldades dos médicos de lidarem com este tipo de queixa apresentada pelos pacientes. Para sanar isso, a Sociedade de Ortopedia colocou em prática uma campanha para sensibilizar, capacitar e auxiliar os profissionais da área para identificarem pacientes com dor, tratarem a origem do problema e evitar que os casos se agravem. “Hoje, 80% dos pacientes que chegam aos médicos reportam alguma dor. Dos que são submetidos a cirurgias ortopédicas, 15% desenvolvem dor crônica por causa dos procedimentos realizados durante a operação. Precisamos dar atenção a isso.”

Deprimidos, ansiosos e mal humorados

Além dos sinais físicos, a dor compromete psicologicamente. “No nosso trabalho de mapear a dor, percebemos que os portadores da dor crônica têm uma série de transtornos associados, como depressão, ansiedade e tensão. Só não conseguimos diagnosticar o que veio primeiro: a dor ou o impacto psicológico.”

Em e-mail enviado ao Delas , uma leitora evidenciou a relação com seu estado emocional e hormonal. Ela convive com fortes dores nas costas, agravadas sempre durante a tensão pré menstrual (TPM). “Agora em janeiro, estou com o corpo inteiro dolorido. Eu não tenho filhos, não tenho marido, trabalho das 9 às 18 horas, num ambiente burocrático. Desde criança sou nervosa”, escreveu ela, que começou a sentir as dores aos 12 anos de idade.

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