Estudo norte-americano apontou algumas razões pelas quais a prática está tão disseminada

Um novo estudo sugere várias razões para o aumento no índice de cesariana feitas nos Estados Unidos, incluindo: maior uso de drogas para induzir o trabalho de parto, a tendência de desistir do parto cedo demais e realizar partos cirurgicamente, em vez de esperar que a natureza siga seu curso, além de não deixar que mulheres que realizaram cesarianas anteriormente tentem dar à luz por parto normal.

Trinta e dois por cento de todos os partos realizados nos Estados Unidos – quase um em cada três – ocorrem hoje por cesariana. As operações vêm aumentando constantemente desde 1996, quebrando recordes ano após ano, e se tornaram a cirurgia mais comum nos hospitais americanos. Cerca de 1,4 milhões de cesarianas foram realizadas em 2007, o último ano para o qual existem dados disponíveis. Esse aumento gera discussões e preocupações.

Parto normal: estudo apontou que médicos desistem muito cedo da opção mais natural e segura
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Parto normal: estudo apontou que médicos desistem muito cedo da opção mais natural e segura
A preocupação surge porque as cesarianas representam um risco de complicações cirúrgicas – pesquisas descobriram que o procedimento tem probabilidade maior que partos normais de causar problemas que podem levar a mãe de volta ao hospital e deixar o bebê na unidade de tratamento intensivo. Os riscos à mãe também aumentam a cada cesariana subsequente, pois ela amplia as chances de ruptura do útero na gravidez seguinte, o que pode causar sérios danos, tanto à mãe quanto ao bebê.

As cesarianas também aumentam o risco de anormalidades perigosas na placenta durante a fase avançada da gravidez, o que pode causar hemorragia e levar à histerectomia (remoção do útero). Cesarianas repetidas podem dificultar as chances ou até impossibilitar a constituição de uma prole numerosa. Além disso, os custos de uma cesariana são quase o dobro dos custos de um parto normal.

A maioria das mulheres que passaram por uma ou até duas cesarianas podem pelo menos tentar ter parto normal. Estudos descobriram que 60% a 80% delas têm sucesso. Porém, o parto normal depois de cesariana é cada vez menos comum.

Preocupações com o crescente índice de cesarianas levaram os Institutos Nacionais de Saúde a formar uma Associação de Parto Seguro, que realizou uma análise detalhada de registros eletrônicos de 228.668 partos em 19 hospitais nos Estados Unidos, de 2002 a 2008. O estudo é o primeiro a analisar com que frequência a cesariana era realizada antes que as mulheres entrassem em trabalho de parto (mais da metade das vezes) e depois do início do trabalho de parto.

Os resultados foram publicados online no Jornal de Ginecologia e Obstetrícia e descritos numa breve entrevista telefônica feita com os dois dos autores, o Dr. Jun Zhang e a Dra. S. Katherine Laughon, do Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development.

Zhang contou que um aspecto surpreendente do estudo foi que um terço das mães de primeira viagem estava passando por cesariana. Embora se soubesse que o índice geral de cesarianas estava em 32%, acredita-se que uma parte disso corresponda a cesarianas repetidas.

A principal razão para uma cesariana era uma cesariana anterior. Em mulheres que não fizeram cesarianas antes, um fator que pode aumentar o risco de passar por uma é o uso de drogas para induzir o trabalho de parto. A prática tem aumentado e o estudo descobriu que o parto induzido, em comparação ao espontâneo, tinha duas vezes mais probabilidade de resultar numa cesariana.

No estudo, 44% das mulheres que tentavam fazer parto normal tiveram o trabalho de parto induzido. Quando as cesarianas eram feitas após a indução, metade era realizada antes da mulher alcançar 6 centímetros de dilatação do colo do útero, “sugerindo que a impaciência clínica pode afetar”, escreveram os autores. A dilatação completa é de 10cm e uma cesariana antes de ocorrer 6cm de dilatação pode ser cedo demais, acreditam os pesquisadores.

Assim como em outros estudos, este descobriu que poucas mulheres tiveram a chance de tentar parto normal depois de uma cesariana. “Os médicos e as pacientes podem estar menos comprometidos” com o parto vaginal, disseram os autores.

Zhang afirmou que provavelmente o índice de cesariana nos Estados Unidos continuará aumentando, embora ele espere que não chegue ao índice do Brasil (70%) ou da China (60%). Se há qualquer esperança de reduzir esse índice nos Estados Unidos, ou pelo menos desacelerar o aumento, disseram Zhang e seus colegas, o segredo é reduzir os índices desse tipo de parto entre mães de primeira viagem e aumentar a ocorrência de partos normais depois de cesarianas.

* Por Denise Grady

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