No momento adequado, diz especialista, este hormônio pode tanto ser bom quanto ruim

O estrógeno é o mocinho ou o vilão na luta contra o câncer de mama?

Um estudo recente do Journal of the American Medical Association, que analisou dados da extensa pesquisa americana Women’s Health Initiative, sugere que a segunda opção é a correta ao constatar um risco menor de câncer em mulheres que passaram por tratamento com estrógeno em curto prazo.

Esta ideia parece contradizer anos de advertências de que o tratamento à base de estrógeno – antes amplamente prescrito como um antídoto contra os sintomas da menopausa e para prevenir doenças crônicas – alimenta um tipo de câncer de mama muito suscetível ao estrógeno.

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Na verdade, este hormônio pode desempenhar os dois papéis, segundo um editorial publicado na edição de 10 de abril do periódico Cancer Prevention Research.

“No momento adequado, o estrógeno pode tanto ser bom quanto ruim”, disse um dos autores do trabalho, V. Craig Jordan, considerado o “pai” do tamoxifeno e de outros tratamentos anti-estrógeno para o câncer de mama.

É verdade que o estrógeno é necessário para que as células cancerígenas cresçam e se multipliquem, mas quando as mesmas se desenvolvem em um ambiente onde o estrógeno não esteve presente por algum tempo, elas são mortas por uma inundação inesperada do hormônio, ele explicou.

Um estado de privação de estrógeno pode ocorrer anos após a menopausa, quando a produção do hormônio é interrompida naturalmente depois da mulher ter passado por tratamento anti-estrógeno para o câncer de mama.

Em tal estado de privação, Jordan diz que as células aprendem a crescer com uma quantidade mínima do hormônio. “É como se elas estivessem sobrevivendo em estado de inanição”.

“Quando elas começam a formar tumores e voltamos para a dosagem normal de estrógeno, as células interpretam isso como um sinal de morte, pois subitamente estão recebendo uma concentração massiva de combustível de alta capacidade – é uma verdadeira overdose.

É como uma pessoa em estado de inanição, nós não podemos lhe dizer para comer tudo o que quiser no McDonald’s porque assim a matamos”, complementou Jordan, diretor científico do Lombardi Cancer Center da Georgetown University.

É importante lembrar que o tratamento a base de estrógeno só é recomendado para mulheres que passaram por uma histerectomia, cirurgia de retirada do útero, pois o hormônio pode aumentar o risco de câncer do endométrio. Para as mulheres que ainda têm o útero, a recomendação é de um tratamento de hormônios combinados (estrógeno mais progestina), que mesmo assim apresenta riscos de câncer de mama.

É também importante observar que as células do câncer de mama não são estáticas. “Como as bactérias, de certa forma estas células são um alvo em movimento. Elas estão sempre mudando e reagindo ao ambiente”, disse Jennifer Litton, professora de medicina do câncer do Anderson Cancer Center da Universidade do Texas.

“É como uma mini seleção natural. Se elas são expostas a um determinado agente, elas entram em mutação e encontram uma forma de resistir ao mesmo”.

É por isso que muitas mulheres se tornam resistentes a determinados tratamentos e precisam de alternativas que possam tapear estas células em constante evolução.

Os autores do novo estudo concluíram que as mulheres não precisam se preocupar com o alto risco de câncer de mama com o uso do estrógeno em curto prazo. Mesmo assim, o histórico familiar e outros fatores de risco da mulher devem ser considerados antes de recomendar a terapia hormonal.

Entretanto, Jordan adverte que para as mulheres que já têm um tumor na mama, o tratamento com estrógeno não deve ser considerado de forma alguma.

“Se elas estão na pós-menopausa, elas devem optar pelo tamoxifeno ou por um inibidor de aromatase. Estes são os melhores tratamentos a prescrever, pois são de excelente qualidade”.

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Jordan complementou que, em padrão experimental, médicos têm a autoridade de receitar o estrógeno para tratar mulheres com câncer de mama metastático que desenvolveram resistência aos tratamentos anti-hormonais.

* Por Amanda Gardner

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